Talvez em outra vida

Mais uma Tereza cansada de guerra

Talvez em outra vida

Foi a primeira vez que ela viu as estrelas.

Em uma outra vida, teria achado elas bonitas.

A noite passou, Tereza assistiu, na escuridão, olhos nas estrelas brilhando como se a vida fosse um lugar seguro e bom.

Depois, foi a primeira vez, que ela viu o amanhecer. Que não acordou entre gritos e foi jogada, no meio do roçado com a noite ainda pesada, ou numa casa grande demais, habitada por caprichos demais.

Encostada na grossa parede, Tereza olhou para o envelope no chão de terra, perto de seus dados deformados.

̶   Tereza? Vamo simbora? 

É Josefa, com uma trouxinha murcha de roupa.

Todos os outros se foram. Agora Josefa iria também.

Tereza balançou a cabeça.

Não.

As cicatrizes, o chicote e sangue derramado não conheciam lá e cá. Antes e depois.

Dentro ou fora da fazenda, sempre a perseguiria. As costas de Tereza nunca deixariam de estar feridas.

Nem o coração.

 Tião não saiu vivo do tronco, os meninos; dois, igualzinhos, tão bonitos, mal saíram de Tereza, foram arrancados dela, porque ela tinha de dar o leite é para o filho da senhora.

De que valeria um dia lá fora? 

Tivera quarenta anos dentro da cerca.Estavam gravados a brasa, nela.

Ela olhou o envelope. Josefa foi embora.Ela não ousou abrir a carta. 

A sua carta de alforria.

Não seriam umas letras que nada significavam a ela que mudariam sua cor. Sua dor.

Ela estava cansada. Cansada desde o útero.

Sozinha na senzala,Tereza fechou os olhos.

E morreu.