O bicho #MicroCarta

O bicho

O bicho #MicroCarta


Sentou-se à mesa, pálida. A carta tremia em sua mão. Era coisa pequena e parda, sem envelope nem selo ou nome ou endereço, mas ela sabia de onde vinha, e de quem. Ele, covarde, apertara a campainha e desaparecera, depositando o papel dobrado na caixa. Devia saber que meio-dia era hora de Cristina estar sozinha em casa.


Por quanto tempo vinha sendo observada? Evitara telefonemas, bloqueara mensagens e encaminhara os e-mails direto para caixa de spam. Por um momento, achou que tivesse dado resultado. E, agora, aquela carta. Que relação estranha tinha sido... e em dois anos, nem ao menos conhecera a letra dele.


Deixou a carta deslizar dos dedos sobre a mesa; ela ficou ali, ameaçando se abrir e confirmar anseios. Emoções desaguaram sobre ela e pouca razão lhe restou para cogitar que a carta não viesse dele, afinal. Podia ser a vizinha ou até mesmo um de seus alunos que passavam por ali.


De repente, a carta era um bicho abrindo a bocarra. Vendo aquilo, Cristina sentiu sua vista turvar. Por favor, não. Queria ler, mas não queria. Não faça isso comigo. Dizia para a carta ou para ele? Já não sabia. Bateu a mão sobre o papel como quem prende uma serpente; segurou-a como quem evita a picada letal. Foi até o fogão, acendeu um fogo e fez o bicho desaparecer. Ela não ousou abrir a carta.


Mais tarde, sua mãe perguntou, junto à máquina de costura: “Filha, Dona Mariquinha trouxe as medidas que prometeu?".