Combustível

Combustível

Combustível

Olga levava a xícara à boca, quando um barulho a interrompeu.

A fumaça do café bailava no ar como um fantasma, aquecendo-a as bochechas, enquanto ela pousava a xícara sobre a escrivaninha e lançava um olhar furtivo em direção à porta do quarto.

Para seu alívio, nenhuma sombra se contorceu pelas frestas e a maçaneta não girou. Certamente se tratava de uma daquelas inexplicáveis e banais pancadas da madrugada, cuja finalidade é somente desconcentrar os escritores e, para as quais, ela não tinha tempo. Afinal, precisava terminar seu romance. Desta vez, seria um best-seller.

E para que isso acontecesse suas veias precisavam de combustível: cafeína.

Por isso, Olga enganchou o dedo no aro novamente, elevando a xícara da superfície. Mas, antes que a porcelana lhe tocasse os lábios, o barulho ressoou - rouco como um soco, abafado pelas paredes do cômodo, obrigando-a devolver a bebida de volta à mesa.

Ela se levantou, derrubando a cadeira, as bochechas ardendo, e disparou para fora do recinto feito um raio. Logo resolveria o que a importunava e, ao voltar, tomaria seu café.  

O café nunca foi tomado.