Uma casinha, uma chavinha

O que resta

Uma casinha, uma chavinha

Uma chavinha redondinha. Dava um negócio bom quando Mariana a enfiava na fechadura e cabia perfeitamente. Girava, e a bichinha estava ali, a casa dela. Dela, sim. Cada tijolo, cada centímetro. Pequena, é verdade, mas do tamanho exato do sonho de Mariana. Paredes branquinhas, o retrato da vó Maria pendurado, vaso com flores sobre a mesa, lindas, nem dava pra notar que eram de plástico. Tudo simples, parcelado, cheirando a limpeza. Gostava de sair dali não. Lavou tanta privada até voltar ao povoado para construir a casinha. Queria era passar café com a janela aberta, vendo as montanhas, as galinhas, Minas amada. Que alegria, minha nossa Senhora! Quando Cleiton chegasse em casa ficaria tão feliz ao ver os carrinhos pintados na parede do quarto! Merecia tanto, seu menino, doze anos e já trabalhando, vai ser um bom homem.

Ia ser.

 Um bom homem.

Um lar.

Uma manhã bonita.

Ia.

 Os berros, a barragem. Rompeu! O ar que não chegava aos pulmões. Gente correndo e caindo. Ninguém sabia ao certo, o corpo tremia demais pra que pensassem. O desespero. As coisas ficando para trás. As pessoas. Vidas inteiras. Foram embora com a roupa do corpo, não puderam antes falar, chorar ou entender. Alguém arrastou Mariana. Se olhasse para trás seria engolida, não tinha tempo. E agora queria ter tempo para quê? Cleiton chegou? Viu? Os carrinhos, o filho, o sonho, todos lá, sepultados pela lama. Nunca mais os viu. Uma chavinha redondinha. Foi o que restou, deles, de Mariana.