LÁ NO FUNDO

LÁ NO FUNDO #OrgulhoDeSer

LÁ NO FUNDO


I

Linfoma não Hodgkin é um nome complicado para uma doença. Algo ruim não precisa de nome bonito para anunciar que vai te deixar mal. Chegou silenciosamente, como uma serpente, rastejando e deu o bote certeiro no meu sistema linfático. Os enjoos, a fadiga, a suadeira intensa são alguns dos sintomas que essa porcaria de doença vinha me causando.

Tentou me afastar das piscinas, mas não conseguiu. Tentou me afastar das trilhas que gosto de fazer nas montanhas e também não conseguiu. Apesar de todo incomodo, eu ainda sou forte. Os médicos afirmaram que eu irei me curar, já que foi descoberto logo no início. Segundo os especialistas, eu estou na parte boa das estatísticas com chances de cura. Outro fator que me ajudou a superar esse fato, foi o meu sistema imunológico forte, e muita, mas muita vontade de viver.

Não era de se estranhar que um garoto de dezoito anos como eu quisesse viver por mais tempo. Estou no começo da vida. Ainda nem escolhi uma carreira. E por falar nisso, uma profissão que não me coloque confinado em um bloco quadrado de concreto não é vista com bons olhos pelos meus pais. Contudo, depois da descoberta da minha doença, eles ficaram mais, digamos... maleáveis a respeito do que eu quero fazer da vida. Pelo menos deram um tempo com a pressão da escolha de uma carreira estável. 

Se existe uma coisa que não gosto, é de magoar as pessoas. Decepção e mágoa são sentimentos que não estão no meu vocabulário. E quando descobri que estava doente, senti que decepcionei muita gente além dos meus pais. Uma dessas pessoas foi o Arthur, meu namorado. Ele é doze anos mais velho do que eu, é engenheiro industrial e tem um físico atlético. Uma beleza de homem! Vende saúde, beleza e simpatia por onde passa. A maior decepção que pude causar, foi para ele. Senti meu peito apertar ao ponto de não conseguir mais puxar o ar para dentro dos pulmões; foi como me senti ao ver os olhos de Arthur quando contei que estava com um câncer. Ele chorava silenciosamente a noite enquanto dormíamos juntos. Eu ouvia os ruídos do seu choro.

Diante de mim, Arthur era inabalável, carinhoso, atencioso. Porém, quando as luzes se apagavam e as cortinas se fechavam, sobrando só o silêncio do seu quarto e o calor da sua cama, ele chorava capciosamente achando que iria me perder. Quando eu escutava seu choro, eu me sentia um lixo, impotente. Eu nunca quis isso, ninguém quer ficar doente. Então era como se a culpa fosse minha por aquela situação. Era como se eu não tivesse sido forte o bastante e acabara por um descuido pegando essa doença. Esse pensamento me fez tomar uma atitude egoísta, o que me leva ao dia que Arthur provou mais uma vez que me ama de qualquer jeito.

 

II

Era manhã de verão de um sábado e estava quente. Um dia antes, eu havia começado o tratamento quimioterápico para combater o câncer. Eu estava sentado em uma das espreguiçadeiras na frente da piscina da casa dos meus pais. Havia um guarda-sol colorido com as cores do arco-íris que eu tinha comprado só para mim. Eu gostava daquele guarda-sol. Representava o orgulho gay. Já que é para ser gay, vamos colocar um pouco de cor nisso tudo. E ainda para completar, eu saquei o celular e liguei o play na música Adagio, na versão da Lara Fabian. Sempre gostei daquela música e da cantora também. Sou dramático, eu sei disso.

Usando uma bermuda branca com listras verdes, eu passei protetor solar nos meus braços, barriga e peito. Eu nunca fui peludo, diferente do meu pai e do meu namorado Arthur, que são dois ursos. Eu sou liso, mas tenho uma cabeleira preta e brilhante na cabeça. Fazia até topete. Mas, isso não vem ao caso. Depois que passei protetor solar, na tentativa de aproveitar uma manhã de verão, havia algo que me incomodava. Era a sensação de impotência e o fato de ter deixado as pessoas que amo tristes e decepcionadas.

Eu ouvia minha mãe dizer:

— Sai do quarto, Jefferson, você precisa respirar um pouco de ar puro. Vá para piscina, você gosta tanto de nadar.

A questão é que minha mãe não gostava que eu ficasse muito tempo na piscina como eu gostava, mas um dos “benefícios” da doença era esse: ter alguém sempre te encorajando a fazer algo que gosta para aliviar a pressão. Depois de tanto que ela falou eu decidi ir até a piscina, e lá eu estava. Cansado, com um pouco de enjoo por conta da quimio, mas estava lá, atendendo ao pedido da minha mãe.

Olhei para a piscina, joguei o pote de protetor de lado e andei a borda da piscina. Observei meu reflexo na água clara e azulada. Enxerguei o fundo com os azulejos azuis e rejunte branco. Agachei-me, toquei a água, respirei fundo e mergulhei. Senti meu corpo relaxar. A sensação era tão boa, maravilhosa e enervante, que eu não queria sair dali. Eu nadei até o fundo, onde toquei um dos azulejos. Foi então que um pensamento estúpido me passou pela cabeça.

Eu tinha dezoito anos, uma vida a ser vivida, uma casa boa, um carro só meu, um namorado, pais que me davam tudo que eu queria, mas eu sentia que tinha falhado com todos eles e não merecia aquilo. A partir de agora eu seria um estorvo, uma pedra no sapato, um atraso na vida deles. Eu permaneci ali no fundo da piscina enquanto minha mente girava e girava com pensamentos de culpa. Eu havia chegado ao fundo do poço e não poderia permitir que as pessoas que amo fossem arrastadas comigo. Minha vontade era nunca mais sair do fundo da piscina.

Com os anos de experiência na natação, adquiridos desde os onze de idade, eu conseguia controlar minha respiração por muito tempo debaixo d’água. Mas devido aos enjoos e o cansaço que a quimioterapia me causou, eu comecei a sentir a pressão da água na minha cabeça. Senti meus pulmões falharem, meus olhos escureceram e a consciência foi se esvaindo como fumaça entre os dedos... no caso, como fumaça na minha cabeça.

Eu apaguei.

Recobrei a consciência quando estava deitado na beira da piscina e diante dos meus olhos havia um peitoral peludo que subia e descia devido à respiração pesada. Um perfume forte e amadeirado invadiu minhas narinas e me ajudou a despertar. Aquele perfume e aquele peitoral eu reconheceria a metros de distância. Era Arthur. Seu olhar era de preocupação. A boca tremia e estava retorcida em desaprovação. Ele segurou meu rosto entre as mãos assim que abri os olhos. Ele se aproximou, encostou sua testa na minha e fechou os olhos. Ele estava encharcado. Com certeza havia mergulhado para em tirar dentro da piscina.

— Por Deus, Jefferson! O que achou que estava fazendo? — sussurrou, roucamente.

— Eu... — Tossi um pouco. — Eu acho que perdi a consciência... eu... — Comecei a chorar.

— Você começou seu tratamento ontem. Não era para cair na piscina como se estivesse cem por cento.

— Eu sei, eu sei... Eu sou um problema para vocês. Era melhor ter me deixado boiando lá. — Apontei para a piscina.

Ele afastou o rosto, nossos narizes ficando a poucos centímetros de distância um do outro. Ele ainda segurava meu rosto entre as mãos. Eu encarei seus olhos castanhos, que estavam banhados por uma vermelhidão provocada por um choro contido e também pelo cloro da piscina. Ele me fitava firmemente.

— Nunca mais repita isso. — Apertou minhas bochechas. — Você é a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Não haverá doença no mundo que mudará isso. Nós passaremos por isso juntos. Eu já te falei, Jeff, estou com você até o último momento e você vai se curar. Suas chances são grandes e animadoras como os médicos disseram. Então, meu pequeno, não se entregue assim. Se precisar ser forte, eu te darei minha força, mas nunca desista.

Ele aproximou seus lábios molhados e me beijou suavemente, porém com paixão e carinho. Eu respirei fundo, fechei os olhos, recebi o beijo e retribuí com o mesmo carinho.

— Obrigado — sussurrei, em meio ao beijo.

— Eu te amo, garoto. Não importa o que aconteça, eu te amo — sussurrou de volta.

Aquele dia foi especial para mim. Eu havia recebido mais uma declaração de amor e apoio do homem que eu amava. Da pessoa que prometeu ficar ao meu lado em todas as sessões de quimioterapia. E foi o que aconteceu. Arthur, desde o primeiro dia, vem comigo a todas as sessões, senta ao meu lado segurando minha mão e contando histórias — diversas histórias —, qualquer uma só para me manter entretido e esquecer um pouco o martírio que é esse tratamento. A força do Arthur estava ali, em botar para fora toda angustia durante a noite, sozinho no seu quarto, mas quando se levantava para um novo dia, seu sorriso era brilhante e motivador. Foi essa força que eu peguei dele para mim e que me ajudou muito.

 

III

Passados alguns meses desde que comecei meu tratamento, meu organismo tem respondido bem a tudo. As chances de cura estão cada vez maiores. As coisas com meus pais estão mais brandas. Eu decidi que, quando todo tratamento terminasse, iria cursar biologia marinha só para ficar mais perto da água. Papai, no início, torceu a boca em desaprovação. Ele queria que seu único filho seguisse seus passos na empresa da família. Discutimos algumas vezes — discussões sem fim —, até que decidi o que queria fazer da vida. Ele agora aceitou minha decisão na carreira que escolhi e dará todo apoio. Nesse caso, a empresa passará para meu primo mais velho, que é filho do irmão e sócio do meu pai. No final, tudo ficou em família.

Olhei-me no espelho, percebi que minha pele estava como era antes do tratamento. Estava mais corada e hidratada. Se bem que, hidratante foi o que não faltou. Minha mãe comprou quase o estoque inteiro de uma farmácia. Como toda boa mãe, ele se preocupava até com a temperatura da água que eu bebia, tudo para não pegar uma gripe. Ela fazia o melhor que podia.

Esfreguei os olhos, ajeitei o cabelo, que agora estão curtos — bem curtos, meus cabelos caíram pouco, ainda tem uma boa juba —, nada como antes, mas ainda tenho um charme. Vesti uma camisa de mangas curtas com um arco-íris estampado na frente. Fiquei na dúvida entre calça ou bermuda.

Rapidamente, peguei o celular e liguei para Arthur.

— Responda rápido: calça jeans azul ou bermuda branca? — Franzi a testa.

— Para ir à parada gay? Tanto faz, você fica lindo com qualquer uma.

— Affe! — bufei, e me sentei na cama em frente ao espelho. — Era para você ser o namorado que me ajuda nas escolhas. — Encolhi os ombros.

— Jeff, estamos indo à parada gay. Tente vestir algo confortável, ok? — Soltou uma risadinha ao telefone. — E sim, repito, você fica lindo com ambas as peças de roupa, meu garoto.

— Mudando de assunto. — Respirei fundo. — Mamãe ainda não está bem com minha saída. Ele acha que estarei muito exposto no meio daquela multidão.

— E ela está certa, meu amor. Você está em tratamento quimioterápico e precisa ficar longe de multidões. Para não correr o risco de pegar um vírus, ou sei lá. Por isso vamos ficar na varanda do apartamento de um amigo meu. Bem longe da multidão e com uma vista ótima para o evento. Gostou?

— Ei! Você não me disse que iria me empoleirar em uma varanda. Isso é tão burguês. Eu gosto de estar no meio da multidão, com todo aquele calor humano em volta. — Revirei os olhos e deitei na cama, com o celular na orelha.

— Esse calor humano não vai fazer bem ao seu sistema imunológico, rapazinho. E não há nada de burguês em eu querer cuidar e proteger a saúde do meu namorado.

— Você me colocaria numa bolha se fosse preciso — resmunguei.

— Para ver você com a saúde perfeita? Com certeza colocaria.

— Tchau, mamãe — debochei.

— Beijos, meu lindinho. Te amo. — Deu uma risadinha e desligou.

Fiquei olhando para o celular, para a proteção de tela que era uma foto nossa. Estava beijando o rosto barbudo de Arthur enquanto ele tirava aquela foto. Lembrei do momento exato daquela foto. Naquele dia, estávamos no parque andando de bicicleta, quando paramos na frente de uma fonte para apreciar a paisagem e então tiramos a foto. Foi chocante para alguns dos transeuntes. Eu percebi os olhares atravessados para nós dois. Em um momento, uma mulher tapou a visão de duas crianças, para que elas não pudessem ver uma simples demonstração de carinho que foi nosso beijo. Detalhe importante: as crianças nem estavam prestando atenção em nós. Os moleques estavam brincando com carrinhos na areia.

Apesar de todo esse preconceito, eu nunca tive tanto orgulho de ser o que sou como tenho agora. As pessoas mais valiosas e mais relevantes para mim, que são os meus pais, me apoiam, então não preciso do aval de mais ninguém para ser quem sou. Eu tenho tanto orgulho de ser gay, que mesmo em tratamento, estou indo participar da parada gay, ou passeata do orgulho gay, como diz minha mãe. Ou parada do orgulho LGBT+, como dizem os organizadores do evento. Não importa o nome, o importante é o intuito do evento: levar amor e alegria e trazer respeito para as diferenças.

Levantei-me da cama, peguei a bermuda branca e vesti. Calcei os sapatos e me olhei no espelho. Eu estava pronto para minha primeira parada gay da vida. Eu estava feliz, contente e cheio de energia para apreciar o evento ao lado do meu namorado. Desci as escadas, saindo do meu quarto, e fui para a sala esperar o Arthur. Tamborilei os dedos no meu joelho com ansiedade. Meu pai entrou na sala, me olhou de lado e sentou no sofá à minha frente.

— Você sabe que não precisa ir para um evento como este para mostrar o seu orgulho em ser o que é. — Meneou a cabeça.

— Eu sei que não preciso, mas eu quero. É como se fosse um reset na minha vida, sabe?

Ele balançou a cabeça, concordando.

— Jefferson Bragança, meu filho... — Respirou fundo.

Quando ele falava meu nome e sobrenome, eu sabia que vinha discurso por aí, mas estava muito ansioso para discutir.

— Você me enche de orgulho, rapaz. Eu tenho muito orgulho em ser seu pai. Nunca esqueça disso.

Aquelas palavras bateram forte dentro de mim. Eu encarei meu pai e nunca tinha visto ele tão vulnerável. Eu me aproximei dele e o abracei com força. Ele envolveu seus braços ao meu redor e me senti protegido. Eu sabia que, mesmo com todas as adversidades, eu tinha os braços da minha família para me apoiar. Levantei meus olhos e encarei meu velho. Sorri e me afastei dele, segurando seus ombros.

— Obrigado por tudo, pai. — Enxuguei uma lágrima que escorreu.

— Não por isso, garoto. Vá para seu passeio e divirta-se. — Apontou o indicador em riste. — E tome cuidado, hein, rapazinho. Já falei com o Arthur mais cedo para ele ficar de olho em você. Não quero que passe mal e deixe sua mãe nervosa. — Ele saiu da sala, falando e revirando os olhos. — Sua mãe alugou meus ouvidos ontem durante toda a noite para reclamar disso.

Eu sorri para meu pai, que se afastava, deixando meu coração cheio de esperança, amor e fé. Eu tinha fé que as pessoas aceitariam as diferenças, assim como meu pai aceitou minha orientação sexual. Isso seria um sonho. Lá no fundo, bem no fundo da minha alma, eu tinha muita fé. Fé que seria curado completamente do câncer e fé que as pessoas seriam curadas do preconceito. Não importa o fundo do poço que estejamos vivendo, a fé sempre faz o serviço de nos resgatar de lá.

 

FIM.