TRAVESSIA

TRAVESSIA

TRAVESSIA

Alfonso Gavilán olhava para aquela praia de águas calmas e de um azul esplendoroso, com um pequeno sorriso no rosto, enquanto a sombra de algumas árvores litorâneas aplacava-lhe o intenso calor que fazia em Miami no mês de julho.

Dali, também conseguia avistar sua eterna companheira, Regla Gavilán, com quem havia se casado poucos meses antes. Ela estava mirando fixamente o horizonte, sentada no casco, já quase destruído, daquele pequeno barco, que levara quase dois anos para construir.

De repente seus pensamentos remeteram-no para a época de Fidel: a repressão, as proibições, a fome, o silêncio forçado, a tristeza de um povo alegre. Mesmo no pequeno vilarejo em que morava, no litoral norte de Cuba, Isabela de Sagua.

Sentiu então uma amargura profunda ao lembrar-se dos primos e amigos que o acompanharam naquela travessia arriscada, quase que sem as mínimas condições humanas. Mas todos enfrentaram juntos as tempestades, as ondas enormes e o pior, a influência das correntes vindas do Golfo do México. Foram quase 320 km de aventura.

Mas valera a pena, fora uma viagem em busca da dignidade, de uma vida melhor para todos naquela embarcação, principalmente para Regla, a quem ele prometera solenemente, ao pôr do sol especialmente avermelhado, num final de tarde em Isabela.

A “conquista da América” foi triunfal, todos se abraçavam calorosamente dentro do barco, agora quase uma carcaça flutuante.

Alfonso chorou de alegria, abraçando fortemente sua mulher e soltou um longo suspiro, o seu último...