Tudo aquilo que não transborda

Tudo aquilo que não transborda

Tudo aquilo que não transborda

Tudo aquilo que não transborda não vale à pena ser vivido. Foi um ensinamento que aprendi com meu pai, quando derramamos café na pia toda ao fazermos nossa bebida favorita juntos pela primeira vez. Era poeta: sempre extraindo beleza das coisas mais banais e preenchendo a vida com dizeres simples, mas cheios de significado. Aquele, entretanto, era o que mais me impactava. Talvez porque eu sentia que meu pai transbordava em tudo que fazia e eu não conseguia enxergar o mundo com os mesmos olhos.

O tempo passou: me formei, me mudei, trabalhei, casei, viajei, fiz amigos, fiz besteiras, ri e chorei. Vivi, mas sempre com uma angústia arranhando meu peito, me perguntando: eu transbordo?

Sempre que pude, visitei meu pai. Em uma dessas visitas, meu velho disse “Ei, que tal fazermos aquele bom e velho café? ”. Começamos, mas estava chovendo e fui fechar as janelas. Ouvia-o recitar um de seus poemas, quando o silêncio se fez presente. Meu coração se acelerou, corri para a cozinha. As lágrimas escalavam até meus olhos quando o encontrei no chão, inconsciente. A garrafa caída ria de minhas lembranças. Segurei suas mãos e naquele momento não me contive: transbordei.