Parte 1

John Wayne

Parte 1

Sara não era o tipo de garota que fugia de casa quando ficava triste, que tentava fugir da rotina. Mas foi exatamente isso o que ela fez. Pegou a meia cheia de dinheiro, três trocas de roupa e uma garrafa de água. Entrou num ônibus, foi para a estação de trem e escolheu a cidade mais caipira e mais ao oeste possível.

Ela estava planejando isso há mais de um mês, mas antes disso passou anos e anos engolindo ansiedade, dor e ódio. E, enfim, chegou o dia em que não cabia mais nada e explodiu. Pegou o trem e não olhou para trás. Ela finalmente se sentiu viva. Finalmente fez algo para si mesma. Finalmente não estava tentando provar nada a ninguém.

O bom das cidades caipiras é que tudo é mais barato, até alugar um quarto no terceiro piso de uma taverna; até mesmo os salários eram mais baixos. Mas Sara estava bem, estava longe da confusão – pelo menos era isso que ela dizia para si mesma repetidamente, como um mantra. Porém, no fundo – nem tão fundo – ela se sentia sozinha, perdida e com medo.

Na primeira noite na nova cidade, decidiu sair e procurar alguma lanchonete – às vezes ela sentia esses impulsos alimentares, o que era irritante muitas vezes. Mas, além de tudo, ela queria tomar ar fresco, sair daquele pequeno e úmido quarto que lhe deixava claustrofóbica. Depois de perguntar para seis pessoas diferentes, incluindo um sem-teto, ela conseguiu um endereço de uma lanchonete food truck numa praça afastada do centro da cidade, o que Sara achou estranho, mas, novamente, estava com aquele também estranho impulso de comer carboidratos e gordura, então não questionou a localização da fonte de sua felicidade temporária.

Enquanto caminhava até a fonte da felicidade, não conseguia parar de pensar em todas as pessoas que a prendiam em sua antiga cidade seus pais, seu chefe, seus antigos relacionamentos... Balançou a cabeça veementemente para se livrar desses tão horríveis pensamentos; decidiu focar-se nos carboidratos.

Chegando à praça mal iluminada, caminhou um pouco mais até se deparar com a lanchonete improvisada. Não havia ninguém sentado às mesas de plástico brancas com nada além de guardanapos em cima e quatro cadeiras dobráveis em volta de cada uma. Sara, esperançosa, se aproximou do balcão do caminhão, mas não viu ninguém de imediato; teve que ficar nas pontas dos pés e olhar dentro do food truck para ver a garçonete-atendente-caixa lendo uma revista sobre motos e tatuagens e outras coisas que os pais de Sara nunca aprovariam. Da porta dos fundos do food truck podia-se ver a fumaça do cigarro do cozinheiro. Ninguém percebeu Sara até ela limpar a garganta.

Puta que pariu! Desculpa!”, disse a garçonete-atendente-caixa num pulo. “Não te vi aí!”

“Tudo bem”, disse Sara timidamente. Só então ela parou para reparar na moça do outro lado do balcão. E como ela era... linda. Era uma mulher de beleza bruta, cabelo castanho escuro tocando o queixo e parecia que sua franja tinha sido cortada por uma criança (o que lhe dava charme); tinha um piercing no septo e mais quatro nas orelhas, que combinavam com suas poucas tatuagens não coloridas nos seus braços, visíveis por causa da regata branca que usava.

E lá estava Sara, congelada pela visão da estranha. Nesse momento, Sara não se odiou, nem se sentiu insegura ou intimidada – mesmo usando seus jeans batidos e sua camiseta estampada com um gato flutuando pelo espaço sideral e seu cabelo dourado que chagava até metade de suas costas, dando um ar de inocência. Ela somente parou para apreciar a beleza da outra mulher, e apreciou até demais.

Moça? Posso ajudar?”, foi a vez da garçonete limpar a garganta.

“Sim!”, disse Sara de repente, lembrando-se de como interagir socialmente. “Vou querer um burrito de carne, por favor. E um refrigerante. Não! dois refrigerantes.

“Escapando da dieta, é?”, disse a garçonete brincando. “É pra já. Seu nome?”

“Desculpa?”, perguntou Sara confusa.

“Seu nome. Para eu te chamar quando seu pedido ficar pronto”. A mulher olhou atrás de Sara, para a praça vazia. “Não que tenha muitos clientes...”

“Sara. Meu nome é Sara.”

“Ok... Sara”. A garçonete esboçou um sorriso no rosto ao escrever “Sara” junto com um coração no papel com o pedido dela – o que Sara fingiu não perceber.

Sara sentou-se numa das mesas de plásticos, tentando não xingar as desconfortáveis cadeiras dobráveis. Ouviu a garçonete gritar “Gustavo! Um burrito de carne!” em espanhol e sorriu para si mesma por lembrar um pouco da língua, mesmo depois de anos longe do Ensino Médio. Aproveitou o tempo esperando sua refeição chegar olhando para as árvores e o jeito que elas dançavam com o vento. Sentiu a brisa em seu rosto, cantando palavras de uma canção de liberdade, e era assim como Sara sentiu-se naquele momento: livre. Deu um longo suspiro, mas logo foi interrompida pela garçonete, que chamou seu nome e andava em sua direção.

“Sara”, disse a mulher enquanto colocava as duas latas de refrigerante e o burrito na mesa. “Aqui está: um burrito de carne e dois refrigerantes. Bom apetite”, disse, terminando com um sorriso. Voltou para o food truck, deixando Sara com seu pedido.

Fazia muito tempo que ela não comia algo tão gorduroso, mas tão delicioso assim. E, portanto, logicamente, comeu o gigante burrito em menos de 20 minutos, junto com uma lata de refrigerante. Ainda bebendo a segunda lata de refrigerante, relaxou na cadeira dobrável, já acostumada com ela. Assistindo às nuvens passarem na frente da Lua, ouviu passos atrás de si.

“Posso te recomendar uma sobremesa?”, perguntou a garçonete ao se aproximar de Sara, sentando numa cadeira com a frente para o encosto.

“Não, não precisa. Aliás, acho que já não cabe mais nada aqui”, disse Sara, apontando para a barriga com uma rápida risada. Olhando para a mulher e depois para o céu, pensativa, decidiu criar um pouco de coragem – ou talvez fingir ser uma pessoa corajosa. “Então, qual é o seu nome?”

“O meu?”, perguntou a garçonete, surpresa. Olhou para o céu, também pensativa, e, tentando suprimir uma risada respondeu: “John Wayne.”

John Wayne?”, perguntou Sara, incrédula. “Ah, qual é? Qual o seu nome?”

“Já te disse. John. Wayne. É pegar ou largar.”

Sara olhou fundo dos olhos da mulher – ou melhor, de John Wayne – e, com um sorriso que se estendia de ponta a ponta, decidiu entrar no jogo dela.

“Ok. Eu pego.”

“Que bom, porque eu gostei de você”, disse Wayne, se inclinando em direção à novata. “Tem certeza que não quer aquela sobremesa? É por conta da casa.”

“Ok... Me convenceu”, disse Sara, rindo.

E as duas passaram mais uma hora conversando e comendo churros. Sara descobriu que o sabor de churros preferido de Wayne era chocolate, e que ela sentia vergonha disso porque só crianças gostam de churros de chocolate, mas Sara não se importava com isso, mesmo preferindo churros de doce de leite. Wayne descobriu que Sara não gostava de conversar sobre seu passado, ou do motivo pelo qual estava nessa cidade ridiculamente pequena, mas, mesmo assim, gostava dela. O nome de Wayne era um mistério, assim como a história de Sara, e, sendo isso nada mais que justo, as duas apenas aceitaram.

Dois dias depois – dois dias de ficar relembrando cada palavra dita e ruborizando com cada sorriso dado –, Sara decidiu ir à praça da lanchonete, com esperanças de encontrar Wayne lá. Mas, para a surpresa de Sara, não tinha nada nem ninguém lá – nem mesmo o food truck. Decepcionada, ela decidiu andar pela praça, em especial, perto do pequeno lago que ainda não tinha visitado. Enquanto andava, evitava os olhares de estranhos – em especial dos pescadores ao redor do lago –, mesmo não tendo muitas pessoas ali perto, somente moradores daquele bairro, Sara supôs. Mas, do canto do seu olho, ela viu alguém familiar. Wayne. Ela estava atrás de uma árvore, lendo. Sara se aproximou dela sorrindo, andando um pouco mais rápido do que o normal.

“Wayne”, disse Sara ao chegar perto o suficiente para a outra ouvi-la.

“Sara.” Wayne deu dois tapas no chão, gesticulando para a loira sentar-se ao seu lado, o que ela fez, ainda sorrindo. “Então, o que te traz aqui nesta linda manhã de domingo?”, perguntou Wayne ironicamente, apontando para o céu nublado.

“Na verdade, eu estava te procurando.”, respondeu Sara com uma curta risada.

“Ah, é? Já está começando a ficar obcecada, então?” Sara não conseguiu distinguir se era uma piada ou não – Wayne falou com seriedade –, até que a morena começou a rir. Sara não sabia se era de sua cara ou da piada que ela tinha tentado fazer, mas ela se juntou à Wayne e riu com ela.

As duas conversaram bastante. Wayne constantemente interrompia Sara, mesmo que Wayne parecia não prestar atenção, até que Sara começou a falar de sua família. Wayne fez contato visual com ela pela primeira vez de muito tempo conversando e dessa vez parecia se interessar pelo que a outra dizia.

“Desculpa, eu... eu não quero falar sobre isso agora”, disse Sara depois de perceber sobre o que estava falando.

“Não, não, continue”, disse Wayne, curiosa.

“Não, é só que eu realmente não quero falar sobre isso. É... delicado para mim.”

“Tudo bem. Eu entendo”, disse Wayne depois de uma pausa e um suspiro frustrado.

“Mas você pode me contar sobre a sua família. Se você quiser, é claro.”

“Minha família... Ok. Eu nunca gostei muito da minha família, especialmente dos meus pais. Eles me prendiam, vamos dizer; não me deixavam sair de casa e me deixavam de castigo por razão nenhuma. Daí eu juntei um dinheiro e quando fiz 18 anos saí de casa e nunca mais voltei”, contou Wayne, com o olhar fixo nos olhos de Sara.

“Uau. Isso é... Sinto muito. Mas eu consigo me identificar bastante”, admitiu Sara.

Sara nunca esteve tão feliz – ou achava que estava, pelo menos. Ela só pensava em Wayne, olhava para uma roupa e se perguntava se Wayne gostaria ou não dela. Ouvia uma música e pensava “Wayne iria gostar dessa música”. Tudo girava ao redor de Wayne, o que era compreensível, já que ela era a única pessoa com quem Sara conversava – e elas conversavam todos os dias – e que parecia realmente se importar com ela.

“Como você gosta que eu me visto?”, perguntou Wayne de repente um dia.

“Como?”, perguntou Sara, confusa.

“De que roupa você gosta em mim?”. Wayne traçava seus dedos pelo braço de Sara e sorria sedutoramente.

“Qualquer coisa”, disse Sara, tentando suprimir os calafrios que o toque da outra lhe dava. “Você fica linda com qualquer coisa.”

“Você acha?” Wayne chegava cada vez mais perto da loira, que respondeu que sim apenas com um gesto da cabeça, incapaz de falar qualquer coisa com a outra mulher tão perto assim dela. Wayne chegou tão perto dela que seus lábios quase encostavam nos de Sara. Mas, antes que isso pudesse acontecer, Wayne foi para trás com um sorriso, tirou um maço de cigarro do bolso da camisa e começou a fumar um, ainda sorrindo do desespero e da ânsia da loira por aqueles lábios.

“O quê?”, perguntou Wayne ao perceber que Sara ainda a encarava.

“É só que eu não sei se eu consigo ficar com raiva de você;

“E por que você estaria com raiva de mim?”

“Porque... você... argh!”, respondeu Sara, frustrada consigo mesma. Por que não conseguia dizer nada relacionado a romance?

Wayne riu da garota, apagou o cigarro e se aproximou dela novamente. “É porque eu não te beijei? É isso?”

Sara, novamente em transe, balançou a cabeça que sim, e, depois de a morena abrir um sorriso – o mais sincero que ela já deu –, elas se beijaram. Sara se derreteu ao toque delicado de Wayne, que logo virou cada vez mais intenso e desesperado. A loira se surpreendeu com o quanto os lábios da outra mulher eram macios e com o quanto ela adorou a sensação de ter outra língua dentro de sua boca. A boca de Wayne tinha gosto de conhaque e cigarro de menta – e, pela primeira vez, Sara não se incomodou com o fato de que a morena fumava, passou até a gostar disso, contanto que sua boca tivesse esse gosto.

Wayne foi a que separou o beijo, com um sorriso e ah! Como Sara amou sentir os lábios da outra formarem o sorriso. Elas não falaram nada, como se aquilo fosse natural delas: beijar uma pessoa que nem o nome você sabe. Wayne sorriu mais uma vez, pegou o cigarro que deixou pela metade e começou a fumá-lo novamente enquanto abraçava Sara com o outro braço. Ainda não haviam falado nada depois do beijo, não falariam até Wayne acompanhar Sara até a taverna-pousada em que estava alojada.

 Poucos dias depois do primeiro beijo, as duas saíram em seu primeiro encontro oficial: foram em uma sorveteria perto do parque – Sara gostava do parque, não era úmido e quente como a taverna em que dormia. Quando Sara passou na casa de Wayne para que andassem juntas até o parque, ela não conseguia formar palavras em frente ao que via. Wayne vestia uma regata rosa-quase-bege, com um decote nada discreto, três colares diferentes e uma calça jeans preta extremamente apertada, que não parecia ser confortável, mas definia muito bem suas... pernas. E, por mais simples as roupas da morena fossem, ela estava magnífica – uma palavra que Sara achava apropriada para a outra mulher.

“Uau. Você... você está linda”, disse Sara balbuciando.

“Obrigada”, respondeu Wayne, dando uma viradinha para mostrar todo o visual. “Vamos?”, perguntou ela, estendendo a mão para Sara.

E Sara ainda estava perplexa, não só como Wayne era linda, sim, mas como ela sabia escolher as roupas certas que destacavam sua beleza. Era como se a morena sabia que Sara estava se apaixonando e fazendo ela se apaixonar mais rápido e forte ainda, sendo com sua roupa ou o jeito que ela falava, ela sabia como Sara se sentia sem essa ter falado nada.

Deveriam ter tomado uns três sundaes juntas, não paravam de conversar e, como não conseguiam parar de bulir, pediam mais sorvete para ter algo com o que mexer. Sara não conseguia tirar os olhos de Wayne – mais especificamente, de sua boca. O jeito que Wayne falava no final do dia era como se ela soubesse o que estava prestes a acontecer: Sara voltaria para casa com Wayne.

 

 

 

 

 

 

 

 

Parte 2