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Só Preciso de Tempo

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                O ambiente do restaurante não mudara, desde a primeira vez que foram àquele lugar. A música preenchia discretamente todo o espaço e a luz era suave, reforçando o local com uma cumplicidade muito apreciada pelos clientes. O charme era rematado pelas pequenas mesas redondas, de quatro lugares, com toalhas estampadas em tons pastel, todas diferentes.

                Aguardaram um pouco, sentados num sofá à entrada, onde aproveitaram para tomar mais uma taça de vinho. Depois, seguiram um garçom impecavelmente vestido, que lhes indicou o local, com uma pequena, mas desnecessária, reverência.

                Como de costume, Adriano desdobrou o guardanapo de tecido, enquanto olhou ao redor, procurando alguém conhecido. Estranhou um homem arruivado, de barba branca, na mesa do lado que, apesar de jantar acompanhado por uma mulher, não disfarçava os olhares que dirigia a Danilo.

                – Os senhores já decidiram?

                Danilo estava escudado atrás do seu cardápio. Os cardápios daquele restaurante tinham uma dimensão considerável.

                – Mais uns minutos, por favor. Ainda não escolhemos – pediu Adriano.

                – Com certeza.

                Definitivamente, o comportamento de Danilo não era dos mais comuns. Aparentemente, a presença ou, pelo menos, os olhares daquele homem o incomodavam.

                – Está tudo bem, amor?

                – Oi?

                Adriano baixou o cardápio que escondia a cara do namorado.

                – Perguntei se está tudo bem – insistiu, olhando-o nos olhos.

                – Tudo certo.

                – Não me parece.

                – Não se preocupe – respondeu Adriano, com um sorriso desmaiado. – É sério! – insistiu, vendo a desconfiança no rosto do namorado.

                – Já decidiu o que vai comer?

                – Um steak au poivre.

                – Também vou pedir o mesmo – decidiu-se, fazendo um sinal ao garçom.

                A música ambiente continuava a desempenhar a sua função de forma discreta e, aos poucos, o que parecia incomodar Danilo foi, aparentemente, se dissipando. Adriano olhava discretamente para o homem misterioso que, por sua vez, pareceu optar por focar sua atenção na sua companheira. Tinha vontade de perguntar ao namorado o que acontecera afinal, mas não queria estragar a noite. Também porque não tinha a certeza de ter analisado a situação corretamente. Acreditava que, caso se tratasse de algo importante, Danilo falaria com ele, em momento oportuno.

                Assim, pôs de lado todo aquele episódio para desfrutar, devidamente, o jantar de aniversário do seu namoro.

                Brindaram ao futuro, a muitos e bons dias, a uma vida a dois, a tudo aquilo a que dois namorados brindam quando, passados três anos, ainda mantêm a paixão dos primeiros tempos. Enfim, não exatamente igual, pois uma relação é feita de altos e baixos, sendo ela viva, tal como as pessoas que nela se entrelaçam. Mas, no final, é a companhia e o companheirismo que contam. É a capacidade de se sentarem e falarem abertamente de tudo que vale. É a força que dão e recebem que importa. Foi o que apenderam ao longo das relações passadas, mais ou menos sérias, mais ou menos sofridas. A relação, que é viva, tal como as pessoas que nela se entrelaçam, também amadurece, exatamente do mesmo jeito.

                – Profiteroles, certo?

                Danilo sorriu.

                – Certo. Para você, salada de frutas?

                – Certo. Mas apenas se a puder incrementar com um dos seus profiteroles.

                Adriano olhou para a mesa do lado, onde o tal homem de barba branca pedia a conta ao garçom. Havia algo naquele casal que parecia não estar certo. Talvez fosse o fato de ele aparentar ser consideravelmente mais velho do que ela, mas não. Podiam ser marido e mulher, pai e filha, amantes clandestinos, cliente e prostituta - ou outra coisa qualquer. Por que motivo a mesa do lado o importunava tanto?

                A mulher levantou-se, levando uma pequena bolsa de lantejoulas douradas com ela. Provavelmente foi ao banheiro retocar a maquiagem, como é tão comum. O homem pediu a máquina e pagou com um cartão black. Guardou a segunda via na carteira, levantou-se e foi a partir daí que aconteceu algo que marcou aquela noite para sempre.

                – Danilo? – perguntou o homem arruivado de barba branca, após se aproximar da mesa. – Há quantos anos!

                Adriano, sem reação, olhava para ambos, tentando entender o que estava acontecendo. De perto o homem parecia ainda mais velho.

                – Vejo que incomodo você, mas não queria sair sem me despedir – prosseguiu, ignorando a presença de Adriano. Não estando totalmente de costas para este, sua postura desdenhava-o. – Também não quero estragar a noite com seu cliente.

                Cliente? A expressão explodiu nos ouvidos de Adriano, deixando-o atordoado.

                – É meu namorado.

                Durante alguns segundos, instalou-se um silêncio insuportável à mesa. O homem rodou lentamente sobre si próprio, passando a encarar Adriano, pela primeira vez.

                – Que bom, namorado. Então já deve saber que Danilo é soropositivo, certo?

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