Capítulo 1

Projeto 94

Capítulo 1

JAKE

 

Abro meus olhos e estou dentro de um tubo de metal. Assustado, tento em vão empurrar a porta de vidro para sair dele. Meu pai surge em minha frente e tenta tranquilizar-me, fazendo um gesto com as mãos para eu ter calma. Mesmo com medo, sigo seu conselho. Sento-me ereto no banco e pergunto se vai demorar muito, mas ele não me ouve e se dirige para os painéis da sala. Ele mexe em alguns botões e, de repente, ouço um barulho, um som de algo sendo acionado. Uma luz ofuscante acende dentro do tubo e eu fico novamente alarmado e começo a chamar por meu pai, desesperado. Ele aparece ao meu lado, mas não tenta me acalmar como da primeira vez, apenas me encara com um olhar fascinado. A luz parece penetrar cada fibra do meu corpo e sinto algo invadindo meus órgãos. Começo a me sentir estranho e com vontade de vomitar. Tem algo errado comigo. O que está acontecendo? O que é isso que estou sentindo dentro de mim? Isso parece estar mudando tudo aqui dentro...

Então acordo.

***

Paro de correr. Henry apita e aperta o cronômetro.

— Quanto tempo? — pergunto.

— Cara, isso foi absurdamente incrível! — ele vibra. — Parabéns! Bateu seu recorde novamente. A Corrida Anual de Independence já tem um vencedor!

Pego a garrafa de água que está em cima do banco, tomo um gole e sento. Não estou cansado e nem com sede. Estou é frustrado e feliz ao mesmo tempo. Como isso é possível?

— Está sem fôlego? — Henry pergunta percebendo minha preocupação.

Balanço a cabeça negativamente. Olho para o céu e a luz do sol deixa minha visão embaçada. Lembro do tubo.

— Já saíram os resultados dos exames? — Henry pergunta sentando ao meu lado.

— Já. Não revelou nenhum problema, nenhuma alteração genética, simplesmente nada. A medicina não vê nada de errado em mim.

— Então relaxa, pô! Se a medicina não vê nenhum problema contigo, por que você precisa ver? — ele pergunta tomando a garrafa da minha mão e dando um gole também. — Já disse que é coisa da sua cabeça. Você é só um daqueles caras que nasceram para algo, sabe? Tipo, eu nasci para ser bonito, charmoso e treinador de prodígios feito você. — Ele me dá uma cotovelada, tentando me fazer rir do seu comentário.

— Ah, sei lá, às vezes me pergunto se devo mesmo competir em Independence...

— Não fala besteira, Jake. Todo mundo sabe da sua dedicação, você é merecedor desses resultados. Como é que diz o doutor Sturguess? A prática...

— A prática perfeita, traz a perfeição.

— Isso mesmo! Você tem que estar feliz, vai representar nossa cidade, deixar orgulhosos todos que torcem por seu sucesso. E seu pai está investindo muito nisso. Tanto é que contratou o melhor treinador desse estado! — Henry fala fazendo referência a si próprio.

— É... Talvez você tenha razão — minto para encerrar o assunto. — Mas na verdade fui eu quem contratou você.

— Mas o dinheiro é de quem? No fim das contas quem banca é ele, então dá no mesmo!

Despeço-me de Henry e aviso que não treinarei mais naquele dia. Saio da pista de corrida da escola — que foi cedida especialmente para meus treinos — e começo a recordar o sonho que tive na noite anterior. Em seguida penso na energia que tomou conta de mim enquanto corria e me fez dar três voltas num circuito de 7,5 km em apenas cinco minutos.

***

Estaciono o carro em frente à Genetic Corporation. Fico ali parado alguns minutos observando o império que meu pai construiu. O mais interessante é que não costumo vir à empresa e apenas o que sei sobre ela, é que é um lugar que lida com o diagnóstico, tratamento e controle dos distúrbios genéticos e hereditários.

Volto a lembrar do sonho da noite passada e que parecera tão real, como se fosse uma lembrança. Lembrei-me de ver no sonho uma sala que nem sabia ao certo se realmente existia. Na verdade, outra coisa me atormentava e, depois do resultado do treinamento da corrida, só aumentaram as minhas suspeitas de que havia algo de errado comigo.

Sempre me achei diferente dos outros. Talvez não sempre, mas desde que comecei a entender melhor as coisas. Às vezes sentia que havia algo em mim que não era natural, algo que não me pertencia, mas que passou a fazer parte de mim: a minha velocidade. Comecei a perceber isso ainda na escola, quando praticava qualquer esporte, sentia a adrenalina emanar como uma energia que me envolvia por completo e quando essa força me dominava era como se eu tivesse um tipo de poder que me fazia correr mais do que os outros — como se eu ficasse mais rápido do que eu realmente era —, atingir ótimos níveis de velocidade e bater recordes. Como se eu não fosse um ser humano normal.

Será que estou delirando? Sinto vontade de entrar na empresa do meu pai e relatar tudo a ele, todas as indagações que estavam fervilhando na minha cabeça, mas seria uma péssima ideia, com certeza ele me acharia um louco e isso só iria piorar nossa relação. Desde que minha mãe morreu, nossa relação passou a ser mais de médico com o paciente do que de pai para com o filho. Acho que, de certa forma, ele me culpa pela morte dela. Talvez, preferisse que eu tivesse morrido no acidente e não ela.

Meu pai a cada dia que passa se torna mais viciado no trabalho e eu mal o vejo, mas procuro entender o lado dele também. Eu sei a falta que minha mãe faz.

Meu celular vibra e vejo que é uma mensagem do Alex. Ele já está me esperando na lanchonete, então dou a partida no carro e saio dali tentando tirar essas coisas da minha mente.

***

Nove chamadas perdidas, deve ser a Rachel. Já posso pressentir.

— Você vai na festa da Susan, né? — pergunta Alex.

— Vou sim. Estou precisando mesmo me distrair.

— E como você vai fazer para se livrar da grude? — pergunta ele, referindo-se a Rachel. Meu celular começa a vibrar: é ela novamente.

— Oi — falo ao atender.

— Como assim, oi? Por que você não me chama de amor? Você não me ama mais, é isso? — ela começa a perguntar do outro lado da linha. Logo cedo e já dando chilique, eu já não consigo mais suportar. Alex ri enquanto ouve nossa conversa.

— Rachel, menos. Não estou a fim de brigar — declaro.

— E eu, estou? Por que você não me atendeu, Jake? Onde você estava e com quem?

— Como você já sabe, fui treinar na escola com o Henry. Assim como faço todos os dias — respondo tentando manter a calma.

— E por que você não me atendeu? Custava ao menos mandar uma mensagem?

— Meu celular estava no silencioso e não vi quando você ligou. E não te mandei mensagem porque nós já vamos nos ver mais tarde, não é?

— Nossa, é assim que você demonstra amor por sua namorada? — ela já começa a fazer voz de choro.

— Rachel, por favor, não começa... — imploro sem paciência, no mesmo instante em que duas garotas passam pela mesa onde estou com Alex.

— Oi Jake, seu lindo! — diz uma delas e eu apenas aceno com a cabeça e sorrio.

— Quem foi essa piranha que te chamou de lindo? Onde você está? — ela volta a perguntar, desta vez mais irritada ainda.

— Ei... — Alex chama as garotas — vocês esqueceram de falar oi para o amigo dele aqui, que é bem mais bonito do que ele, por sinal. Voltem aqui!

— O que esse prego do Alex está fazendo aí com você?

— Ei, prego é a... — ele começa a falar e eu o interrompo, fazendo um sinal para que Alex ficasse quieto e não piorasse as coisas para mim.

— Você está me traindo? É isso? É isso, Jacob Sturguess? — ela começa a gritar sem me dar a oportunidade de falar e me defender.

— Escuta Rachel, não dá para conversar com você agora. Depois a gente se fala, está bem? Beijos, amor! — falo irônico e desligo o celular. Chega de drama por hoje.

— Como você aguenta essa garota? Tudo bem que ela é gost... — encaro Alex fazendo-o deixar morrer a frase. — Eu quis dizer, gata. Com todo respeito, claro. Mas sério, eu no seu lugar já teria terminado esse namoro muito tempo — continua a falar, mas então para e pensa um pouco. — Na verdade, talvez não. Porque se eu pegasse uma gata feito ela, seria tipo um presente dos deuses. Mas você pode ter a garota que quiser. É rico, famosinho, musculoso, bonitão, pegador...

— Estou te estranhando Alex! — digo para mudar de assunto.

— Engraçadinho!

E como num passe de mágica — droga, devia ter imaginado que ela estava me seguindo e ligou para me testar —, Rachel entra na lanchonete. Ela empurra a porta como se estivesse entrando num saloon daqueles filmes de faroeste, tira os óculos escuros e começa o barraco. Ferrou!

— Quem é a desgraçada que estava dando em cima do meu namorado? — ela grita e aponta para uma garota que está sentada ao lado do balcão, tomando um suco. — É você, sua piranha, que está querendo roubar o Jake de mim?

— Você está louca... — é tudo o que a garota consegue dizer antes de Rachel voar para cima dela, puxar seus cabelos e começar a rolar com ela pelo chão.

As pessoas começam a formar um círculo para ver a briga, mas levanto e corro com Alex em direção a elas e tento separá-las. Levo uns tapas e umas unhadas, mas nem consigo ver de qual delas. Os garçons chegam e me ajudam a acabar com a briga. Na verdade, eles me ajudam a segurar Rachel, que parece estar possuída. Ela não para de gritar, xingar e querer partir para cima da garota de novo.

— Rachel, para com isso! Você está doida? — grito para ver se ela volta a si. Odeio barraco.

— Doida vai ficar essa baranga, quando eu terminar de quebrar a cara dela — retruca tentando acertar um soco na garota, mas nós a impedimos.

— Essa garota é doente — esbraveja a garota recém-atacada e vejo que seu cabelo está todo desgrenhado.

— Doente? — Rachel pergunta e eu já me preparo para segurá-la novamente, mas ela apenas respira fundo. — Tudo bem, chega! Pode me soltar, acabou. Eu vou embora — ela fala, mas eu custo a acreditar, então continuo segurando-a. — Jake, me solta caramba! Já disse que parei.

Resolvo soltá-la, mas fico desconfiado mesmo assim. Ela se arruma e vira-se dirigindo-se para a saída. Ufa!

— Doente... E você será uma defunta, porque eu vou te colocar a sete palmos abaixo da terra! — anuncia, virando-se rapidamente e vindo correndo na direção da garota, tentando dar o que parece ser uma voadora. Que vexame!

Percebo que o jeito é sair dali, então pego Rachel, jogo em meus ombros e saio com ela de lá esperneando, se debatendo e eu morrendo de vergonha.

***

Rachel e eu nos beijamos e depois ela sai do carro. Quando ligo o motor novamente, ela retorna e me dá outro beijo, depois entra na sua casa. Mais uma vez, não consegui terminar o namoro. Ela começou a chorar, dizendo que me amava e que iria mudar. Pediu mais uma chance, como nas outras vezes. Não posso ver mulher chorando, então aceitei suas desculpas, mas avisei que essa seria a última vez.

Nosso relacionamento havia começado a um ano, em uma balada que a galera tinha feito para comemorar o término do nosso segundo semestre na faculdade. Eu estava muito bêbado e só lembrei que tínhamos ficado juntos quando acordei ao lado dela no dia seguinte, com uma tremenda dor de cabeça.

Desde então — coincidentemente —, ela aparecia em toda festa que eu ia e sempre dava um jeito de se aproximar de mim, e no fim, acabávamos ficando novamente. Como ela era a única garota com quem eu estava saindo, resolvi que poderíamos tentar algo sério e começamos a namorar. Escolha errada, no dia seguinte ela já estava me contando que havia sonhado que nos casamos e começou a falar até do vestido que usaria e inclusive de filhos. Eu gosto dela, mas não a amo. O problema são as crises de ciúmes, sem falar que ela é muito pegajosa e possesiva.

Nosso relacionamento começou a se desgastar por causa dessas coisas e eu passei a não aguentar mais os acessos de fúria dela. Comecei a pensar em um jeito de conseguir me livrar dessa roubada, mas até suicídio ela já disse que cometeria, caso eu terminasse nosso namoro.

Estou ferrado e não sei o que fazer para me livrar dessa Dona Encrenca!

***

Crianças Índigo, Estrela ou Azuis. São crianças com poderes especiais, que vão desde a clarividência à telecinese e utilizam mais o lado direito do cérebro do que o esquerdo. Elas vão conduzir a humanidade a uma nova era.

Sério que estou lendo isso? Nem sei como cheguei a esse ponto, só lembro que comecei a pesquisar no Google sobre minha velocidade fora do comum e muitas informações apareceram na tela. A única coisa de que tenho certeza é que os números que alcancei no treino são muito acima do normal e quase fisicamente impossíveis — o que eu já sabia.

Meu celular vibra. É Rachel. Não estou com cabeça para isso agora, então desligo o aparelho e começo a pesquisar sobre a Genetic, mas não encontro nada demais, somente algumas matérias sobre prêmios que a clínica ganhou e elogios da crítica especializada. Nada que me ajude. Preciso de respostas.

***

— Posso entrar? — pergunta a voz de Betsy, me fazendo sair do cochilo. Ajeito-me na cama com o notebook no colo.

Betsy é nossa empregada, a típica governanta que já faz parte da família. Como meu pai sempre foi muito ocupado e ausente, ela sempre foi como um ente querido para mim e me tratou com muito carinho, como se fosse uma mãe adotiva, sempre protetora e carinhosa. Mesmo tendo mais de quarenta anos, Betsy não aparenta a idade que tem, acho que devido a sua pele morena.

— Pode, sim — respondo.

Ela abre a porta e senta-se ao meu lado com sua longa saia roxa, uma camisa de manga comprida lilás que a gola já faz um formato de lenço e seus cabelos negros amarrados em um coque.

— Pensando na Corrida Anual de Independence? — pergunta pondo sua mão sobre a minha.

— Sim — respondo, tentando esconder que minhas reflexões iam muito além disso.

— Jake, eu te conheço desde que nasceu e sei bem que uma das coisas que você não sabe fazer é mentir. — Betsy diz calmamente com um carinho que me faz lembrar de minha mãe.

— Não estou mentindo, Betsy — disfarço e começo a mexer no notebook.

— É verdade, você está parcialmente mentindo. Sei que tem mais coisas nessa cabecinha. Só quero que você saiba que se quiser desabafar, eu estou aqui. Pode contar comigo.

— Valeu, Betsy. Eu sei disso, você é minha mãe substituta e sabe disso também. Mas, acho que não é nada demais, só muita coisa na cabeça, corrida chegando, faculdade, namorada louca, pai ausente. Sabe como é né, essas coisas — confesso.

— Bem, como diria Jack, o estripador; vamos por partes. Sobre a corrida: Não se preocupe Jake, tudo vai dar certo. Suas outras corridas te guiaram para esse momento, você está tão preparado quanto os outros competidores. Olha só quantos prêmios você ganhou — fala, mostrando com os olhos os troféus e medalhas espalhados pelo meu quarto, na parede e na estante. Sigo seu olhar e lembro de cada corrida, da energia fluindo pelo meu corpo até meus pés e me fazendo ultrapassar todos os outros. Ela pega uma medalha que está pendurada na parede e me mostra.

— Lembra desta?

— Sim — afirmo olhando para a medalha antiga que ganhei na minha primeira corrida.

— Você estava tão nervoso nesse dia. Nunca vou esquecer sua expressão, entusiasmado e nervoso. Você não parava de roer as unhas e tive até que te dar um tapa para você se controlar e não comer os dedos — ela ri com a lembrança e eu escondo minhas mãos do alcance dos seus olhos. Ela não poderia ver como minhas unhas estavam naquele momento.

— Eu lembro que não via a hora do meu pai chegar e ficava lhe perguntando se ele já estava a caminho.

— Mas seu pai sempre foi um homem muito ocupado, Jake. Ele não pôde ir, infelizmente. Mas você correu com tanta vontade naquele dia, foi lindo ver sua garra, seu esforço, sua persistência. Tive tanto orgulho de você, meu menino!

— Só você mesmo, Betsy. Obrigado — agradeço e então pego a medalha de sua mão. Fico observando-a, eu tinha doze anos na época. — Fiquei tão feliz que comecei a usar a medalha todos os dias, não tirava nem para tomar banho e se não fosse por você me ameaçar, eu não teria deixado de usá-la.

— A cada corrida você foi melhorando, ficando mais confiante. Não se preocupe demais, apenas faça o que você sempre fez. Dê o seu melhor.

— Hum... Já acabou o “momento autoajuda da Betsy”?

— Ainda não. Sobre a questão da namorada louca: filho, eu não sei por que ainda insiste em ficar com essa garota. Eu, no seu lugar, já teria terminado esse namoro há muito tempo.

— Você é a segunda pessoa que me fala isso hoje.

— Sinal de que estou certa. Onde já se viu? No meu tempo as mulheres se valorizavam mais. Como vocês dizem hoje em dia: a Rachel é muito “sem noção”.

— Eu sei, Betsy, mas toda vez que tento terminar com ela, é aquele show de chororô, as promessas de que vai mudar, que tudo será diferente — conto.

— Típico. Mas se você não gosta dela — digo gostar no sentido de querer algo sério com ela. Sei o quanto vocês homens são safados e às vezes só pensam na parte física da coisa —, mas se ela não é a garota que você quer realmente namorar, tome coragem e faça o que é necessário. Assim você será mais feliz e ela também. Tem uma frase que gosto muito e que diz assim: “escolha quem você ama e ame sua escolha”.

— Acho que entendi o que você quer dizer com isso. Valeu mesmo.

— E sobre seu pai... Ele só precisa do nosso apoio, a morte da sua mãe o abalou muito. Você sabe que o trabalho foi a maneira que ele encontrou para fugir disso. Mas ele se preocupa com você sim, tanto é que todo dia fala pergunta ao Henry como foi seu treino.

— Como assim? Como você sabe disso? — pergunto, achando muito estranho esse repentino interesse do meu pai em mim, ou melhor, nos meus treinos.

— Todos os dias quando seu pai chega da clínica ele telefona para o seu treinador. Já ouvi sem querer várias vezes as conversas deles quando estava entrando no escritório, mas seu pai sempre disfarça quando percebe minha presença. Está vendo como ele gosta de você?

Queria ver as coisas com os olhos de Betsy, mas não consigo. Tem algo de errado aí — pensei. Meu pai nunca assistiu a uma corrida minha, nunca perguntou nada. Por que esse súbito interesse de repente? Eu nem sabia que ele e meu treinador se conheciam, o Henry nunca disse nada sobre isso. Mas, espera aí, “... seu pai está investindo muito nisso. Tanto é que contratou o melhor treinador desse estado”.

Lembrei-me do que Henry dissera no treino. Na hora nem me dei conta, até porque ele foi rápido em consertar o que disse antes que eu percebesse que havia algo de errado no seu comentário.

Mas como pode ser? Eu mesmo pesquisei sobre o trabalho dele e o escolhi para me treinar. Por que ele nunca mencionou que falava com o meu pai? Eu precisava descobrir.

— É, acho que você tem razão. Devo estar carente, sei lá — minto. — Mais uma vez, obrigado Betsy. Não sei o que seria de mim sem você, sabia?

— Eu sei disso. Mas vim aqui te chamar para jantar, fiz aquele filé de frango à milanesa que você adora.

— Nossa! Isso é golpe baixo, mas estou sem fome...

— Mas você precisa comer. Não quero ver você por aí desnutrido, desmaiando no meio dos treinos. O que vão dizer de mim? Que sou uma governanta que não cuida bem de você! Tenho uma reputação a zelar! — falou, me fazendo rir.

— Mas... — tento argumentar.

— Não tem mas, nem meio mas. O senhor vai comer algo e ponto final. Sem falar que hoje não seremos só nós dois, seu pai está aqui, chegou da Genetic há algumas horas e está lá no escritório.

— Hum — percebo aonde ela quer chegar com isso.

— Seria bom se você fosse lá, o chamasse para jantar, contasse como foi seu treino hoje...

Nem preciso. O Henry já deve ter feito isso por mim!

— Vocês precisam de momentos assim. Vai ajudar.

— Sinto que a fada Betsy está tentando mais uma vez aproximar pai e filho, certo? — pergunto e Betsy sorri — Está bem, vou chamá-lo.

Levantamos, beijo-a, abraço-a e depois faço cócegas nela, o que a faz perder a compostura e dar uns tapas na minha mão‏.

— Quieto menino! Você sabe que não gosto disso — fala se arrumando, tentando parecer brava e depois sorri novamente.

Desço as escadas correndo e vou em direção ao escritório do meu pai. Bato na porta e chamo, mas ninguém responde. Tento mais uma vez, novamente silêncio, então abro a porta e entro. A sala está vazia, somente as estantes estão lotadas de livros, os sofás e sua mesa repleta de papéis e o notebook está sobre a mesa. Caminho até a mesa e vejo que o notebook está ligado, mas bloqueado com senha. O cartão de identificação dele para entrar na clínica, as chaves e o celular também estavam ali.

— Algum problema, filho? — pergunta a voz de meu pai atrás de mim, dando-me um pequeno susto.

Viro-me e lá está meu pai, um homem de quarenta e cinco anos, barba por fazer, usando um jeans tradicional e uma camiseta polo. Mesmo estando em boa forma física, meu pai parece abatido. Penso em perguntar sobre Henry e seu interesse pelos meus treinos. Penso em falar sobre meu sonho com a Genetic. Penso em falar sobre minha velocidade e até mesmo em tocar no assunto da morte da minha mãe. Mas não consigo tocar nesses assuntos quando ele me encara, então, apenas guardo tudo isso comigo.

— Não, pai. A Betsy me disse que o senhor estava em casa e vim te chamar para o jantar.

— Estou sem fome agora — responde ele friamente.

— Eu disse a mesma coisa, mas ela me convenceu. Sabe como é a Betsy. E ainda fez filé de frango à milanesa... — tento puxar assunto.

— Tenho alguns relatórios para fazer, depois como alguma coisa — ele me interrompe tentando encerrar a conversa.

Então meu pai senta-se na sua mesa, desbloqueia seu notebook, coloca seus óculos e volta a fazer suas pesquisas. Eu permaneço ali parado, não de propósito. Ele nem percebe o banho frio que acabou de me dar, tampouco me dá atenção. É como se ele não estivesse mais me vendo ali. Saio do escritório e bato a porta com um pouco de força, de propósito.

***

— Alô? — falo ainda com os olhos fechados.

— Amor? Por que você não me atendeu mais? Por que você não respondeu as mensagens que te mandei? — pergunta Rachel com voz de choro.

Olho para o relógio no criado mudo: 03h02min.

— Rachel, já é de madrugada! Vai dormir!

— Por que você faz isso comigo? — pergunta soluçando.

Oh, Lord!

— Isso o quê? Rachel... amor... são três horas da manhã. Eu e você precisamos dormir!

— Eu não quero dormir! Quero conversar, estou com saudade! — fala começando a alterar o tom de voz.

Essa garota é completamente pirada!

— Rachel, que tal fazermos o seguinte: vamos dormir agora e amanhã conversaremos, eu prometo. Podemos ir a um lugar legal e ficar algumas horas juntos, só nós dois. Até deixo você escolher o lugar. Desculpe não ter atendido, mas eu não vi suas ligações — minto — nem vi suas mensagens. Vou procurar melhorar isso, está bem? Podemos fazer assim? — sugiro, tentando não perder a cabeça. Sento na cama e conto dez, vinte, cem carneirinhos...

— Você tem outra né, Jake? Confessa!

— Rachel, para de ver pelo em ovo!

— Então agora eu sou louca, é isso? É isso, Jacob Sturguess? — ela diz já berrando e isso só me deixa mais nervoso e aumenta o meu mau-humor por ser acordado de madrugada.

— Chega! Chega Rachel! — interrompo cansado de tudo aquilo. — Nós já conversamos sobre isso hoje, lembra? Não aguento mais isso, nosso namoro está um saco, um inferno! Você não muda, não adianta. Para mim já deu, acabou! Espero que você conheça outro cara e seja feliz. Boa noite! E você precisa se tratar! — falo por fim e nem a deixo responder, desligo o celular em seguida.

A Betsy tem razão, será melhor assim. Sei que ela não vai desistir tão fácil e vai causar muita confusão ainda, mas estou cansado demais para pensar nisso. Deixo para me preocupar com meus problemas quando acordar, no dia seguinte. Volto a dormir.

***

Abro os olhos e estou dentro do tubo de metal. Assustado, tento em vão empurrar a porta de vidro para sair dele. Meu pai surge em minha frente e tenta tranquilizar-me, fazendo com as mãos para eu ter calma. Sigo seu conselho, sento-me no banco e pergunto se vai demorar muito, mas ele não me ouve e se dirige para os painéis da sala. Vejo meu pai se juntar a um homem e a uma mulher, que imagino serem os seus assistentes. Ele mexe em alguns botões e de repente ouço um barulho, um som de algo sendo acionado. Olho ao redor e vejo mais quatro crianças em outros tubos semelhantes aos meus. Dois meninos e duas meninas. Vejo que eles estão com tanto medo quanto eu. Uma luz ofuscante acende dentro do tubo, eu fico assustado e começo a chamar por meu pai, desesperado. Ele aparece ao meu lado, mas não tenta me acalmar de novo, apenas me encara com um olhar fascinado. A luz parece penetrar cada fibra do meu corpo e sinto algo invadindo meus órgãos. Começo a me sentir estranho e com vontade de vomitar. Tem algo errado comigo. O que está acontecendo? O que é isso que sinto dentro de mim? Isso parece estar mudando tudo aqui dentro...

Então acordo.

Dessa vez o sonho foi diferente, novos detalhes foram acrescentados e só consigo pensar em um deles: havia mais quatro crianças junto comigo. Quatro.

Capítulo 2