Capítulo único

Um pensamento para o silêncio

Capítulo único

                Tem coisas que nunca conseguimos recuperar. O tempo é uma delas.


                Quantas pessoas passam a vida trabalhando exaustivamente e quando chegam ao seu final percebem que foi uma vida em vão? Ou se arrependem de não ter aproveitado tanto algum momento?


                Os eventos são únicos, e a perfeição do encaixe das personalidades presentes num momento faz com que nada seja igual. Acho que eu vi isso numa aula de filosofia, que você nunca entra no mesmo rio duas vezes, aparentemente é o mesmo rio, mas as águas já são outras.


                E assim vivemos, materializando o tempo num relógio, quando na verdade ele nem existe.


              Como eu cheguei a essa conclusão? Quando eu fui para a creche pela primeira vez e no meio do meu choro desesperado tudo parou. Eu não sei quanto tempo eu fiquei lá com água escorrendo do meu rosto até eu perceber que meus pais estavam congelados com cara de preocupação e muito menos como fiz para tudo voltar ao normal.


                 Aos poucos eu só fui aprendendo a lidar com essa situação e aproveitando ao máximo dela. Mas pode ser bem entediante e até agonizante quando acontece com frequência.


                Tipo agora, com a turma toda parada na minha frente. Meus amigos estão ao meu lado, segurando os cartazes e olhando para mim. A minha mão ainda treme e meu coração parece que nunca vai se acalmar. Eu não deveria estar tão nervosa, eu sei tudo que eu deveria falar.


                Ok, respiração...


                Olhos fechados, respira...


                Inspira


                Respira


                Devagar


                Alguns segundos só ouvindo minha respiração até que eu pudesse abrir os olhos e ver que todos já piscavam e o ar condicionado fazia barulho. Estava tudo bem de novo.


- E a Terceira Revolução Industrial é a Revolução Tecno-Científica que estamos vivendo agora, onde a tecnologia de ponta alinhou-se à indústria, a informática, globalização e terceirização que são partes essenciais desse processo.


                Quando terminei minha fala, recebemos aplausos não muito empolgados e um sorriso da professora.


- Muito bem! Todos fizeram um ótimo trabalho e eu vou dar a pontuação na próxima aula.


- Nosso trabalho foi o melhor, por favor, não aceito menos que a nota máxima! – Eduarda disse ao sentarmos de volta nas nossas carteiras –


- Eu passei a noite toda fazendo essa droga de cartaz e quem faz cartaz? Só as crianças do sexto ano!


                Sério, eu fiquei indignada. Nunca leem os cartazes! Pra que isso? Um desperdício de árvore.


                Nossos comentários sobre o trabalho foram interrompidos pela professora me chamando.


- Você pode recolher os cartazes dos grupos, e encontrar a Aline da outra turma do lado de fora? Vocês ficarão encarregadas de grudar os trabalhos nas paredes, em ordem, por favor.


- Claro, ela já está lá ou eu tenho que chamar?


- Só chamar, obrigada, preciso ficar aqui olhando a turma.


                Ótimo, falar com pessoas que eu não conheço. Mas tudo é um exercício. Só pedir os cartazes, bater na porta chamar a Aline, que eu acho que sei quem é, e colar, nada demais. Ah também tem que pedir o durex. Ok, vai ficar tudo bem.


- O que foi? – Claudio perguntou enquanto eu pegava o cartaz –


- Eu só tenho que colar os cartazes no corredor, aparentemente as pessoas vão se interessar sobre Revolução Industrial e vão até parar pra ler.


- Boa sorte, vamos ficar aqui aproveitando os vinte minutos restantes da aula falando mal de você.


                Luciana adora me perturbar, mas eu tenho certeza que ela nutre muito amor por mim.


                Peguei todos os cartazes com os grupos e segui para a sala ao lado da nossa. Parei alguns segundos na frente da porta de madeira da outra turma para respirar e imaginar que tudo ia dar certo. Talvez não tenha nada demais nisso, mas situações novas, pessoas novas e atenção são capazes de fazer meu coração soltar do meu peito.


                Dei as batidas na porta e chamei pela Aline. Quando percebi os olhares em mim, senti meu corpo mudar  e acreditei que tudo pararia de novo, mas logo Aline apareceu do meu lado cheia de papel na mão.


- Você já sabia? – perguntei vendo sua preparação –


- Ela avisou que isso aconteceria – ela sorriu pra mim e fechou a porta – Segura aqui que eu vou pegar a fita.


                A porta de alguma sala se abriu e um aluno me viu que nem uma tonta, soterrada de papel no meio do corredor, em segundos sua confusão se tornou em indiferença e ele focou sua atenção no bebedouro.


                Aline voltou com fita e tesoura e me ajudou a aliviar o peso dos cartazes.


- Ah, você é a Brenda né?


                Além dos meus amigos alguém sabe o meu nome, que legal.


- Uhum, a gente já se viu antes?


                Ela agachou e eu fui passando os cartazes enquanto ela cortava as fitas.


- Não é sempre que a gente esquece um vácuo.


                Provavelmente ela estava me confundindo com alguém, eu só a conhecia de vista, redes sociais, do recreio, nunca havíamos conversado até esse momento, e ela percebeu a minha dúvida.


- Não é você? – Ela me mostrou o celular onde a minha foto estava no Kiss, aplicativo para “conhecer pessoas” –


                Eu paralisei, eu jamais teria a coragem de usar o Kiss e minha foto estava lá, e quando peguei o celular na minha mão vi que eram várias fotos e uma descrição “Tímida então fala aí”.


                Aline começou a rir do meu espanto e nervosismo.


- Eu não contei pra ninguém, respeito a sua privacidade.


- Não... Não é isso... É que... – eu não sabia o que era mais chocante, terem me usado no aplicativo ou ela ter tido interesse em mim- Não fui eu que fiz esse perfil...


                Colei um cartaz na parede para disfarçar a minha cara vermelha.


- Então você não é...


- SOU!


                POR QUE EU GRITEI?


- Sou... – retornei ao tom normal da minha voz e respirei fundo para não passar mais vergonha na frente dessa menina que me encarava sorrindo do meu despreparo para lidar com tudo isso – É que não fui eu que criei o perfil, devem ter pego foto minha... Eu cheguei a falar alguma coisa? Quer dizer, não eu... Essa pessoa com minha foto.


- Não, eu mandei um “Você não é do meu colégio? Que legal!” e nenhuma resposta... Apesar de que você parece bem tímida mesmo.


- Eu juro... – mais uma tentativa frustrada de não demonstrar meu desespero – Não sou eu, sou completamente incapaz de lidar com flerte, ou a possibilidade de alguém estar interessado em mim, ou eu estar interessada em alguém.


                As palavras saíram tão rápido quanto o tremor das minhas mãos. Ao falar tudo isso eu nem reparei que poderia ser interpretado como se a tivesse negando, e nem teria percebido se ela não tivesse perdido o sorriso lindo.


                Eu já tô fazendo elogios pra ela na minha cabeça? Ah não! Eu estou tão desconfortável! Qualquer movimento para voltar à tarefa que nos levou até ali e eu entregaria o quanto eu não estava bem.


- Vamos terminar aqui então e eu juro não falar mais disso.


                Só faltavam alguns cartazes e eu me senti mal enquanto os colava, eu não queria rejeita-la, por favor, ela parecia ser muito legal! Além de linda, claro. Eu só não estava preparada para aquilo.


                Quando finalizarmos a colagem eu fui devolver a fita e tesoura junto dela, sem nunca parar de pensar como terminar aquilo da forma certa.


- Desculpa, se te deixei sem graça ou algo assim...


- Imagina! – ai como ela estava sendo adorável – Eu só não imaginava que isso fosse acontecer, fiquei desprevenida e... Talvez se eu tivesse me preparado a resposta teria sido muito melhor... Quem te deixaria no vácuo? Eu não iria perder essa oportunidade...


- Você é uma fofa! Mas sabe, as coisas vão acontecer na sua vida sem você estar preparada pra elas... Fica até mais emocionante.


- Eu acho horrível! E se eu fizer alguma coisa errado?


- Então você errou.


                Era uma resposta tão simples. Sempre encarei o errado como algo complicado, absurdo e inadimissível, e ela estava tratando como algo tão pequeno, sem mal nenhum.


- Você pode me avisar quando tiver preparada pra eu pegar seu número? Ou a gente sair?


                Eu não acredito que cai no estereótipo de uma das partes do casal de meninas tomar as iniciativas e controle da situação e a outra é um bicho indefeso. Como eu odeio estereótipos! Eu odeio ficar nervosa com essas coisas! Mas e se ela não gostar de mim? Eu não tiver o que falar? For desinteressante? E se ela for chata e eu não puder sair da situação? E beijar? Ela vai querer me beijar? Meu beijo deve ser horrível! Já estou imaginando, ela vai rir, vai achar fofo...


                E aí eu reparei que ela estava congelada na minha frente no silêncio infinito de uma escola lotada paralisada por Deus sabe o que. Seu rosto parado mostrava o quanto ela estava se divertindo com todo esse flerte, é libriana, com certeza. Agora como eu faço pra responder isso? Pelo menos agora tenho mais tempo para pensar.


                Sentei no chão e pensei na pequena possibilidade de tudo dar certo, era impossível, talvez, mas ainda é uma chance né? Meus amigos dizem que sou divertida, comentam nas minhas fotos o quanto eu sou bonita... não que seja tanta verdade quanto eles falam, porém não sou feia! Mas beleza não é tudo... Isso foi tão superficial... Que idiota! Ok, vou respirar fundo e dar meu número... Eu sei meu número? 9...8437... É, lembrei.


                Comecei a controlar minha respiração para que se tornasse intensa, minhas mãos se acalmassem e meu coração também.


- O máximo que vai acontecer é dar errado né? – sorri me sentindo orgulhosa da minha própria coragem – Pode me dar seu celular, eu coloco meu número.


- Uau! Nem parece mais a menina que estava aqui há alguns segundos.


                É porque eu tive tempo para me preparar, você nem imagina como fica fofa congelada! As pessoas realmente não fazem ideia do que acontece além do conhecimento delas.


 


                          XX


                Você pode me julgar achando que as coisas aconteceram rápido demais, mas realmente aconteceu.


                Para começar, meus amigos que tinham criado o perfil com a justificativa de que eu "precisava de alguém". Mas de qualquer jeito, eu e Aline fomos ao cinema naquele mesmo final de semana e foi uma experiência... Interessante. Talvez eu não tenha conseguido me concentrar no filme pensando se eu deveria falar alguma coisa, ou ficar quieta, beija-la, segurar a sua mão, o que ocasionou numa congelada um pouco rápida. Assim eu percebi que talvez deveria só curtir o filme. Quando tudo voltou ao normal e o filme estava quase acabando, ela virou pra mim e perguntou se eu queria ficar com ela. Sem nem pensar, nos beijamos. Não lembramos que tinham pessoas nas cadeiras de trás, dos lados, na frente... Quem sabe alguém fez uma cara feia, pensou que aquilo era um absurdo, mas não me importei porque aquilo era um absurdo sim... DE BOM!


                Quando cheguei em casa, contei tudo para meus amigos que vibraram, como se fosse um gol, na verdade essa analogia não faz sentido, ninguém nesse grupo gosta de futebol. Enfim, a alegria não durou muito, como se o meu cérebro tivesse vida própria eu comecei a reviver tudo, desde os cartazes até a despedida, quando eu fiquei tão nervosa que ela teve que me dar outro beijo para que eu soubesse que estava tudo bem. E em cada uma dessas situações eu percebia como parecia uma boba insegura. Não que não fosse verdade, contudo uma pessoa que me interessa perceber isso me perturbou. As pessoas se atraem por força, segurança... Será que eu tinha estragado tudo? E à medida que as cenas passavam pela minha cabeça, o relógio na parede foi mexendo mais devagar até parar. A bateria podia ter acabado então olhei pela janela e nada se mexia, mas também não tinha ninguém na rua. Duvidei se o silêncio era usual ou o tempo havia congelado de novo, porém não me importei. Só fiquei lá olhando para a rua e pensando como seria daqui para frente, eu devia falar alguma coisa? E se ela não falar nada? Quais as regras? E antes que eu voltasse a relembrar tudo e examinar meus erros como algo ruim, meu celular apitou. Aline tinha mandando uma mensagem falando o quanto tinha se divertido, como eu era uma ótima companhia e que ela ia adorar me ver fora da escola mais vezes, e não só para poder me beijar de novo. Eu fiquei tão feliz e ao mesmo tempo me senti estúpida por perceber que eu precisava daquilo. Porém não somos perfeitos e completamente autossuficientes, às vezes precisamos que reafirmem o que não somos capazes de perceber sozinhos.


                Depois disso, nos falávamos nos intervalos, depois da aula íamos comer alguma coisa, quando não estávamos estudando trocávamos mensagens. E quanto mais dias passavam da nossa convivência, menos o tempo parava e eu me sentia menos ridícula.


                Fazia umas três semanas que a gente estava saindo quando ela me mandou a mensagem que fez tudo parar depois de tanto tempo:


“Meus pais vão passar o final de semana fora, quer vir dormir aqui?”


                E cá estamos, cantando velhas músicas da Miley no sofá, mais alto do que uma plateia de show.


- Não fazem mais músicas como na época de 2010 – comentei pegando uma colher do brigadeiro-


- Uma pena eu não saber inglês nessa época para me esgoelar de tanto cantar.


                Já estava de noite, e a tarde tinha sido ótima! Fomos à praia, tomamos açaí, quando chegamos ficamos falando mal dos programas de fofoca e intriga, vendo vídeos, indicando músicas, até chegar a um pote de pipoca vazio e um terço do prato de brigadeiro.


                Eu estava bem nervosa, uma casa vazia, duas meninas que não aguentavam mais esperar para ir além de beijos e o meu coração disparando cada vez que se ficava em silêncio. E se eu não soubesse fazer direito? Ela vai achar ruim? Eu tenho força no braço? Será que ela tem DST? Será que eu tenho DST? É melhor eu lavar a mão de novo? Eu vou saber fazer oral?


                Ignorando completamente todas essas coisas absurdas na minha cabeça, eu esqueci que tinha uma e segui a minha vontade, perguntando o que ela tinha me dito quando nos beijamos há semanas atrás.


- Você quer ficar comigo?


                O seu sorriso se transformou numa risada fraca e eu percebi que pela primeira vez ela estava tão nervosa quanto eu. Ia ser uma noite complicada. Porém nos beijamos, no sofá da casa dela. Umas mãos descendo as costas, alisando as coxas, acariciando a barriga por dentro da blusa... Ficamos assim um bom tempo, nenhuma das duas devia saber quando era a hora de fazer mais. Eu já estava começando a ficar nervosa pensando se deveria tomar alguma iniciativa quando ela forçou o corpo dela contra o meu eu deitei com ela em cima de mim.


AAAAAAAAA MEU DEEEEEEEEEUS


 


 


 


 


    Eu tô bem


    Eu tô ótima.


                A mão dela começou a acariciar partes não tocadas antes, mais íntimas, e que iam me deixando com mais vontade. Tudo isso enquanto nos beijávamos bem devagar e íamos tirando as nossas roupas, o que só piorava/melhorava meu estado. E quando estávamos completamente nuas eu perdi o controle. Todos os pensamentos voltaram e eu já não os controlava, eles vieram mais fortes, mais verdadeiros, e os meus medos estavam se tornando reais. Eu não vou conseguir dar prazer pra ela. Eu não sou capaz. Eu não vou...


                E a língua dela travou na minha boca. Ótimo. Ótimo momento. Aline estava congelada em cima de mim com a língua dentro da minha boca. Eu encarei seus olhos fechados e comecei a rir, de desespero. Como sou patética! Fiz um pequeno esforço para sair debaixo dela e comecei a andar nervosamente de um lado para o outro. Atrás de mim estava a menina que eu gostava numa posição ridícula, pelada, com a língua para a fora, e eu pelada sem conseguir ficar parada. Eu podia estar fazendo algo bem melhor agora. Que droga. Por que eu sou assim? Eu quero isso? Eu quero estar aqui? Será que eu tenho que parar e falar que não? Óbvio que não! Olha isso! Até ridícula ela é sexy, ai como eu odeio essa palavra... Fiquei um tempo parada olhando para ela, analisando tudo aquilo. Eu tinha medo por mim ou por ela? Será que ela tem tantas preocupações quanto eu?


                E talvez seja ela parecer tão desprevenida, assim, parada, sem roupa, mas eu perdi parte do medo. Acho que ali, vendo ela tão vulnerável e imaginado que talvez ela fosse como eu (se eu tivesse congelada e ela estivesse me vendo pelada?), eu entendi a simplicidade do errado. Toda essa situação já está condenada ao erro, como todas as outras, porém pode ser que não seja tão ruim assim. Mais uma vez, era preciso coragem.


                Meu coração foi voltando a bater num ritmo decente, as minhas mãos se aqueceram e o tremor ficou menos intenso.


                Olhos fechados, respira...


                Inspira...


                Respira...


                Devagar


                Quando senti seu coração batendo em cima de mim e tudo em movimento novamente eu fiquei mais calma. Permitirmos nos olhar um pouco, antes de voltar para o escuro de um beijo.


                Vai dar tudo certo. E se não der, foda-se também, sou uma lorde do tempo.