Cinco regras para uma manhã sem lembranças

Cinco regras para uma manhã sem lembranças

Cinco regras para uma manhã sem lembranças

De tudo o que eu poderia esperar pra um primeiro dia do ano, só não imaginava acordar sabendo que fiz uma cagada tão grande que vai custar meu emprego. Se ao menos me lembrasse do que aconteceu. Mas a noite de ontem se apagou. Como sei que fiz merda? Minha camisa está suja de sangue. E não é meu, não. Tenho certeza.

Eu queria mesmo era ter passado a virada em Ko Phi Phi. Vi na internet outro dia. Porra, teria sido ótimo. Fazer que nem esses caras de coque e bermudão. Chegar na praia de areia branca, mar azul. Ver os fogos — ou o que eles quisessem explodir. Do outro lado da porra do mundo.

Mas quem tem dinheiro pra uma merda dessa? Eu não. Nunca tive. Eu preciso trabalhar. Pensão, aluguel, cartão de crédito. Pacote completo, sabe?

Não. Pra mim, sobrou a festa de fim de ano da empresa. Meu Jesus, se eu pudesse voltar no tempo… Eu estava cansado, trabalhei até tarde da noite. Só terminei lá pelas dez e tantas. Se um funcionário para de trabalhar lá, tenho que formatar e reconfigurar a máquina. E foi uma penca de máquinas dessa vez.

Enfim. Isso não importa. Eu já estou atrasado de novo. Meu contrato não liga se é feriado, se minha cabeça vai explodir ou se me envolvi em uma briga. A empresa não pode parar.

Vai ser bom voltar lá e descobrir o que aconteceu. Preciso reparar o que eu fiz antes do meu chefe me encontrar. Não posso perder esse emprego. A Jéssica me joga na cadeia se eu atrasar a pensão um dia. Vaca.

Pelo jeito, vai ser um ano complicado.



Meu banheiro está uma zona de guerra. A tampa da privada está quebrada, as toalhas estão no chão e dois anéis da cortina do box arrebentaram. Pelo meu cheiro, não tomei banho. Quem sabe o que aconteceu aqui?

Mas não dá tempo de limpar isso agora. Nem de tomar uma ducha. Vou só escovar os dentes pra tirar esse gosto de corrimão de metrô, jogar um desodorante pra disfarçar e trocar de roupa correndo.

Estou meio zonzo ainda. Não serei o melhor dos motoristas, mas é mais rápido ir de carro. O portão está demorando pra abrir. A luz do dia dói os olhos.

Vamos, lá. É como andar de bicicleta. Engata a ré. Está arranhando, engata de novo. Nada mal. Agora vai, devagar.

Ah, não! Quem deixou o carro na frente da minha casa? Não é daqui. É carro de patrão. Só podia ser. Esses filhos das putas pensam que são os donos do mundo, que podem tudo. Se eu tivesse tempo, metia a faca nos pneus.

É incrível. Quando você está com pressa, tudo parece conspirar pra ferrar com a sua vida. Ter que manobrar pra sair da minha própria garagem. E meio ruim das ideias ainda. Seja o que Deus quiser.

Tomara que roubem essa merda.



Demorou, mas cheguei. Até meu carro parecia mais devagar. Que nem meus passos. Parei em um canto escuro do estacionamento e estou me arrastando até o elevador. Me sinto andando na Lua.

No sexto andar, já tem gente trabalhando e isso é ruim. Meu gerente é tranquilo, mas não vai fazer vista grossa correndo o risco de ser dedurado.

Minha mesa está como deixei. Parece que a cadeira nem perdeu ainda o formato da minha bunda. Vamos lá, concentração. Você precisa se lembrar do que aconteceu ontem. Faça que nem nos filmes.

Regra número 1 pra quando você perder a memória: Refaça seus passos.

Terminei de reconfigurar a última máquina. Levei ela pro almoxarifado. Tranquei a porta. Disso me lembro. Depois desci até o segundo andar. A festa estava rolando.

Peguei uma dose de uísque e tomei em um gole. Arrotei. Me chamaram de porco. Carla. Da expedição. Peguei outra dose e fui conversar com ela. Carla da expedição! Ela vai poder me ajudar.

Regra número 2: Fale com quem esteve com você.

A Carla é uma graça, mas não é muito simpática. Será que meti a mão na cara dela? Cristo, preciso parar com essa mania de beber e dar socos nos outros. Como se alguém tivesse alguma coisa a ver com os meus problemas.

Tenho que encontrar a Carla. Pela rede da empresa consigo achar o ramal dela. 287. Ninguém atende. Vai, Carla. Por favor.

— Opa! Carla?

— Não. É a Lorraine. A Carla não veio hoje.

— Ah, não veio. — Puta merda. Meu coração disparou agora. — Está bem. Depois eu falo com ela. Obrigado.

Desliguei antes que a Lorraine perguntasse qualquer coisa. Melhor não dar na vista. Lorraine. Que nome feio.

Foco, meu irmão. Foco! O que será que fiz com a Carla? Porra. Ela deve estar toda ferrada. Pelo tanto de sangue na minha camisa, massacrei a cara dela. Ela está no hospital, sem dúvidas. Ou na delegacia. Será?

Preciso saber. Tenho que ajudar, pagar o conserto do nariz. Sei lá. Fazer alguma coisa pra essa mulher não me denunciar. Se o dono da empresa souber disso, perco o emprego. Se é que ele já não está sabendo.

Regra número 3 (essa é pra quando você fez merda e não se lembra): Saiba quanto tempo você tem até que sua vida se torne um inferno.



Décimo segundo andar. Vim no elevador pensando no que eu falaria. No saguão, três mesas para três secretárias lindas. Velho pilantra. Mas hoje, só uma delas está aqui. Como Deus é bom. Invente uma história convincente. Agora!

— Bom dia. Nossa! Está sozinha hoje? Que beleza!

Ela está me olhando como se soubesse que não sei seu nome. Vou tentar de novo.

— Eu precisava saber se o Dr. Roberto já chegou. Ele ficou de assinar minha renovação.

— Isso tem que ser visto com o RH, né?

— Não. Eu sei. — Pensa, idiota. — É só pra saber se ele vai ter tempo hoje. Pra não ficar enchendo o saco do pessoal.

— Acho difícil. Ele vai ficar fora o dia todo.

O dia todo. Isso é bom, mas não é seguro. Se eu ficar olhando pra ela, talvez ela dê a informação completa.

Nada. A menina é um robô.

— É. Feriadão… O chefe foge pra praia e a gente fica aqui se lascando, né?

— Ele não foi pra praia. — Bingo! Peguei ela! — Tem uma reunião com o Prefeito e o Secretário Municipal da Saúde. Coisa grande, pra garantir o nosso emprego. Por isso vai demorar.

— Nossa. Que importante. Beleza, então. Amanhã eu vejo isso de novo. Posso te ligar?

Meu Deus, cara. Vai embora. Isso não é hora de flertar. Nem lugar. Nem a pessoa. Olha só a cara dela, a boca amassada.



Já sei que tenho até o final do dia pra resolver tudo. Agora preciso achar a Carla. O provável é que ela já esteja em casa. Só tem um lugar pra conseguir o endereço dela: no RH.

O departamento de Recursos Humanos fica no nono andar. Vou falar com o Sandro. Parceiro meu desde a infância. Jogamos bola na rua, empinamos pipa. Trabalhava no Lojão das Roupas quando surgiu a vaga aqui. Eu que indiquei. Ele me deve essa. Talvez seja o único em quem posso confiar no momento. Mas nem tanto.

Regra número 4: Não confie em ninguém. Qualquer um pode te colocar lembranças falsas, te acusar do que quiser e você não vai poder se defender.

— E aí, Sandro? Por que você não foi na festa ontem?

— Do que você tá falando? Eu fui. A gente até trocou ideia.

Porra. Quebrei a regra 4.

— Ah, cara. Eu nem lembro direito. Tava com sono. E depois de um copo de uísque, já queria ir pra minha cama.

— Eu tô ligado.

Foi por pouco.

— Mas, aí… — Vou mais perto dele pra falar mais baixo. Ninguém precisa ouvir. — Queria um favor seu.

— Opa. Fala aí, irmão.

— Preciso do endereço da Carla, da expedição. Sabe quem é?

— Sei. Mas não sei se posso fazer isso. Pra que você quer?

— Qual é, Sandro? Tá me estranhando? Esqueceu de quem foi que te colocou aqui? Se liga! Não vou fazer nada de ruim. Só quero ver se tá tudo bem. Ela não veio hoje e tô com um pressentimento.

— Um pressentimento? Sei. Tá bom. Vou ver o que consigo.

— Consiga, cara. É importante. Me manda por torpedo.



Voltei pra minha mesa. Não tem mais nada que eu possa fazer a não ser esperar. Já é quase onze horas da manhã e eu ainda não faço ideia do tamanho do problema em que me meti.

Não consigo trabalhar. Na verdade, estou cagando pro meu serviço. Se eu continuar empregado, amanhã resolvo. Se não, poupo meu esforço. Não é como se alguém fosse morrer por minha causa.

Chegou a mensagem do Sandro. Meio-dia e doze. O filho da mãe conseguiu. Esperou o RH esvaziar pro almoço e puxou a ficha dela no computador. Maravilha. Vou aproveitar também que não tem muita gente no meu andar e vazar.



A Carla da expedição mora em um prédio. Bairro bacana. Quem diria? Deve viver com os pais ainda. Ela é nova. Estou aqui dentro do carro, sem coragem pra sair. Respira fundo, cara. É melhor encarar logo e resolver tudo.

Segundo o porteiro, não tem ninguém no apartamento. Quase me mijei quando ele falou, não sei se de alívio ou de tensão. Foi confuso.

Olhando daqui, a traseira do carro parece baixa. Vou ter que mandar arrumar. Mais dinheiro que não tenho. Não sei por que me abaixei pra conferir a suspensão. Não entendo merda nenhuma de mecânica. Mas é normal, né? Quando a gente acha que tem alguma coisa ruim, a gente quer olhar.

Tem um par de pernas lindas vindo do outro lado da rua. Eu conheço aquelas pernas. Melhor correr pra alcançá-la.

— Carla! — Por favor, se lembre de mim.

— Fernando? O que você tá fazendo aqui? — Ela se lembra!

— Você não apareceu hoje. Fiquei preocupado.

— É minha folga.

— Ah. — Puta que me pariu. Que mico. Onde enfio a cara agora?

— Mas obrigada pela preocupação. — Ela não sabe o que fazer, também. — Quer tomar um café?

Isso! Quem sabe ela não me conta que tipo de loucura a gente fez ontem?



Eu já estava ficando de saco cheio de elevadores. Meu mundo desabando e essas merdas fazem tudo no tempo delas. Sei que um elevador não vai mudar a velocidade por minha causa, mas isso não me impede de ficar irritado.

No apartamento, o sofá dela é aconchegante. Dá vontade de dormir. Carla vem trazendo o café. Preciso fazer ela falar.

— Ontem foi loucura, né?

— É. A gente bebeu bastante.

— Faz tempo que não fico assim tão mal bebendo.

— A gente não deveria ter misturado. Mas era festa, né? Nem imagino como você foi trabalhar hoje!

— Misturado o quê?

— Bebida e… Você sabe… — Ela está passando o dedo no nariz.

Porra, cheirei coca com ela. Por isso fiquei tão doido.

— Ah, mas foi bom. Não foi? — Só me diga o que eu fiz, moça.

— Foi. Coitado do pessoal da limpeza, né? — Isso! Fale mais, Carla! — Você sujou todo o chão do banheiro.

Estou rindo com ela, mas não me lembro.

— Como assim?

— Ué… Depois que a gente transou… Você sabe… — Ela está chacoalhando a mão e termina como se jogasse um dado.

Porra. Não sabia que a chata da Carla era mímica. Pelo menos estou conseguindo me recordar de alguns flashes. É, nós transamos. Ela finalmente calou a boca e nós transamos no banheiro da empresa. E foi gostoso.

— Sim, eu sei. Mas é melhor fingir que isso Também chacoalho minha mão. — não aconteceu. E por que você não acordou comigo hoje?

— Ah, foi só uma loucura de fim de ano. E você sumiu depois. Ficou de conversa com o Souza.

— Eu sinto muito. O Souza, diretor de finanças?

— Tá tranquilo. Eu já sou bem grandinha. É, ele mesmo.

Tchau, Carla. Obrigado pelo café e desculpe stalkear você. Preciso correr. Meu horário de almoço já estourou faz tempo.



Se eu agredi o diretor de finanças, minha carreira acabou. E não só nessa empresa. Vou ter que virar camelô, vender meu corpo, sei lá.

Vou só ver como as coisas estão no meu andar. Tudo tranquilo. Vou mostrar minha cara pro gerente e dar a desculpa de que preciso pegar uma máquina de volta no almoxarifado. Sempre funciona.

Décimo andar, Setor de Finanças. Vou passando por todo o saguão e as pessoas estão me olhando. Estão? Talvez. Bando de hipócritas.

O que foi que eu fiz ontem, meu Deus?

O secretário do diretor me pergunta se pode me ajudar. Não, amigo. Não pode.

— O Souza tá aí?

— O Sr. Souza está, sim. Quem gostaria?

— Diz pra ele que eu preciso conversar sobre um pagamento que voltou. Meu nome é Fernando…

A porta dele está abrindo. O Souza não fez uma cara muito boa quando viu a minha.

— Você por aqui?

— Souza, eu precisava falar sobre um probleminha que aconteceu ontem.

Um suspiro de resposta. Isso é bom ou ruim?

— Venha. Entre.



A sala do Souza é bem humilde pra um diretor. Nada muito chique. Só uma mesa, com duas cadeiras na frente e um computador já meio antigo.

Nem vou dar tempo pra ele me xingar.

— Olha, Souza… Me desculpa, cara. Eu não sei o que me deu ontem. Eu não tava num bom dia. O que quer que eu tenha feito, faço o que for preciso pra me redimir. Trabalho pra você de graça! O que acha? Pode falar!

É. Eu quebrei umas três regras nessa fala. Mas agora já foi. Não é incrível como a gente mesmo não faz aquilo que prega?

— Você não precisa se desculpar. É melhor a gente só esquecer o que aconteceu.

— Mas você tá bem? Machucou muito?

— Eu? Eu não me machuquei.

— Eu não agredi você?

— Claro que não. Você não faz a menor ideia do que aconteceu ontem, não é?

Vou jogar tudo pro alto e me abrir com ele. Não me lembro mesmo e meu plano inicial não está funcionando.

Regra número 5: Se nada der certo, chore feito uma menininha.

— Ei! Calma. — Deu certo. Ele se compadeceu. — Quem nunca bebeu demais, deu vexame e teve uma amnésia alcoólica na vida que atire a primeira pedra!

Teu passado te condena, né cachorro? Mas eu dei vexame como? Acho que ele entendeu meu olhar.

— Eu estava conversando com os outros diretores, o Ribeiro, a Anete e o Borges, e com o Dr. Roberto sobre como esse ano vai ser difícil, como melhorar nossas margens. Então você chegou, falando alto.

Minha Santa Mãe!

— É. Mas eu não tiro sua razão. Você se irritou porque eles estavam fazendo piada com os cortes na empresa.

Verdade. Agora me lembro. Todo mundo da festa olhando. Jesus!

— Ficou particularmente bravo quando mencionaram o nome da Carla. E do Sandro. Foi aí que começou a gritar.

Meu Deus. Bati na diretoria toda?

— Mas fique tranquilo. Eu logo afastei você de lá.

— E o que foi que eu fiz?

— A gente conversou, você disse que estava louco, cansado, que estava cheirado…

Por que, Cristo Redentor, você falou uma coisa dessas pro diretor de finanças, seu imbecil?

— … aí eu te convenci de que coca não era bom pra relaxar. E saímos.

— Saímos pra onde?

— Pra fumar. Lembra? Uma pedrinha.

— Pedrinha?

— É. Pedra. Crack.

Puta merda! Então foi essa porra que ferrou com a minha cabeça!

— Eu sei o que pedra quer dizer, Souza. Mas de onde saiu essa merda?

— Era minha, oras. Nós demos uns tragos, relaxamos. Depois você disse que ia falar com o Dr. Roberto e saiu.

E eu fui mesmo. Cacete. Eu fui falar com o dono da empresa muito louco de cachaça, pó e pedra… Meu Deus!

O telefone está tocando. Ele atende e faz uma cara séria. Melhor eu ir. Obrigado, Souza. O olhar dele enquanto eu fecho a porta está estranho. Ele está desconfiando de algo. Eu também desconfio.



Estou começando a me lembrar. Preciso descer. A escada de incêndio é mais rápida. Minhas pernas estão tremendo. Meu coração vai pular pela boca. Ou parar. Deus do céu. Quero chorar. Quero sentar e chorar. Não me abandona, Pai. O que foi que eu fiz?

Eu desci essas escadas ontem. Estou me vendo. E cheguei no estacionamento. Neste mesmo estacionamento. O carro do chefe estava lá. Ele estava abrindo a porta. Fui falar com ele.

— O que você quer? — Ele disse já quando me viu. — Não bastou o show que deu lá em cima?

— Você não pode demitir eles! — Falei.

— Vá se danar. A empresa é minha. Demito quem eu preciso. O que você acha que mantém o seu emprego? Meu lucro, rapaz. Então, contente-se.

— Não. Você não pode. Eles são boas pessoas.

Sim. Segurei a porta do carro pra ele não a abrir. O Dr. Roberto forçou. Nós disputamos, como dois moleques.

— Chega! — Ele gritou. — Agora você me irritou de verdade. Quer saber de uma coisa? Você também vai pro olho da rua. Vá se danar! Você está demitido!

Me lembro perfeitamente dele falando essa palavra.

— …DEMITIDO!

Dr. Roberto se virou para entrar no carro. Soquei a cabeça dele. Bati contra a porta. No chão, coloquei minhas mãos em seu pescoço e apertei até que ele parasse de respirar. Nossos empregos estavam salvos.

Meu Deus. O que eu fiz?

Está ficando mais claro. Me lembro de jogar meu chefe no banco de trás. O chefe, o carro, as chaves no bolso. Bati a porta e entrei. Pra onde eu fui? Segui com o carro do Dr. Roberto pra fora da garagem.

Casa. Preciso ir pra casa. Meu carro está aqui perto.

Vamos carrinho, não vacile. Suba a rampa! Uma viatura da polícia está encostando na frente do prédio. Eles já sabem que o Dr. Roberto sumiu. Com certeza é isso.

Outra viatura vindo. Preciso correr. Deus queira que ainda dê tempo de consertar essa merda toda.



O carro do Dr. Roberto ainda está parado na frente de casa. Ninguém o roubou. Nem pro azar eu dou sorte. Tenho que manobrar pra entrar na garagem.

Outro flash. Não havia uma janela acesa quando arrastei meu chefe pra dentro. Não tem marcas de sangue na calçada. De onde veio o sangue da minha camisa? Espero que o Dr. Roberto esteja bem.

Entrei na sala ontem. Vim pela porta da frente. Sim. Consigo ver como um filme. Eu o arrastei pelo corredor. O tapete foi junto. Mas nada de sangue ainda. Esteja vivo, Dr. Roberto. Por favor.

Banheiro. Tenho certeza que o levei para o banheiro. Mas ele não estava lá hoje de manhã. Dei uma ducha de água fria nele e ele acordou? Saiu correndo e está internado no hospital? Tomara. Mas a essa hora já teria falado com a polícia. Estou com medo de abrir a porta.

Está uma bagunça, mesmo. Por um momento, rezei pra que a lembrança da manhã fosse uma imaginação minha. Não era. O que eu fiz? Pensa, criatura.

O corpo estava caído no chão. Eu me virei e saí. Fui até a área de serviço. Caixa de ferramentas. Caixa de ferramentas? Não. Por quê?

O box. A cortina quebrou quando o joguei no box. Deus me proteja.

Que merda eu fiz aqui? Tem sangue respingado pra todo lado!

Só me lembro de limpar, o rio vermelho para o ralo. O cheiro de água sanitária. Foi um serviço porco. Ainda está tudo sujo e o cheiro de ferrugem é forte. Sinto náuseas. Minha serra está no meio de uma poça de água sanitária.

Não. Não fiz isso. Eu me recordo dessas coisas, mas não era eu. Não participei disso. O que é isso, aliás? Claro que se chegar algum policial aqui vai pensar tudo errado. Qualquer um pensaria. Mas eu me conheço. Não aconteceu nada de mais.

Por favor, Deus, me diga que não aconteceu nada de mais.

Carreguei dois sacos de lixo pra garagem. Um, depois o outro. Eu nem tenho tanto lixo assim. Não posso acreditar.

Meu carro não estava fraco, nem lento. Nem com problemas na suspensão. Estava com noventa e tantos quilos no porta-malas. Por isso não andava.

Vou abrir a porta. Os sacos estão lá. Não posso olhar. É frio como mármore. Um nariz, olhos.

Preciso vomitar.

Já ouço sirenes.

Eu queria mesmo era ter ido pra Ko Phi Phi. Teria sido ótimo. Areia branca, mar azul. Coque e bermudão. Ver os fogos do outro lado do mundo. Largar tudo, amigos, filhos, chefe, contas.

Mas eu tinha que pagar pensão. Eu tinha que trabalhar. Meu contrato não quer saber se é feriado, o último dia do ano ou o último dia da minha vida.

Pelo jeito, vai ser um ano complicado.

Conto finalista do concurso #My2018 da plataforma Sweek.