Morte e Maresia

A Morte da Sereia

Morte e Maresia

Estava no barco, contornando a costa de Tulcea, quando ouvi o canto de sereia. Ela logo emergiu das águas, a bela negra de olhos cor de ônix. Quis subir na embarcação, e como eu poderia recusar um pedido tão melífluo?

Logo que a puxei do mar, envolveu-me com sua cauda num aperto ardiloso. Tentava me asfixiar, a perversa criatura... E em sua ânsia por dar cabo da vida de mais um marinheiro solitário embevecido por seus encantos sobrenaturais, não podia adivinhar que eu era Vladimir, O Pescador. 

Ela misturava a determinação que era particular às mulheres romenas com o langor agressivo das criaturas marinhas, mas ainda assim não conseguia me vencer em minha força bruta que era resultado de mil décadas de batalhas e ferozes conquistas. Quando me fartei de suas artimanhas bestiais, atirei-a sobre os chifres aguçados da figura de proa, empalando sem qualquer piedade o corpo venusto.  

Inflamado pelo combate, não fui capaz de resistir àquela funesta beleza e, afundando meus dentes afiados em seu pescoço inerte, bebi o sangue ainda quente, sentindo o gosto de morte e maresia se quebrar como uma onda violenta sobre minha língua desejosa.  

Uma vez arrefecido o êxtase, girei o leme, mirando a beldade liquidada. Para minha admiração, ela abriu os olhos negros e esboçou um sorriso desdenhoso.

A sereia estava morta, e nascia em seu lugar uma criatura nunca vista neste mundo. Um ser aberrante cujo poder de destruição eu estava tão temeroso quanto sedento por experimentar.