Anis

Anis

Anis

Ela tem medo que doa. Dor nunca era bom; era pior depois de todas as agulhadas que sua pele já suportou. Mas Liz disse para ela que não doía. Que ela deveria relaxar a aproveitar o momento. Algo assim era definitivo. Ana achava que valia a pena um pouco de dor se fosse para ficar junto de Liz. Unidas pelo sangue e pela carne.

Ana queria isso desde a primeira vez que encontrou Liz. Duas garotas condenadas, ombro a ombro, na sala de espera do inferno. Um submundo chamado quimioterapia.

- Quando você sair daqui, vai sair voando – Liz disse, chupando uma bala de anis – vão crescer asas, e você vai embora. Que nem um anjo.

Liz era linda, Ana pensou. Dois piercings na orelha direita, um no nariz, e um colar de rosas de tinta tatuado no colo e ombros.

- Sou Liz – disse, e sua cabeça careca luziu sob a luz fria. Liz luziu na luz... Uma cacofonia estranhamente reconfortante, o som de abelhas zumbindo ao sol. Naquela luz, Liz era linda. Ana tinha que admitir. A poesia dentro de sua cabeça começou a formar rimas cheias de zum zum zum, antes que mais agulhas acabassem com a beleza ao se enfiarem sob sua pele.

Uma pontada de dor. Ana se encolhe quando um arrepio desconhecido desce por sua coluna. Dói, mas é suportável. Chega a ser bom. Talvez Liz estivesse certa e ficasse melhor. Sua mente vaga para a primeira vez que tocou aquelas rosas de tinta.

- Dói? – Ana perguntou naquele dia. Liz concordou com a cabeça.

- Na hora, você não sente nada. Mas depois, você está destruída. Dói. Sangra. Mas você sobrevive. E, se não sobreviver, pelo menos é um alívio.

Ana concordou. Tocou a cicatriz vermelha cardíaca que as rosas tentavam esconder. Ergueu sua própria cabeça careca. Vestiu o avental. Entrou na sala de cirurgia.

Mais uma pontada de dor; dessa vez, longa e forte. Um filete de sangue escorre. Ela pode sentir. Lembra-se daquela última vez que vira Liz, dois dias antes.

- Você é loira, Liz – Ana dissera com assombro, passando a mão pela penugem amarela que cobria a cabeça da outra – eu nunca adivinharia.

- Sou loira. Serei um cadáver loiro – Liz disse, e não tinha muita luz nos olhos.

- Não vai morrer – Ana dissera – vamos sair juntas desse hospital. E ficaremos juntas. para sempre.

- Para sempre.

Era verdade. Saíram juntas do hospital. E ficaram juntas para sempre.

Agora, a dor nas costas fica mais intensa. Cresciam asas de suas costas, asas de tinta, asas de penas. O sangue escorre, mas Ana não se importa. Liz lhe dera asas assim como o câncer dera a Liz rosas. Liz tinha luz própria, e uma coroa de flores sobre si.

Coroa de rosas. O que mais Ana podia fazer? Criou asas. Saiu voando.