Vazio barco azul

Vazio barco azul

Vazio barco azul

Sentada ao lado do avô, vendo-o padecer, Joana sentia o aperto no peito. Os olhos marejavam sabendo que aqueles eram seus últimos momentos ao lado de vô Tião. Passaram-se dez anos desde o dia em que viera ao mundo sob seus cuidados especiais. E na pesarosa orfandade da mãe sucumbida no parto – e de um progenitor de paradeiro desconhecido – devia tudo ao homem que podia chamar de pai.

No cômodo único da palafita, a neta recordava os tempos da bonança, quando o barco azul de vô Tião atracava repleto de peixes. Fartura essa resultando em comida na mesa e singelas expressões de felicidade.

Tudo mudou depois do grande vazamento da mineradora. O dito “acidente” fez minguar a fauna, as vendas e, por conseguinte, o dinheiro. Da abundância da vida, restaram mercúrio, cianeto, fome, melancolia. Não bastasse a morosa justiça, todos os moradores da região permaneciam impotentes diante dos infindáveis recursos impetrados nos tribunais de apelação.

E a mercê das moléstias!

Problemas renais, câncer ou qualquer outra doença, a menina sequer sabia dos horrores provocados pelos sedimentos tóxicos. Só sentia desamparo e tristeza da iminência de separar-se para sempre da única pessoa que lhe importava.

... 

Passado uns dias, após o falecimento de seu Tião, Joana mirava com um olhar vazio para o barco azul atracado na estaca fixa. Pensava no barco como sua vida. Se continuasse presa à palafita, cairia no esquecimento até definhar feito o avô. Soltasse as amarras, estaria à deriva.