Desde Que Mãe Morreu

Desde Que Mãe Morreu

Desde Que Mãe Morreu

     Desde que mãe morreu e eu fiquei sozinho em casa, não passo das quatro e cinquenta e nove. Quinta passada fui no posto de saúde aqui do bairro.

     – Sempre a mesma hora?

     – Sempre a mesma hora.

     O médico me encaminhou para um psicólogo.

     O psicólogo pediu que eu marcasse uma consulta com o psiquiatra.

     Hoje, às quatro e cinquenta e nove, decidi levantar e dar um fim nas coisas de mãe. É difícil, pensei, até porque tem noite que ainda durmo na cama dela, mas a vida tem que seguir.

     Enquanto coava o café, fui abrir a porta pra que aliviasse um pouco o abafado – afinal, é janeiro –, mas a porta já estava aberta. Devia ter esquecido de novo. Um perigo já que o vigia noturno se acidentou e ainda não foi substituído.

     Sentei na mesa e enchi a xícara.

     O ar da madrugada correu na minha nuca parecendo respiração.

     Antes de levar o café à boca, soprei pra esfriar. A superfície tremia.

     E refletia um rosto olhando para o meu.