Vermelho
Vermelho
Julia desviou o olhar do croissant de chocolate e estudou a rua através do vidro lavado. Tamborilou os dedos na mesa. Será que ele ainda ia demorar muito? Tomou um gole de Coca e olhou para uma mulher que passava, abrigada debaixo de um guarda-chuva vermelho. Tão vermelho quanto a lata de Coca…
O vulto escuro deslizou pela rua molhada, voando na direção de Julia. O baque abafou o grito dela, e também os das outras pessoas. O vidro balançou na moldura.
No dia seguinte foi o velório. Julia roeu as unhas enquanto o caixão descia e os demais choravam.
À tarde, foi comer um croissant com Natália.
— Ei, não foi sua culpa.
Os clientes riam e conversavam, mas os funcionários ainda estavam meio rígidos, oferecendo sorrisos mecânicos.
— É, eu sei, mas… Enfim, uma coisa ruim de se pensar, não é? Quer dizer, eu só conseguia pensar que ele estava atrasado, que eu queria terminar logo aquele trabalho. E agora Renato está morto.
— Para com isso, amiga. Maior clichê santificar os mortos. Sério, Julia, pensamentos não matam pessoas.
— É…
Uma garçonete passou olhando para a vitrine, como se outra moto pudesse bater ali, quem sabe rachar o vidro daquela vez. Uma mulher passou. A mesma do dia anterior, com o guarda-chuva vermelho. Ou talvez fosse outra… Não, não era. Aquele casaco, preto e com botões grandes, certamente era o mesmo.
A mulher parou de frente para a vitrine. Como se estivesse interessada nas gotas de chuva que apostavam corrida pelo vidro. Então um homem passou através dela, e ela sumiu.
— O qu…? — O coração de Julia batia forte.
— Amiga, está tudo bem?
— Eu…
O celular de Julia tocou.
— Mãe?
— Ju, é o Gerson.
— Gerson? O primo Gerson?
— É… — Ela fungou. — Ele está na UTI.
— Estou indo.
Gerson morreu à noite, e Julia passou a madrugada com a mãe enquanto ela condenava motoristas bêbados entre soluços.
Na terceira vez, Julia estava sozinha. Apreciou a Coca e o croissant de sempre enquanto rabiscava num caderninho os esboços de outro trabalho de faculdade.
E lá estava ela outra vez, de casaco preto e guarda-chuva vermelho. Por que tinha que chover tanto naquela maldita cidade? A mulher parou diante da vitrine e olhou diretamente para Julia.
Julia engoliu seco e desviou o olhar. Seu coração fazia compasso com a chuva que maltratava o toldo. Uma gota escorreu pela lata vermelha e se acumulou com as outras sobre a mesa.
Julia inspirou e olhou outra vez. A mulher tinha sumido. Imaginação, quem sabe? Em final de semestre, era bem plausível.
Terminou o croissant, pagou a conta e saiu com a lata de Coca na mão. E lá estava ele, encostado à parede, como se alguém o tivesse esquecido ali. Com o coração na garganta, pegou o guarda-chuva vermelho. Uma ventania forte agitou seus cabelos, e não demorou para que a barra de sua calça se ensopasse com a chuva cada vez mais intensa.
Julia abriu o guarda-chuva e seguiu seu caminho.