Por baixo da porta

Liberta

Por baixo da porta

Não toque meu corpo. Quando eu disse vá, não era charme. Quando disse pare, não era convite. Veja, tenho cicatrizes escondidas pela vergonha e pelas roupas que sou obrigada a usar. Teu beijo me agride, me invade, com a força de todas as dores que já senti. Saiba que teu amor é só teu, mas o adeus é para nós dois. Não sou um Cristo para carregar, resignada e passiva, o peso da cruz para uma morte cruel. Me esqueça, me delete, me liberte deste jugo doloroso. Não sou mais tua escrava, tua propriedade. Doei nossos lençóis, apaguei as fotos do computador, as postagens nas redes sociais. Só ficarei com as lembranças tão doídas de tudo que não pude ser. Agora, parta, não chorarei na tua frente nem gritarei minhas angústias e medos na tua cara tão fria, tão estranha, tão cruel. Cale-se, não quero ouvir teus choramingos, tuas esperanças de volta, tuas ameaças veladas, tuas palavras cortantes revirando meu estômago mais que as marcas das tuas mãos no meu corpo. Agora, calarei. A mala estará na portaria, minha vida, em novos voos, pois tornei a ser minha, e assim serei até o amor me tirar a trava, me dar um beijo na boca, me refazer mulher. Conto de fadas, coisas da vida.
Maria remoeu todos os pensamentos, enquanto olhava o envelope no chão, perto da porta. Resposta dada, ela não ousou abrir a carta dele. Passou por cima, foi para a rua, precisava dançar liberdades pela rua em temporais.