O vidro

O vidro

O vidro

A conversa acontecia normalmente...na medida do possível. As lembranças vinham acompanhadas com gestos tímidos, sorrisos singelos e, às vezes, lágrimas silenciosas.

Lembravam-se de um piquenique à beira de transparente lago, do filme regado à pipoca com manteiga derretida, do momento em que a tinta guache tomou conta do sofá, das paredes e até de seus rostos, de quando ensinaram para a filha a arte de dominar a bicicleta.

Recordaram-se da amora colhida e de suas mãos tingidas de roxo, do sabor irresistível do pudim com sua calda e ameixas ordenadamente espalhadas, do bolo de fubá, do pão de queijo, que apreciavam com um café quentinho no fim de tarde.

Rememoravam a primeira vez em que mostraram o arco-íris à menina e contaram que ali havia um pote de ouro. Lembraram-se de quando um trovão assustou a pequena, e ela os abraçou em busca de proteção.

Os olhos ficaram úmidos. 

– Entregou à nossa filha? – perguntou o marido.

– Claro, mas ela não ousou abrir a carta. Disse que não queria ler suas mensagens enquanto você estivesse nessa situação – disse, tristemente, a esposa.

– Entendo – resignou-se.

– Preciso lhe contar uma coisa. Ela está, ela está muito...

Ouviu-se uma sirene angustiante. O ruído anunciava o fim do horário de visita. Eles colocaram os telefones no gancho e tocaram as mãos, com um vidro frio separando-as. Ele, que era inocente, mas havia sido preso pelo racismo da justiça, voltou para a cela. Ela retornou para a casa. A filha tinha fome e saudade do pai.