1

Mesmo Que Eu Me Afogue.

1

O vidro estilhaça quando atinge a borda da mesa. Não é o som mais agradável naquele momento, no entanto, Rita não se importa, o álcool fez efeito, pensa. Um dos cacos acerta seu pé descalço e sujo, pairando próximo a poça do próprio vômito, inclina-se, deixando um fio de saliva escorrer dos lábios até o chão.

Demora a conseguir sentar, agora com o caco de vidro entre os dedos. Preso como eu estava, pondera. A garrafa está ao alcance de uma mão, o desejo por mais um gole é estridente. Porém, ela para.

A mão move-se em direção ao que resta de uma folha de caderno amassada por inúmeras vezes enquanto tentava escrever.

Ela não… gagueja, grogue. Os dedos prendendo com força a caneta quebrada e quase sem tinta. Tão suja quanto as próprias unhas deixadas na carne.

Forçando os dedos, a caneta, pressionando o papel com ímpeto, deixando as letras disformes formarem palavras no papel defeituoso, feio, reflexo de sua vida. Pensa no sorriso das crianças, Lorenzo e Bento, e quer gritar para não deixar Bento se aproximar da piscina enquanto olha para o jardim, quer gritar para reagir quando o marido ergue a mão e a acusa inúmeras vezes, berrar com as mulheres caídas na cama de casal deles, gritar para que não se entregue ao alcoolismo. Com os dedos sangrando, sussurra a última frase que queria dizer a si mesma anos atrás quando começou a beber:

Ela não ousou abrir a carta chora, referindo-se a si mesma.