"LIBERTAÇÃO"

"LIBERTAÇÃO"

"LIBERTAÇÃO"

LIBERTAÇÃO

 

 

 

             

Há anos vivendo na França, Regiane só pôde retornar ao Brasil, dois meses após a morte da mãe. Foi visitar o túmulo, levar algumas flores e rezar. Não compreendeu a inscrição na lápide: “LIBERTAS QUÆ SERA TAMEN”.

O pai não sabia o motivo daquele epitáfio insólito. A tia entregou-lhe o diário da falecida. Que lesse com atenção e encontraria a resposta.

À mediada que passava as páginas do caderno, Regiane voltava no tempo. “Toda noite ele chega bêbado e me bate...” Quando era bem pequena, parecia ouvir a mãe chorar. Não conseguia acordar, não entendia se era sonho... “Hoje, fui pedir dinheiro e ele me deu um soco...” Lembrou-se do dia. Quando chegou da escola, ela estava com um hematoma enorme. Disse que havia batido na quina da mesa. Mamãe desastrada, que mico! “Estou acamada há um mês. Ele me surrou até eu perder o bebê...” Nunca soube disso. Na época, estava de férias no sítio do avô. “Não posso me separar. Ele ameaça me matar.” Entendeu porque papai era bacana e mamãe era chata, chorona e vivia triste. “... saiu com as crianças e me trancou em casa.” Papai dizia que mamãe não gostava de sair, não queria ir.

Como pôde viver mais de vinte anos naquela casa, sem perceber nada? Negligenciou os sinais ou talvez, a inocência da infância e as efervescências da adolescência impediram-na de percebê-los. Depois de adulta, distanciou-se. A mãe e seus queixumes eram coisas pequenas, despendiosas. Terminou a leitura em profunda tristeza e remorso. Infelizmente, o lema da bandeira de Minas Gerais “LIBERDADE AINDA QUE TARDIA” era bem adequado como epitáfio da mãe.

 

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