O Monstro

O Monstro

O Monstro

Os pés descalços rasgavam-se nas pedras, o sangue dos ferimentos misturando-se às águas da tempestade. Tinha que fugir e afastar-se da criatura bestial que queria estraçalhar seu peito e engolir seu coração sem ao menos mastigar. Era um demônio? Um monstro? Ela não sabia. A mente inundada pelo medo. Os olhos castanhos injetados, procurando entre as folhagens um caminho livre dos galhos espinhosos que riscavam a pele e injetavam seus venenos.

O terror retumbava na cabeça, prestes a explodir em um grito agudo, assim como as lágrimas que banhavam o rosto pálido. Na clareira, a luz da lua mostrou-lhe uma trilha pouco sinuosa que levaria a sua casa. Com os pulmões ardendo e a respiração audível, ela atravessou toda a extensão até alcançar o gramado do jardim. Na porta, junto aos vasos de flores e as samambaias penduras, viu o marido de braços abertos.

Jogou-se contra ele, agradecendo por estar segura nos braços daquele que amava. Suspirou, chorando ainda mais. O homem deu-lhe batinhas nas costas, reconfortando-a.

— Aquele monstro estava atrás de mim, Balthazar! Ele queria me ferir — soluçava nos braços do marido. — Eu tive tanto medo daquele demônio.

O abraço enrijeceu-se, e Ophelia ouviu a risada desdenhosa de Balthazar, tão gélida quanto o inverno mais rigoroso.

— Mulher burra, o único demônio aqui sou eu. — A última coisa que sentiu foi a adaga atravessar-lhe as costelas antes de cair ao chão. Ao longe, uma fera grotesca de dentes pontiagudos chorava a morte da amada.