Amanheceu

Amanheceu

Amanheceu

Detive-me diante do amanhecer... achei-o belo, num meio-termo inabalável. Era um dia tranquilo, sem ônibus cheios, apertos, angústia ou reclamações... A paz fazia fronteira com a indiferença. Como de praxe, a rotina reiterava-se naquela segunda-feira de aquietadas expectativas. Era, enfim, um dia comum. Considerei-me imperturbável. Pensei, fugazmente, o quanto minha espiritualização tinha perdido para o materialismo nos últimos dias..., mas não me comovi nem recalcitrei, perdoei-me. Estendi a mão pra requisitar o ônibus e andei rapidamente para adentrá-lo. Deparei-me, nessa andança despropositada e com a mente maquinalmente apática, com um passarinho em exercício de desencarne... Sim, a morte removeu todo o seu esplendor e o resumiu em uma quietude fria e feia ali atirado ao léu, imóvel. Aquilo foi a chave para minha epifania. Minha apatia cedeu lugar a uma ternura incomensurável àquele passarinho, amei-o mentalmente e senti saudade de seu canto, embora nunca o tenha ouvido em particular... De repente, no entanto, pude vislumbrar, com olhos pueris de quem renega a tristeza, o seu cantar, o seu alçar voo e sua alegria imperturbável no mais-além... Lembrei-me de que ele não era e nunca se restringiu a ser aquele par de asas e penas... Eu vi, com as lentes da alma, o seu cantar triunfante num reino além da vida...  A apatia cedeu lugar ao encantamento, rebatizou a emoção.