Relicário de Memórias

Relicário de Memórias

Relicário de Memórias

Todos os dias, revivia a sensação do amor total, aquele, lá do começo. Chegava em casa, cansada, jogava a bolsa no chão, as pernas para o ar. Olhando o teto, reconstruía ao redor a presença, a voz, os passos, o cheiro do café. Esquecia as brigas, os desencontros e cultivava só o que era bom. Criava na memória uma relação imaginária, que nunca existiu e que, por esse motivo, jamais acabaria. Até que ela decidisse partir.

Mas agora, não. Não era hora, os instantes ali estavam reservados para nutrir o peito de tudo o que foi bom e, quem sabe, depois, poder fechar o ciclo sem rancor.

A melancolia oxigenava todos os cômodos. De alguma forma, era saudável, acreditem: há beleza na tristeza. Apenas conseguiria sair dessa etapa da vida depois de esgotar todas as possibilidades de felicidade, depois de se sentir completa e transbordar, nem que, para chegar até a borda, fossem necessárias memórias inventadas.

Ao longe, tão distante quanto a realidade, ouve soar um interfone. Um advogado, desses que andam com nó na garganta, com um envelope nas mãos.

Ela não ousou a abrir a carta. Assinaria o divórcio pela burocracia, mas esse assunto não entraria em casa. As palavras têm a força de uma arma de guerra, destruiriam tudo em segundos, bombardeariam, arruinariam seu mundo instantaneamente perfeito.  

Naquele momento, o apartamento ficaria intacto, relicário das lembranças boas, um aconchego até o fim do fim. Até reaprender a abrir as janelas para a novidade da vida entrar, recomeçar.