Capítulo 0: Síndromes (narrado por Liz)

Síndrome de Salvador

Capítulo 0: Síndromes (narrado por Liz)

                A culpa vinha me corroendo. Nas primeiras horas, me convenci de que estava tudo bem. Mas os minutos foram passando e minha aflição não passou. Só piorou quando eu vi Vicente ir embora, de óculos escuros e puxando malas. Estranhamente, ele não estava com sua costumeira jaqueta. Parada no meio do corredor, senti meu coração apertado. Era uma encruzilhada. Se eu não contasse a verdade, teria que conviver com essa sensação de que estava traindo a mim mesma para sempre. Se eu contasse a verdade, Cássio que sofreria.

                Nicole era uma maldita ditadora, era isso que ela era. Como se participar desse grupo ridículo não fosse já um suplício, ela ainda parece ter prazer em fazer minha vida um inferno. Eu nunca deveria ter entrado nos herbalistas mas, assim como agora, na hora que tomei essa decisão também estava em uma encruzilhada. Podia escolher ser uma irmã ruim e fingir que nada estava acontecendo ou podia arriscar toda minha reputação de boa moça e tentar cuidar de Cássio.

                Era tudo culpa de Nicole, na verdade. Se ela não tivesse jogado os sedosos cabelos para trás e batido as pestanas com tanto afinco, como faz com a maior parte das suas vítimas do sexo masculino, Cássio não teria se metido nessa. Ela viu uma oportunidade para usar as peculiaridades do meu irmão e ele, inocente e diferente, não percebeu nada de errado.

                Era culpa da minha mãe também, para ser bem sincera. Se ela tivesse ouvido meus pedidos e aceitado contar para todos sobre a condição de Cássio, nada disso estaria acontecendo. A chantagem de Nicole não teria nenhuma valia se todo mundo soubesse que Cássio não faz coisas erradas por querer. Ele simplesmente não tem muita noção do limite entre o errado e o certo. Simplesmente faz o que as pessoas que ele gosta o pedem.

                E, graças as pestanejadas lentas de Nicole, ele a idolatrava.

                Então quando ela pediu para que ele, em um dos nossos finais de semana de food trucks, entregar um malote de maconha para o rapaz que ficava na barraca de cachorros-quentes ele não entendeu porque aquela era uma má ideia. Ele assentiu, pegou o pacote que ela entregou e ainda por cima esboçou algo que, pelo que eu conhecia do meu irmão, poderia ser entendido como um sorriso.

                Todavia, quando ele tentou entregar o malote para o cara do food truck errado, a situação começou a degringolar. O dono da Burgerholic começou a gritar com meu irmão, que se encolheu o máximo que pode, segurando a droga na mão como se fosse um pacote de pão. Eu corri na direção da confusão, tentando entender o que estava acontecendo e pronta para dar uma voadora no vendedor. Nicole, todavia, foi mais rápida. Puxou o envelope pardo da mão de Cássio, disse meia dúzia de palavras que o fizeram sair de perto da confusão e virou-se para conversar com o cara. Os dois entraram no furgão e ficaram lá dentro por vários minutos. Ninguém sabe muito bem o que aconteceu, mas no outro final de semana de food trucks, o responsável pelo Burgerholic era outro. E nunca mais vimos o cara da discussão.

                Foi depois desse acontecimento que me candidatei para participar dos herbalistas. Nicole riu da minha cara quando eu pedi a primeira vez, dizendo que eu era uma pirralha. Ela era do segundo-ano do Ensino Médio e se achava a dona da bagaça toda. Ela de fato era a chefe dos herbalistas, mas só porque eu ainda era do primeiro-ano achava que eu não seria digna de entrar naquele clube do mal dela. Ela só me levou a sério quando eu dei um tapa no armário dela antes dela conseguir abri-lo e disse que fazia qualquer coisa para entrar.

                Eu não sabia que qualquer coisa significava um ritual de entrada tão bizarro e talvez tivesse pensado melhor nas minhas palavras se soubesse, mas eu precisava defender meu irmão. De dentro dos herbalistas eu podia controlar a toda soberana deles mais de perto e, se possível, afastá-la o máximo dele.

                Meus planos caminharam bem. Toda vez que ela ia pedir alguma coisa para meu irmão, eu corria na frente e me voluntariava para fazer. Eu questionei veementemente as tarefas duas ou três vezes. Nicole me olhava atravessado e me dizia que, se eu não cumprisse a tarefa, ia simplesmente pedir para Cássio.

                ― Ou, quem sabe, posso contar para o diretor qual é a verdade sobre a história do Burgerholic... ― ela fazia cara de ponderativa.

                E eu continuava fazendo o que ela pedia, apavorada com a perspectiva de ela dedurar meu irmão. Se minha mãe ao menos tivesse contado sobre a síndrome de Cássio. Ninguém poderia culpá-lo. Mas defender-se de culpa com uma síndrome retroativa talvez não fosse suficiente. Minha mãe havia dito que Cássio estaria seguro no EA, devido aos seus “métodos alternativos de ensino”. Seguro. Ah, tá.

                Os planos de Nicole para os herbalistas estavam um pouco diferentes daqueles que me explicaram na iniciação pesada do grupo. Até onde eu sabia, eles não traficavam o conteúdo que os dava esse nome, apenas usavam para consumo próprio. Todavia, as vezes que Nicole tinha me feito de mula dentro daquele colégio já passavam muito os dedos das mãos. E dos pés.

                Quando ela avisou a todos para escondermos nossos pacotes, que costumeiramente ficavam nos nossos armários, eu escondi o meu dentro da caixa d’água do meu banheiro. Todavia, na manhã da vistoria, me bateu um desespero. Corri até o quarto do Cássio e pedi para que ele pegasse uma coisa no armário dele para mim. Quando ele abriu, vi que ele não tinha se livrado de seu saco.

                Se era algum tipo de armação de Nicole, eu não sabia. O que eu sabia era que não dava muito tempo para resolver a situação. Já estávamos no horário de aula e os quartos estavam inacessíveis. As vistorias dos armários também envolviam uma vistoria de nossos bolsos, então eu realmente não sabia o que fazer. Minha vontade era de jogar aquilo pela janela, mas alguém ia acabar descobrindo e, pior, Nicole ia acabar descobrindo.

                Sem outra opção, peguei o saco, escondi embaixo da blusa e corri para Nicole, dizendo que ela era minha e que eu tinha esquecido de me livrar no dia anterior. Depois dela fazer um escarcéu e me chamar de todos os nomes possíveis de xingamento, me obrigou a entrar na coordenação em busca dos códigos dos armários. Nicole disse que eu devia esconder no armário de Juliana, porque ela era “muito cdf” e talvez não tivesse a revista feita com muito afinco. Eu aceitei, me sentindo aliviada por ela não ter pedido para eu esconder no armário de Tiago.

                Só que aí toda aquela cena tinha acontecido. Não só acharam a maconha que não era de Juliana no armário de Juliana como também expulsaram Vicente, que resolveu dizer que a maconha era dele. Vicente tinha sido um problema na vida dos herbalistas desde que entrou no colégio, mas ao mesmo tempo também tinha sido nosso melhor fornecedor. Até que parou de fornecer. E aí Nicole resolveu ocupar esse vácuo de oferta de drogas me fazendo de mula.

                Ela ficou imensamente irritada quando soube que Vicente tinha sido expulso, pois nutria uma paixão não tão secreta pelo garoto. Era um pouco ridículo, na verdade. Vicente era do terceiro ano, assim como Juliana e, apesar de ter passado o rodo no colégio inteiro antes de acabar se apaixonando pela monitora de química, nunca olhou mais de uma vez na direção de Nicole. Quer dizer, exceto para negociar o preço das encomendas. Nicole, atirada como era, chamou ele para sair e até para o quarto dela mais de uma vez, mas Vicente disse que não misturava negócios com diversão.

                O que, na minha concepção, significava que ele não estava nem um pouco interessado. Eu e Tiago morríamos de rir dos olhares furtivos e infrutíferos que a garota mandava na direção do bad boy, que depois de um tempo parecia só ter olhos para os cachos de Juliana. Eu achava que eles eram um casal improvável, mas que fazia muito sentido.

                E era justamente por isso que eu me sentia tão mal por ter destruído tudo.

                Um tempo depois do acontecido, tentei convencer Nicole a contar a verdade. Disse que podíamos mandar uma carta anônima para o diretor. Ou, quem sabe, só contar a verdade para Juliana. Vicente era podre de rico e provavelmente daria algum jeito de terminar o ano em algum outro colégio, em troca de uma quantidade absurda de dinheiro. Só queria que eles voltassem a ser felizes e um casal. Não queria ser a responsável pelo fim.

                ― Se você abrir o bico também vou mandar uma carta anônima para o diretor ― Nicole deu um de seus sorrisos que não eram sorrisos de verdade, mas sim uma maneira de te ferir com os lábios. ― Sobre seu irmão, sabe?

                Eu implorei. Chorei. Disse que faria tudo que ela quisesse. Ela me empurrou contra a parede, mandou eu calar a boca e saiu batendo as botas pretas de coturno no chão, ignorando minha existência e meus pedidos.

                Foi quando Karen, a melhor amiga de Juliana, apareceu, como um anjo enviado do além. Eu me agarrei a ela como se fosse meu último fiapo de vida, sentindo meu coração em frangalhos. Implorei, mais uma vez, para que ela desse um jeito de contar a verdade sem expor a história para o colégio, ou para o diretor ou, mais especificamente, para Nicole. Fiquei sabendo que os dois se acertaram na festa de formatura do terceiro ano.

                Fiquei esperando os gritos de Nicole, mas os dias foram passando e eles não vieram. Comecei a acreditar que eu estava a salvo. Ela não sabia que eu tinha contado a história para Karen. A garota tinha cumprido sua parte da promessa e me salvado da fúria. Eu queria poder agradecer por ela ter livrado minha culpa e, ao mesmo tempo, protegido meu irmão. Mas Karen já estava formada, assim como Vicente e Juliana.

                Eu não. Eu ainda tinha mais dois anos pela frente. Mas Cássio só tinha mais um. Assim como Nicole e Tiago, meu melhor amigo. Eu ficaria presa nas paredes do EA sozinha por um ano além deles, mas na verdade não via a hora de me ver livre de Nicole e de arrumar um lugar protegido – protegido de verdade – para Cássio.

                Mas sentiria falta de Tiago. Tanta falta que não queria nem pensar nisso.

                O próprio sorriu quando eu virei na sala de biologia, no primeiro dia de aula do ano seguinte dessa confusão toda de Juliana e Vicente. Eu era adiantada em biologia e fazia aulas do terceiro ano. Uma das coisas que os “métodos alternativos de ensino” do EA previam era que os anos se misturassem em algumas aulas, de acordo os graus de aptidão dos alunos. E, modéstia à parte, eu era uma aluna incrível. Sentei ao seu lado, como sempre fazia. Sorri de volta para ele, me sentindo tímida. Tiago era meu melhor amigo, mas meu coração queria me dizer que era para ele ser mais que isso.

                ― Como foram suas férias, Liz? ― Ele perguntou, sempre solícito.

                Não pude responder. Simone, nossa professora, interrompeu nossa conversa quando resolveu fazer um anúncio terrível.

                Seria um longo ano e eu não sabia se teria estruturas para aguentá-lo...


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               Olá, galera. Estou retornando com as postagens de Síndrome de Salvador e me dei conta de que o livro fica bem melhor com esse capítulo de contextualização para a história. Então, se você está chegando agora, bem-vindo! Síndrome é o segundo livro da série "Colégio EA" (o primeiro é Reações Químicas, que você também encontra aqui no Sweek), mas os livros não precisam ser lidos na ordem! As postagens são toda quinta-feira!