O Voo da Pipa

O Voo da Pipa

O Voo da Pipa

O Voo da Pipa 

Gabriel soltou a mão do homem.

O senhor de barba e cabelos grisalhos se agachou perto dele e disse:

— Vá Gabriel. Apenas empine a pipa e salve a infância.

O menino assentiu, meio inseguro. À sua frente o campinho de futebol estava apinhado de crianças bem trajadas, limpas e penteadas. Os pais não estavam por perto. Provavelmente seus filhos já eram inteiramente responsáveis por si mesmos.

Gabriel olhou para o lado e o homem já não estava mais lá. Havia apenas a rua solitária se estendendo por entre um longo túnel de árvores. O vento agitou seus cabelos encaracolados e ele seguiu em frente.

As crianças pareciam absortas em si mesmas e sequer notaram o novo visitante. Elas seguravam objetos curiosos, que Gabriel nunca havia visto, muitos dos quais, apertados contra as orelhas de seus donos, enquanto estes conversavam  com o nada. Flashes brancos irrompiam de alguns, melodias de outros.

Gabriel olhou para a pipa que o homem lhe dera: branca com listras azuis, ostentando uma longa rabiola multicolorida. Em nada se parecia com aquelas coisas manejadas pelas crianças.

Devagar o menino começou a desenrolar a linha da carretilha. O vento uivou e ele logo se pôs a correr. Imediatamente o brinquedo se lançou em meio à vastidão azul do céu, serpenteando veloz abaixo das nuvens. Gabriel começou a gargalhar alto, enquanto absorvia a sensação prazerosa. E a pipa foi subindo, cada vez mais alto...

As crianças então perceberam o menino descalço correndo pelo campo e começaram a apontar para o singular objeto guiado por ele, murmurando sobre como a coisa descrevia movimentos ligeiros nas alturas.

— Como ele pode estar se divertindo tanto? — uma menina perguntou.

— Pessoal, vejam meu celular! — alguém exclamou.

— O meu também — outras três crianças disseram.

Todos agora olhavam pasmos para os seus aparelhos. Inexplicavelmente, a mesma cena aparecia em todas as telas: Gabriel empinando alegremente sua pipa. Mas não era só isso.

Ele corria por entre manadas de dinossauros pescoçudos sobre uma extensa planície florida. Foguetes feitos de doce cruzavam o céu deixando trilhas de glacê, enquanto nuvens com a forma de violão faziam chover centenas de barras de chocolate. O garoto desviou da cauda de um dinossauro e saltou sobre o botão de uma grande flor escarlate, sendo impelido com força. A pipa então o levou, ambos pairando acima das maravilhas daquele mundo. O sorriso de Gabriel, no entanto, era a visão mais linda.