Terça-feira

Terça-feira

Terça-feira

O chá de cadeira foi duvidosamente compensado com três xícaras de café requentado, desses que persistem no hálito matinal. Só não foi pior do que o diagnóstico:

— O radiador está condenado — cravou, limpando as mãos em uma estopa ainda mais suja. — E não posso deixar você sair com os pneus assim — emendou o impiedoso golpe.

— Eu só queria trocar o óleo — rebateu, já em rendição.

De lá, seguiu para a agência bancária com o carro renovado, embora soasse o mesmo. Após duas xícaras de café descobriu que não atendia aos requisitos para o empréstimo e, quando saiu, deparou-se com um cavalete de trânsito onde estava seu carro. Sinalização que não leu, infração que não viu, carro que se foi.

Quando chega ao trabalho, enfim, encontra tempo apenas para deixar sua xícara fumegante de lado. Fosse um minuto depois, evitaria o tipo de cliente que elege atendentes como a raiz dos seus problemas. Um sorriso amarelado de cafeína se desenha, nos lábios, que evolui para um longo e silencioso suspiro. A brisa resvala no cafezinho à mesa, que já não fumega mais, enquanto seu âmago arde em frustração e pela azia que lhe faria companhia o resto do dia.