Brasil, 1964

Parte de Mim

Brasil, 1964

Lacrada como chegou, permanecera até o momento. E, devido às circunstâncias, talvez
estivesse fadada ao pó, ao esquecimento, na última gaveta de uma cômoda, aninhada a
vestígios de uma acomodação de aranhas e restos mortais de insetos.


Cá estava ela numa mesa de centro, sob um cinzeiro abarrotado que descasca a medida
que o tempo passa, castigado quando a chuva chega, e a pequena goteira no teto libera a
entrada para os pingos d’água.


A mulher não pôde deixar de nota-la, ainda carregada de um perfume adocicado,
feminino. Ainda assim, ela não ousou abrir a carta. Olhando fixo para o vazio, com a
mesma carranca solene... e, de repente, um lampejo. E tudo retorna:


O monstro. O quarto dele. As paredes vermelhas. Ele despido como em todas as outras
vezes. Ela tirando a roupa. Ele a fodendo. Sem mais amor, ou cumplicidade. Depois ele
dorme, mostrando o quanto é previsível. E, enfim, ela abre uma gaveta, e ergue um
objeto: um revólver; que logo pressiona contra a boca do patife, deixando apenas que
engula algumas balas...


Foi pelo filho que ela fez tudo que fez. E se naquela correspondência houvesse algo da
memória dele, ela necessitava saber. Por isso ela abre. Tremendo. E seus olhos
vislumbram algo que a alegra, que a conforta. Profundamente.


Enquanto segura a carta contra o peito, lágrimas escorrem de seus olhos até a ponta do
nariz. Isso, porque agora ela sabe: que uma parte de mim vive, e não só em suas
lembranças.