Capítulo Único

Flores e Armas

Capítulo Único

Todas as minhas tentativas foram inúteis e falhas. Não consegui evitar o que para muitos seria inevitável, mas os meus olhos encantados não conseguiam aceitar que aquela luta já estava perdida há muito tempo. Eles fizeram o que queriam fazer com ela, assim como muitos homens fizeram outras vezes. A diferença é que antes os homens que a desejavam, pagavam para tê-la em seus braços imundos por apenas uma noite. Se quisessem mais, deveriam procurá-la outras vezes e aceitar o preço que ela cobrava. E ela não me cobrou mais na segunda vez.

Eu não queria aceitar que ela estava no fim dos seus dias. Tudo o que eu fiz foi tentar protegê-la e amá-la, e cuidá-la como um homem de verdade faria. Lembro-me do dia que a conheci. Eu, um cliente como outro qualquer, mas que foi capaz de enxergar nela muito mais do que os outros que a tiveram antes. Ela me acompanhou até um motel, ela me tocou, eu a toquei, eu a coloquei na cama, ela me conduziu, eu a tomei nos meus braços e ela gemeu agradavelmente enquanto nós dançávamos juntos sob a luz vermelha do quarto barato daquele motel longe do Centro da cidade.

Não muito tempo depois, reuni a coragem necessária para procurá-la mais uma vez. Ela não me cobrou mais caro, mas eu não tinha ido até a esquina onde ela fazia ponto para levá-la ao motel mais uma vez. Eu a convidei para sair e assim, ela tornou-se minha namorada depois de alguns encontros normais.

O que eu tinha na cabeça? Oras, nada. Eu a queria, ela me quis, nós formamos um casal. Clara, seus cachos negros, seus olhos grandes e redondos, sua pele cor de caramelo, seu corpo de sutiã tamanho 44 e calças de quadris do mesmo tamanho. Lábios sempre pintados de cores fortes, unhas feitas com esmaltes de cor escarlate, renda, azul marinho, roxo ou preto. Ela gostava de violetas e lírios, de chocolate e vinho, de cerveja amarga e suco de laranja. Amei-a de todo o meu coração por dois anos e a fiz sair da vida de prostituta. Ajudei-a a se libertar daquela imundície.

E depois de anos ela voltou para a cidade onde trabalhava antes para visitar uma amiga que seria mãe em poucos meses. Eu apoiei a viagem, disse que faria bem à ela, que ela ficaria feliz em reencontrar os seus conhecidos. Eu só a empurrei para a morte.

Clara foi reconhecida por um grupo de arruaceiros que frequentava o bairro onde ela costumava se prostituir. Eles a amarraram, eles a estupraram, eles a fizeram sentir o gosto de cinco homens diferentes, eles a usaram como um objeto e espancaram o seu corpo até que o coração dela parasse de bater. E quando me lembro de tudo isso, vejo que ainda dói como o inferno.

Tudo o que me restou foram as suas coisas. Seus batons, seus perfumes, suas roupas, seus sapatos, o seu cheiro e o vaso de violetas na janela do meu apartamento.