A coroação

Marli

A coroação

Cento e sessenta quilos. Um metro e noventa. Jandir era o terror do presídio. Desfilava a superioridade pelos corredores, pelo pátio. Escolhia aonde sentar e o que comer.

Preso por pelo menos cinco homicídios, corria a boca miúda a crueldade dos crimes. Ele não negava nada.

Era temido por carcereiros, policiais e imune a facções e gangues. Pouco se metia em confusão. Nas que se meteu acabou quebrando as pernas e os braços de dois amigos.

Odiava estuprador e traficante

- São a escória da escória.

Ostentava com orgulho as tatuagens macabras e o sorriso dourado. O cabelo raspado e a barba cerrada aumentavam o respeito. E ele andava monárquico pelos corredores, olhando para todos, sem recíprocas. Jandir era o maioral.

Entrava na cela que dividia com Marli, travesti magrelo preso dezenas de vezes por arruaça e tráfico. As portas fechavam. O breu. Madrugada Marli levantava submissa e tirava os sapatos do gigante, passava unguento nas assaduras das dobras obesas, braços, coxas. Terminava encontrando o guerreiro debaixo da barriga flácida e fazia o gorducho estrebuchar. Era a troca. Pequenos favores para uma grande proteção. E Marli nem ligava. Se afeiçoara ao Jandir.

- Ele daquele jeito dele é carinhoso. Me chama até de minha bonequinha de porcelana. Um romântico por baixo daquela crosta de machão.

E numa dessas noites de mimos, Marli tropeçou no escuro e caiu por cima do imenso assassino. Um tapa, dois.

- Você é uma porra de uma bicha desastrada.

Marli quis chorar.

- E cala a boca porra, antes que eu mate você também... Seu merda.

Dia amanhecido.

Os presos correm.

Jandir estatelado, de olhos arregalados, com a banha escorrendo pelos trinta e sete buracos de faca feito por Marli, que nem se movia, olhando o corpo imenso e gelatinoso esparramado na cela.

- Ele mereceu.

Jogou a arma no chão. A turba abria caminho em silêncio. Saiu calmamente. Com andar monárquico, esgueirando a magreza pelos corredores. Marli desfilava. Agora o presídio tinha uma rainha.