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A menina do outdoor

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A garrafa caiu e se desmanchou em mil cacos.

            Lya pulou. Seu pai, enevoado de álcool, resmungou, deitado ao lado da caçamba:

            — Cuidado, menina idiota.

            — Foi sem querer.

            Ela afugentou os estilhaços com os pés descalços, sujos, e voltou a vasculhar o lixo.

            Aquele beco escuro, verde-musgo mofado, incrustado na avenida principal, era disputado pela escória. As lojas ao redor usavam de suas caçambas para descartarem caixas, coisas quebradas, cadeiras velhas, restos de almoço. Em sua vez, o pai-sempre-bêbado de Lya encontrara uma touca, que já ornava seu cabelo imundo. Agora, a menina de nove anos buscava algo para aquecer os pés.

            Qualquer coisa, qualquer coisa, por favor. Enfiava a mão nas sacolas negras e azuis, uma orquestrinha soando latas e plástico e vidro, retirando e revirando, esmiuçando, bagunçando tudo.

            Qualquer coisa, qualquer coisa, meus pés tão congelando. Lya já usava peças presenteadas pelo lixo: uma touca azul furada, uma jaqueta vermelha e camiseta manchada, uma calça surrada, e, como seu único par de meia estava molhado, qualquer coisa, por favor, está muito frio...

            Não havia nada.

            — Estou com frio, pai — reclamou. — Meus pés tão doendo.

            — Para de chorar, menina chata. Toma um gole disso aqui, aquece a barriga.

            Ansiosa, correu até o pai, que virou o aguardente em sua boca. Mil lâminas ardentes escaldaram sua garganta e ela virou o rosto, com ânsia.

            — É muito ruim.

            O pai riu, a boca cheia de chiado e dentes podres.

            — Não reclama. Agora vai deitar.

            Lya choramingou e cuspiu. Mas antes de se render ao seu cantinho escuro de papelão, foi espiar o outro lado da avenida. Ver o outdoor. Desde que fora colocado ali, o painel luminoso aquecia nela um sonho agradável e afável, de ser aquela menina da foto grande, tão alegre e tão agasalhada, tão aquecida numa blusa rosa e luvas rosas.

            — O que tá fazendo agora? — perguntou o pai, impaciente.

            — Nada... só estou olhando aquela menina. Queria ser ela.

            — Queria... — desprezou. — Vem logo pra cá, para de sonhar, menina besta.

            — O que está escrito lá, pai?

            — Já não te falei que não sei ler?

            Lya queria ser aquela menina, queria mesmo, tão bem agasalhada, longe da chuva fria, longe da travessa enegrecida de descaso. E era quase como se a conhecesse, pois algo em seus olhos e em seu jeito lhe era familiar. Curiosa para saber o que se anunciava, chamou por um rapaz que caminhava de guarda-chuva, casaco e luvas, botas e meias.

            — Moço, o que está escrito ali? — perguntou, apontando para a menina do outdoor.

            Ele quase respondeu: não tenho dinheiro, mas a pergunta fez sentido em sua cabeça.

            — Ali diz: “nesse inverno, doe um agasalho para quem precisa” — e seguiu seu caminho.

            Lya ficou petrificada, ali na chuva gelada, pés sem meias, calejados de miséria. O outdoor era um espelho dela mesma, mas refletia uma menina pobre agraciada pela generosidade de estranhos, quentinha, de sorriso satisfeito.

            Eu sempre fui aquela menina.

            Sem nunca ser.