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Só Preciso de Tempo

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                – Shopping metrô, a porta fechou, o perigo passou!

                Para barrar as frases do vendedor ambulante, Adriano aumentou o volume dos seus fones. Desviou-se dele diversas vezes, levantando o cotovelo do braço com que se segurava à barra metálica. Olhou, inconscientemente, para o painel, onde as bolinhas vermelhas se transformavam em verdes, à medida que avançavam estações. Estava na Santa Cruz, ainda faltavam cinco para chegar ao seu destino.

                – Próxima estação, Jabaquara. Acesso ao terminal rodoviário – informou a voz do autofalante.

                Depois de uma caminhada de dez minutos estaria em casa. Era sexta-feira e nesse dia completava três anos de namoro com Danilo. Haviam combinado um jantar especial em um dos seus restaurantes favoritos, na região da Consolação. Não era barato, mas a ocasião justificava a pequena extravagância para o bolso daqueles dois jovens adultos.

                – Amor, cadê você? – perguntou, adentrando a quitinete, para onde haviam se mudado há pouco mais de dois anos. O acordo por eles definido, desde o primeiro momento, era o de compartilharem todas as despesas. Poderia não ser a 50%, mas fazia sentido para ambos que houvesse um esforço conjunto.

                Do banheiro chegava o som de água corrente, entrecortando o cantar do namorado. Danilo sempre cantava no banho.  Adriano fechou a porta e a trancou por dentro, foi até a lavanderia, largou a mochila e aproveitou para se descalçar. Adorava a sensação de alívio e liberdade que o retirar dos sapatos lhe dava, após de um dia inteiro de trabalho.

                A caminho do quarto pegou um iogurte da geladeira e, já sentado na cama, percebeu que a água havia parado de correr.

                Danilo abriu a porta do banheiro e ofereceu-lhe um sorriso exatamente igual àquele que Adriano viu no primeiro dia em que se conheceram. Acontecera no Ibirapuera, através de amigos em comum, num casual piquenique de domingo.

                – Nem ouvi você chegar, amor.

                Adriano riu e confessou ter preferido ficar escutando a interpretação musical do namorado.

                – Como foi no trampo? – quis saber, como de costume.

                – Tranquilo, mas cansativo. Sabe aqueles dias com um montão de problemas picados?

                Danilo sorriu e regressou ao box para secar o corpo, deixando a porta aberta. Ouviu a TV ser ligada num canal de notícias, onde se analisava a crise econômica, a crise política, a crise da segurança, a crise da crise e outras tantas crises que pudessem existir.

                – Já não bastaram os problemas do trampo?

                – Desta forma, os meus não parecem tão graves – respondeu, com um toque de ironia.

                – Três anos…

                – Que passaram voando – completou Adriano.

                Danilo pegou o namorado pela mão e o beijou, fechando os olhos. Sempre beijava de olhos fechados. Certo dia, quando Adriano lhe perguntou o porquê, respondeu que intensificava os outros sentidos.

                – Já decidiu o que vai vestir?

                – Só penso em tomar um banho – respondeu, num tom de quase desespero.

                – Quero ir bem fashion. Vou levar aqueles sapatos marrons de cabedal e o blazer que você me deu de aniversário, com uma camisa branca. Camisa branca combina com tudo.

                – Pode escolher uma roupa para mim, por favor, enquanto tomo banho? Estou sem inspiração para produções.

                Danilo riu. Ele nunca tinha inspiração para produções! Aliás, o jeito de se vestir nunca foi o seu forte. Lembrava-se, com frequência, da forma como a roupa era censurada quando começaram a ter um pouco mais de intimidade.

                – Amor, aonde você pensa que vai vestido dessa forma?

                – Como assim? A roupa não está boa? – perguntava Adriano, olhando-se no espelho, tentando descobrir algum defeito que lhe teria escapado.

                – Isoladamente, está. Porém, o conjunto é como o estado de muitos relacionamentos que vemos no Facebook: complicado.

                Já haviam passado praticamente dois anos e meio desde que aquela conversa acontecera, cujo resultado foi uma completa mudança de roupa e, posteriormente, de todo o guarda-roupa.

                – Amor!

                – Sim?

                – Para que horas ficou reservado o restaurante?

                – Não temos reserva, porque não reservam após as 21h00.

                Pelo som, o frasco do shampoo caiu no chão do box.

                – Algum problema?

                – Não, está tudo bem! – Respondeu Adriano.

                A luz do quarto fazia com que a aliança de prata brilhasse no anelar da mão direita, informando possíveis interessados que Danilo era comprometido. No interior de cada uma estava gravado o nome do parceiro, seguido da data em que o namoro começou: 19/01/2015, uma segunda-feira. Fora na praça de alimentação de um shopping, depois de comerem um hambúrguer e antes de entrarem no cinema. As coisas mais belas da vida são simples e, muitas vezes, inesperadas. Seis meses depois, compraram as alianças.

                Danilo tinha 19 anos e Adriano 23. Quando este último perguntou «Quer namorar comigo?», Danilo respondeu «Mais e mais, a cada dia que passa». Ambos já tinham namorado outros rapazes, mas nunca com a cumplicidade e companheirismo do relacionamento atual, que iam para além do que alguma vez imaginaram ser possível.

                – Ficou hipnotizado pela aliança? – perguntou Adriano que, ao sair do banheiro, viu seu namorado estático, mirando a mão direita.

                Danilo levantou o olhar e sorriu.

                – Viajei para o dia em que compramos nossas alianças. Adoro cada risco que elas têm.

                – Lembra de quando as escolhemos? Queríamos algo BBB: Bom, Bonito e Barato.

                – Lembra de quando me recusei a deixar você pagar por elas?

                – Eu já trabalhava…

                – E eu já sabia como queria que a nossa relação não fosse – retorquiu, desviando o olhar para a cabeceira da cama. – Aquela embalagem de iogurte vai ficar ali, em cima do criado-mudo?

                Adriano admirava a maturidade e o caráter do seu companheiro, desde muito cedo. Nunca nada havia sido fácil na vida dos dois, mas a infância e adolescência de Danilo fora bem mais complicada. Tal como é complicada a vida da grande maioria de qualquer rapaz negro e pobre que nasce na periferia, agravado pelo fato de ser gay.

                Viúva, e com cinco filhos sob sua responsabilidade, a mãe de Danilo sofria diariamente para colocar comida na mesa. Nem sempre conseguia e havia dias em que a dor da fome que se instalava na barriga de Danilo era tal que, quando o desespero apertava, comia terra. Escolhia aquela vermelha, tipo barro, que engolia sem mastigar. Claro que não tirava a fome, mas disfarçava.

                Nem nunca as lágrimas de frustração que via sua mãe derramar nesses dias, sem as conseguir esconder, o fizeram amaldiçoar a vida que tinha. Porque o amor de sua mãe era infinito e isso valia por toda a fome que pudesse vir a passar; por todo o barro, com gosto a cheiro de terra quando chove, que pudesse comer; por todas as humilhações a que pudesse se sujeitar.

                Sabia que um dia tudo passaria. Que um dia sua vida teria um rumo e que, a partir daí, ele devolveria à sua mãe tudo aquilo que ela fizera por ele, com juros e correção monetária.

                Com uma careta, Adriano pegou na embalagem de iogurte. Amava Danilo, um rapaz que teve tudo para ter dado errado e acabou dando muito certo. Sentia que o conhecia desde sempre, integralmente e, certo dia, movido pela paixão, disse-lhe exatamente isso. A resposta de Danilo o desconcertou: «Nunca conhecemos inteiramente ninguém». Pouco depois, pediu-lhe desculpas pelo comentário infeliz, aparentemente provocado por um dia ruim, e o episódio foi esquecido.

                – O que você acha da ideia de tomar um vinho antes de sair?

                – Acho que não temos vinho, amor.

                – Acho que trouxe uma garrafa na mochila – respondeu Adriano, com um sorriso.

                Danilo beijou-o, enquanto se abraçavam com força.

                – Então acho uma ideia maravilhosa.

                O cheiro do banho recente foi desenhando um rastro no ar, enquanto o casal se movimentou pela pequena sala, dançando. Ambos adoravam dançar, preferencialmente músicas calmas, brasileiras e quentes. Dançaram abraçados, deslizando de meias. O par de taças com vinho tinto repousava na mesa, juntamente com a garrafa já quase vazia.

                – Vamos nos atrasar, né? – observou Danilo.

                – Não tem como nos atrasarmos para algo que não tem hora marcada!

                Danilo riu alto. Adorava aquela forma de ser do seu amor, capaz de misturar, em respostas inusitadas, o óbvio com o humor.

                – Depois da meia-noite estaremos atrasados.

                – A seu lado nunca estarei atrasado! – rematou Adriano.

                – Essa frase de chavequeiro arruinou tudo! – disse, ironicamente. Deu-lhe um beijo e dirigiu-se à mesa, onde pegou as taças.

                Acabaram com o vinho, finalizaram a dança, terminaram de se vestir e saíram.

                Chegaram tarde ao restaurante.

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