Poeira Cósmica

Poeira Cósmica

Poeira Cósmica

Naquele planeta, não era mais a cientista admirada que fora um dia, na Terra. Era apenas alienígena, invasora, prisioneira. As horas se empilhavam, os dias se confundiam num grande borrão; há quanto tempo estava ali mesmo? Apenas fitando, perdida, quase inconsciente, o fio de cores – vermelho em três tons –, que penetrava pelas grades estreitas da cela imunda, a luz vacilante de espetaculares três sóis à beira da morte? Talvez ela explodisse antes, em sua própria angústia e solidão.

A única medida de tempo eram os passos grudentos e pesados dele. Ela sabia, pressentia. Todos os pelos de seu corpo se eriçavam à mera sugestão da presença daquele ser. Seu ventre se retorcia em antecipação: de nojo, de humilhação, de terror.

A vida não era tão insólita em outros planetas, afinal. Havia a violência, a podridão, a humilhação. Os homens não eram diferentes daqueles que conhecera na Terra. Havia o mesmo machismo doloroso, que pune mulheres apenas por nascerem mulheres.

Ela não queria aceitar, mas sabia que era verdade. Uma verdade terrível e inominável que abominara com cada grama de sua vontade por todos os dias de sua existência. Mas o que era o livre-arbítrio naquele lugar? Ilusão. Ali entendera que não tinha poder algum, nem sobre seu corpo, muito menos sobre sua mente. Eles a penetraram em seu espaço mais íntimo – seus pensamentos –, antes mesmo de violarem sua carne e, quando isso aconteceu, seu espírito já estava irremediavelmente quebrado.

Para sempre.

Nem a ciência poderia reverter aquele processo.

Ele está vindo.

Irreversível. A palavra saltitou por seu cérebro alquebrado.

Ainda podia sentir. E o que sentia era a lágrima quente escorrer por sua face, a pele suja e ferida, a última oportunidade de aquecer um coração empedernido.

Ele está chegando.

Um som abafado escapou de sua garganta. Talvez fosse um lamento. Soava mais como o guincho de um animal assustado.

Faltava pouco agora.

Ele está aqui.

Ela não abandonou sua contemplação das luzes vermelhas. Talvez, se almejasse com muita força, ela realmente explodisse como aqueles sóis. Talvez, se seu desejo fosse sincero, se ainda restasse algum resquício de energia em sua alma, ela pudesse vagar para o centro escaldante daqueles sóis. Transmutar-se. Poeira cósmica.

Seria reconfortante.

Mas não foi o que aconteceu.

Ele a tomou nos braços, seus vários braços. Eram gelados, finos, longos, pegajosos. E seus olhos... ela não queria se perder neles novamente, nunca mais – grandes, brancos, gelatinosos, desprovidos de sentimentos –, mas ele a obrigou. Era assim que estilhaçava seus pensamentos. Era assim que controlava sua última gota de vontade.

À medida que o sêmen extraterrestre ocupava seu ventre, sentia-se esvaziar, uma casca apenas, desprovida de liberdade e humanidade.