Assurini e a Seção de Produtos Regionais

Assurini e a Seção de Produtos Regionais

Assurini e a Seção de Produtos Regionais

Sou filha do Pará, de sangue vermelho assim como a pele pintada de urucum. Assurini ilhada pela barragem de Tucuruí, transferida, perdida e delimitada a uma reserva que não me lembra minha antiga casa. Filha de pais nativos que carregam em sua língua e em suas rugas os costumes do nosso povo.

Hoje beiramos a extinção.

Hoje, sinto-me parte de uma sociedade cansada e desesperada por emprego. Não podemos mais viver do nosso cultivo de mandioca e não podemos pescar em época de defeso, somos multados assim como o homem que nos expulsou. Somos iguais a ele.

É, fazemos parte da sociedade.

Estou à procura de emprego, este é meu desejo no momento, preciso do dinheiro para casa e assim poderei comprar roupas que cobrirão nossas vergonhas, que há muito tempo não eram. Poderei comprar os remédios para que meu pai velho trate a doença que o homem de lá trouxe. Remédios esses que também nos fazem mal enquanto tratam: Endurecem nosso fígado e nos causam dor de estômago.

Nós sempre nos sentimos doentes.

Estou em uma fila onde todos estão desesperados. Sou uma desesperada também. Roupas para entrevista e pele sem tinta, sou parte da sociedade.

- Quais são as suas qualidades, moça? – Pergunta-me o entrevistador.

Eu respondo que tenho ambições, sou honesta, sei trabalhar e desejo muito aquele emprego.

Tenho carteira de trabalho.

- Há uma vaga de vendedora na seção de artigos regionais, você aceita? – Ele diz sem entusiasmo.

Eu aceitei, claro, sou parte da sociedade.