Memórias de uma Vida de Trincheiras

Memórias de uma Vida de Trincheiras

Memórias de uma Vida de Trincheiras

Ela não ousou abrir a carta. Se abrisse, não podia garantir a si mesma que ficaria sã. A questão era que ela era a única que poderia fazer isso, todos os outros já haviam deixado a cidade sitiada pela Guerra. A mulher que já tivera um nome, mas não o tinha mais, tentou se lembrar de quando a vida transbordava das ruas.


Agora havia ruínas e morte, mas mesmo assim ela ficou. Médicos são os primeiros a chegarem no campo de batalha e os últimos a abandonarem o navio. Sua tarefa era cuidar dos feridos, mas  quando os cozinheiros deixaram, ela  passou a cozinhar também e quando os terapeutas deixaram, passou a ouvir a todos. Quando os escrivães foram embora, escrever os obituários, transmitir informações, escrever cartas em nome dos enfermos passou a ser função dela também. Ela nunca recebeu nada de volta, estavam abandonados.


Um dia uma carta chegou. Ela não ousaria abrir a carta, mas ela já não era dela mesma. Não havia distinção entre ela e o dever. Respirou fundo, abriu a carta. Nela havia uma frase simples.


“A Guerra Acabou.”


Ela deixou-se ter esperança.