Corações não precisam de romance para bater

Corações não precisam de romance para bater

Corações não precisam de romance para bater

Sobre o meu coração: ele ainda pulsa. Forte e estrondosamente: ele grita por mim, me esmurra o peito e me bate sem pudor (independente da minha ausência de sentimentos de dor).

É. Eu não sinto nada mesmo. E por incrível que pareça meu coração sempre está berrando como um militar. Ele explode em meu tórax, dilata dentro de mim. E eu ainda continuo vivo, sem nada sentir.

“Ninguém quebra o meu coração. Esse é o ponto positivo de ser alguém como eu” - foi o que eu disse para o Ted e ele parabenizou minha evolução.

“O ponto negativo é....” - fui interrompido drasticamente enquanto dizia:

“Não. Não. Não pense no ponto negativo - meneava Ted a cabeça. - Vamos nos focar só nos aspectos positivos de ser você”.

Mas bem no fundo eu pensava: O ponto negativo é magoar pessoas como ela e não poder fazer nada por isso.

A imagem da toda delicada Hannah invadiu os meus pensamentos na hora: ela é uma boa pessoa. Se você estiver lendo isso, Hannah, me desculpa por tudo. Não foi minha intenção.

O dia de hoje está roxo escuro. Enquanto meu coração bate (Tum-tum. Tum-tum. Tum-tum) cortinas de chuva se fecham ao redor da Kombi nessa noite fria. A janela está embaçada.

Deitado no banco de corpos humanos grudados sinto o cheiro de sexo, fumaça e bebida. Escuto a voz do vento. Mãos acariciam meu peitoral enquanto desejo não estar aqui.

Mas eu tive que vir.

Antes de continuar: Se você está aqui para ler uma historinha de amor e chorar por causa do mocinho e da mocinha juntos no final sugiro que pare de ler agora.

E por cada dor meu coração ainda bate. E ele vai continuar batendo mesmo que eu desconheça o sentido do tal do “romance”. Até porque: corações não precisam de romance para bater.  

- Que delícia, meu Deus - uma voz geme no interior dessa kombi mal cheirosa. Me questiono o que Deus tem a ver com isso nessa tal de “noitada”. Na verdade, está mais para orgia.

No meu atual momento sádico de terror-noturno-real, olho para a fogueira que fizeram para essa noite especial: Noite caliente: “A primeira noitada de Ray”. Sexo à vontade, como dizia o panfleto feito especialmente para mim pela exaustiva Naomi.

Encosto meu rosto na caixa de som e suspiro. A música alta penetra meu ouvido com força e me machuca. Um corpo espreme contra o meu. Flashes de memória se enfrentam em minha mente em busca de espaço. Minha cabeça pesa com a intensidade das minhas lembranças.

Foi assim que ela me “convenceu” (pior que ela acredita na sua própria mentira de que estou aqui devido seu elevado poder de persuasão; mas foi nada mais que chantagem):

- Você precisa tirar essas amarras de você, meu caro Ray - disse Naomi, minha prima totalmente inconveniente. - Precisa beijar umas bocas, fazer um sexo gostoso, morrer de amores por alguém de vez em quando - continuou ela enquanto eu me preparava para dormir.

Olhei para o céu naquela noite sem estrelas. Vazio. Solitário. Esquisito. Indefinido. Sem sentido. Anormal. É assim que pessoas como minha tia, meu pai e meu avô me fizeram sentir durante um longo tempo. Nada mais que diferente.

Em se tratando de mim, o que as pessoas dizem (segundo Naomi-Nada-Confiável):

“Você está falando do psicopata daquela casa da esquina?”

“Provavelmente ele se alimenta das pessoas que ele mata”.

“Ouvi dizer que sua própria tia abusou dele quando criança”.

“Ele era agredido fisicamente por seu avô”.

“Tenho certeza que ele é gay”.

Algumas coisas são verdades. Tive uma infância difícil, não vou mentir. Mas nada tão horrivelmente assustador como as pessoas acreditam, da forma como acreditam. Em se tratando de mim, eu sou um cara relativamente normal (exceto o fato de ter perdido a virgindade com a minha tia).

É claro: todos passamos por momentos difíceis da vida e como meu grande amigo e psicólogo Ted diz: todos transgredimos. Eu transgredi com base no que a sociedade diz sobre mim.

- Você precisa de romance, se sentir vivo, ser normal, lamber umas pessoas, estar conectado à alguém, sentir amor, ter emoções, cheirar uns suvacos molhados - quê? espero realmente estar errado sobre a palavra “suvacos”. E quanto à molhados espero que ela não esteja se referindo a nada mais que suvacos.

É. Talvez cheirar uns suvacos molhados não seja má ideia.

Enquanto Naomi tagarelava na noite anterior ao meu atual sofrimento, coloquei meu short largo da cor do vazio e uma regata da cor das lágrimas. Me despedi da versão de mim vista pelos outros ao olhar para o céu. Fechei a janela antes de fechar os olhos. Naomi ainda falava:

- Precisa beber umas cervejas, fumar uns baseados, se drogar um pouco, curtir umas noitadas, bater em uns machões, cuspir na cara da sociedade - continuava A indesejada enquanto eu me forçava a não ouvir.

Eu só precisava dormir depois de saber da morte de Zac, um amigo meu.

Na verdade, nem tanto. Jogávamos futebol juntos. Só nos cumprimentávamos mesmo, mas eu tinha consideração por ele. Ele era uma boa pessoa. Mas a vida é assim mesmo: as boas pessoas sempre morrem (desculpa te derrubar no abismo da realidade).

- E você precisa ir para o seu quarto. Boa noite, Naomi - murmurei antes de fingir que estava dormindo.

Fechei os olhos com força.

- Não vou embora enquanto você não me disser que vai à minha festa - continuou ela me importunando.

“Eu só preciso dormir um pouco, Deus. Por favor, leve-a daqui”.

- É a festa ou trago a Bia novamente para cá - suas palavras arderam em mim. Minha respiração vacilou.

Meu coração resmungou. Explodiu em meu peito.

- Por favor, eu imploro. Não a traga para cá - disse enquanto segurava suas mãos escorregadias com o creme de pêssego que ela havia passado. Olhei em seus olhos e permiti entrar por sua alma. - Tenha piedade de mim.

Ela deu uma risadinha estridente e me chantageou novamente:

- Agora vai mais uma: é a sua festa ou a Bia aqui.

Vocês já devem saber por que estou aqui nessa Kombi amontoada por pessoas suadas e com cheiro de sexo.

E aqui, nessa maldita Kombi pequena, uma mão esfrega em minha perna enquanto outra escorrega por meu abdômen. Seria melhor estar com Bia.

Acontece que a Bia também está aqui.

Um pouco sobre a Bia:

Ela é tão inadequada quanto Naomi.

Ela é mais tagarela que A indesejada.

 Ela é conhecida como A ninfomaníaca.

Ela é apaixonada por mim.

Às vezes penso que Naomi me importuna sobre a “minha necessidade de atividade sexual humana” (como ela ousa dizer) por causa da Bia. Está certo que eu não sou O ninfomaníaco. Mas também não sou O Imaculado.

Falando sobre Bia. Um minuto de silêncio nervoso.

Estendido como um tapete e de olhos fechados como um morto, respiro pesadamente para que A indesejada 2 não me sufoque com o seu desejo carnal intenso.

Eu + Bia = Nada

Acontece que não sou apaixonado por ela.

Nem tenho esse desejo ardente como ela.

- Fazia tempo que você não se divertia - diz Bia enquanto passa a mão em meu cabelo.

Como um morto, continuo com os olhos fechados.

“Não se divertia”. Se divertir para mim significa estar conectado espiritualmente com o meu eu superior, fazer alguém sorrir com palavras gentis, conversar com pessoas com o mesmo gosto musical que o meu, aprender algo novo, ter aventuras não-românticas, ler um bom livro.

Se divertir para a juventude de hoje em dia significa beijar mil bocas, trepar a noite inteira e ser heterossexual sexualmente ativo. Eu não sou assim. E o fato de eu não ser assim significa que sou “diferente”. Gosto mais da palavra raro. Dizem que há 1% de pessoas como eu.

- Se você estivesse acordado eu ia fazer loucuras com você - murmura Bia com sua boca próxima de mim.

Voltando à realidade do meu túmulo corporal no tal da minha noite caliente (está mais para a-noite-mais-sofrida-de-todas): do meu cabelo a mão de Bia vai parar exatamente no meu peitoral. Meus olhos continuam vendo o Breu.

O cheiro de cigarro invade o meu nariz e a vontade de espirrar me espanca por dentro, mas eu me mantenho ereto na minha imobilidade.

“Você não é sua orientação sexual” - Ted me disse durante uma das consultas mais extraordinárias que tive com ele. Foi nessa mesma consulta que ele também disse: “Não se defina por sua sexualidade”.

Coisas que eu gostaria de mudar no mundo:

Os pensamentos das pessoas sobre sexualidade e identidade de gênero.

Que todos se compreendessem e não julgassem uns aos outros.

Que as pessoas não fossem definidas pela quantidade de sexo que fazem.

Que não romantizassem o romance (já não basta o mocinho sempre se dar bem?)

A grande questão é que: eu não vou morrer por minha ausência de romance ou de sexo.

A juventude precisa entender que a vida não gira em torno de quantas bocas você já beijou ou de quantas transas teve. As pessoas não precisam sofrer por causa disso. A vida, às vezes, já é um sofrimento.

- Meu primo é um tesão, diz aí - sussurra A indesejada 1 para A indesejada 2. Bia respira longa e pesadamente. Suas mãos descem por minha coxa.

- Ele é tão forte e gostoso - diz Bia depois de outro longo suspiro. - Se ele gostasse da fruta…

- Ele ainda não ia te querer - responde Naomi com uma risadinha.

- Sai daqui, sua cachorra - reclama Bia com sua linguagem de adolescente. - Eu só queria saber o que ele é… - “Humano” seria a resposta certa. - E por que ele não deseja “t-u-d-o” isso - pensa ela em voz alta, provavelmente fazendo sua dancinha esquisita.

Depois disso só escuto o som de línguas se tocando. Pois é, as duas não perdem tempo. Elas se pegam mesmo.

- Eu só queria que esse mané me pegasse assim como você, sua vadia - essa provavelmente é a voz da Bia enquanto beija Naomi. - Ele é um viado mesmo.

“As pessoas vão te julgar, mas você precisa ser forte. Você precisa ser quem você é e não tentar ser o que os outros querem que você seja” - disse Ted na manhã passada e isso me fez questionar sobre a mim mesmo, sobre o quão fraco eu fui quando meu pai me trouxe para que meu avô me “corrigisse”. Sobre o quão idiota eu fui quando permiti que minha tia fizesse sexo comigo.

“Vai ser gostoso, meu amor. Eu vou te dar prazer e você vai me dar prazer. É assim que funciona” - disse minha tia antes de eu perder minha virgindade. “Eu vou te ensinar direitinho, vem”.

Não foi tão satisfatório assim para mim. Está bem, sendo honesto: foi um pouco gostoso. Mas só na parte que ela me satisfazia.

Falando sério: foi gostoso mesmo porque depois de receber altas chibatadas nas costas sexo é bem molezinha.

Sexo para mim é isso: satisfazer a mim mesmo, suprir minhas próprias necessidades sexuais, até porque eu desconheço o significado total de atração sexual.

- Eu só queria dar um beijo de língua bem gostoso em vocês dois - provavelmente ainda é a voz da Bia. Meus olhos continuam costurados com linhas profundamente grossas na minha escuridão eterna.

Escuridão eterna me lembra da noite quando acabou a energia elétrica em casa. Estávamos eu e Hannah conversando na varanda depois de estudarmos para a apresentação do seminário de Metodologia da Musculação. Ela sempre foi um absurdo de gentil comigo. Dizem que ela ainda gosta de mim. Isso deve ser realmente verdade.

Naquela noite, Hannah se aproximou de mim e me deu um beijo na bochecha logo após a luz se apagar. Eu senti o seu desejo para que minha boca encostasse na sua. Eu senti ela tremer perto de mim. Mas eu não fiz nada. Eu não senti nada.

“Eu sou homossexual, Hannah. Me desculpe” - foi só o que eu disse. Isso foi o suficiente para que ela fosse embora.

“Me desculpe, Ray” - Depois disso só ouvi o som dos seus pés descendo as escadas, se despedindo de mim. Eu não seria uma boa companhia mesmo.

Acontece que eu menti para ela:

Eu sou assexual.

E também sou arromântico.

Mas a vida não para aí. A vida segue e você tem que acompanhá-la como em uma dança. Você tem que mostrar os seus passos através da sua essência, você tem que definir o seu ritmo e a sua música.

Ser assexual não significa não fazer sexo com ninguém nem não ter atração sexual por ninguém (eu tenho uma atração sexual relativamente baixa por mulheres). E Hannah não está enquadrada nisso.

Acontece que Hannah é boa demais para mim. E eu não sou o tipo de pessoa que iria satisfazê-la como ela gostaria. Até porque eu não ia me sentir bem comigo mesmo estando com ela com essa visão que tenho de sexo (como suprimento de minhas próprias vontades). Egoísta, não?

Verdades que eu deveria dizer:

Não fui obrigado a transar com a Bia.

Nem com a minha prima Naomi.

Mas eu transei. E não me arrependo. A questão é que: eu preciso suprir minhas necessidades sexuais, ainda que eu não sinta verdadeiramente os desejos carnais como as pessoas sentem.

Verdades que eu não deveria dizer:

Fui obrigado a transar com a minha tia.

Fui espancado por meu avô.

Eu já tentei o suicídio.

De verdade? Não é fácil ser assim “diferente”, mas a vida segue em frente ainda que você não possa remar contra a maré alta. O barco afunda e você continua tentando. Seus músculos cansam e você tem que decidir: é a dor ou a sua vida.

Na vida real acontece exatamente assim: a dor é como a opinião de pessoas que não vão acrescentar nada na sua vida. “Não se deve permitir que a opinião das pessoas te façam mudar, porque assim você só verá a dor. E é assim que você desaparece. A dor inunda você e te afunda no abismo da inexistência” - foi assim que Ted encerrou nossa consulta essa manhã. Tenho pensado muito nisso. Em não ser afundado pela dor.

- Vamos tirar a roupa desse gostoso e trepar por cima dele. Vamos, minha gostosa - a voz da Bia ainda perfura meu crânio. Naomi não faria isso comigo “dormindo”.

Engraçado que a mesma sociedade que te julga por transar te julga por não transar. E essa mesma sociedade que te julga por amar te julga por não amar. Ok. Não tem nada de engraçado nisso.

Assim como também não tem nada de engraçado nisso:

“Você é um homem ou um animal?” - ainda tenho a lembrança da voz grave do meu avô em minha mente e do cinto marcando profundamente as minhas costas. Ainda sinto aquela dor. “Quando uma mulher faz um pedido como esse você tem que aceitar”.

Isso foi antes de eu perder minha virgindade. Pois é, eu aceitei antes que os machucados se tornassem verdadeiras erupções em minha pele.

- Deixa eu tirar a roupa dele, Naomi. Por favor… - choraminga Bia enquanto vez ou outra coloca a mão em mim.

“Você só precisa ser você mesmo, antes que a dor afunde você” - essa é outra frase de Ted, a tatuei em mim semana passada. Carrego essa frase comigo em todo lugar que vou, grudada dentro de mim.

- Eu quero ele, Naomi. Eu quero tanto ele - sinto minha prima quase assentindo. Descosturo meus olhos e encaro as duas.

Só digo uma frase. Mas essa frase muda tudo. Ela representa a minha aceitação por ser quem sou:

- Desculpa por não ter interesse - digo em alto e bom som, na mesma intensidade da voz do meu coração em meu peito.

Tum-tum. Tum-tum. Tum-tum (O meu coração não precisa de sexo para bater).

Levanto meu corpo e saio da Kombi. Carrego minhas emoções comigo. Caminho lentamente para minha casa enquanto deixo o ambiente de orgia para trás. Levo minha verdade nas minhas costas e meu coração na minha mão. Penso em recuperar a amizade da verdadeira Hannah.

É. Eu não fui inundado pela dor.

- Hannah. Preciso te dizer a verdade sobre mim - grito enquanto a vejo com os braços apoiados pela janela.

Ela parece verdadeiramente feliz. Ela sorri para mim. Significa que está disposta a me ouvir.

“Eu sou humano” - é o que digo a ela, sem pestanejar. Ela me entende e me abre a porta da sua casa como se estivesse abrindo a porta da sua vida.

Olho para o céu. Ele está inundado por estrelas brilhantes. Essa é a versão de mim vista por mim a partir de hoje. Obrigado, Ted.