Rua sem saída

Rua sem saída

Rua sem saída

    As chagas púrpuras daquele mendigo eram para ele como que instrumentos de trabalho. As feridas fétidas, adornadas por um sorriso de orgulho no vazio da boca sem dentes, eram exibidas como artigos de gala para os poucos transeuntes  que conseguiam enxergá-lo.

    Ele era apenas  mais  um  dentre  vários  na  região  que  por  entre  os labirintos  dos  edifícios  se perdiam, ou deixavam se perder.

    Eles não iam sozinhos. Levavam a solidão. Esses mendigos se arrastando pelo chão, pareciam soldados entrincheirados, sedentos e derrotados. Eles acenavam dos chafarizes onde se  lavavam,  dos  bancos e  árvores  onde  descansavam  à  sombra.  Mas  de  nada adiantava,  pois os  olhares  que  vinham  de  encontro   a   eles, perfuravam, transpassavam tudo que estava  à  frente:  carnes  e ossos, ferros  e concretos.  Olhares  sempre  firmes  em direção a linha do horizonte. Nunca para baixo, nem para os lados.  Fazendo  esses miseráveis  se sentirem  invisíveis  e, invisível também tudo o que eles tocavam.