Capítulo 3: Nomes e outras fofoquinhas mais

Reações Químicas

Capítulo 3: Nomes e outras fofoquinhas mais

                  A semana foi se passando e eu fiz o que pude para evitar encontrar Vicente ou ouvir as fofocas que ainda corriam pelos corredores. Os meninos do colégio estavam polarizados em dois grupos: aqueles que o admiravam e queriam ser como ele e aqueles que o odiavam, por ter roubado todo o foco feminino do EA. E era verdade. Parecia que todas as meninas queriam ficar com ele, sussurrando especulações pelos cantos e encarando longamente quando ele aparecia em algum lugar.

                Os momentos mais difíceis foram na aula de Química. Apesar de Karen ter voltado para as aulas e retornado ao seu posto como minha dupla, parecia que Vicente acabava sempre sentando por perto e dando pequenos sorrisos, o que era desconcertante a ponto de eu precisar de vários minutos para conseguir retomar o foco e prestar atenção na aula.

                Quando as aulas finalmente acabavam e eu podia me trancar no laboratório, sempre acabava respirando aliviada. Ele continuava sendo meu recanto de paz e solidão, já que o amor das pessoas por Química não mudou de um semestre para o outro. Nem o meu. E era exatamente isso que me fazia passar tardes inteiras no laboratório, fazendo contas, juntando ácidos e interiorizando sobre o futuro.

                Eu sempre contei os dias para que eu pudesse sair desse lugar, mas, desde a chegada de Vicente, eu vinha contando com ainda mais afinco. Não fazia ideia do que estava acontecendo com meu corpo e suas reações, mas seja lá o que fosse, não poderia ser bom. Especialmente quando o garoto não fazia nada que eu pudesse considerar amoral na minha presença, mas eu ouvia todos aqueles boatos pelos corredores. Parecia improvável que alguém da minha idade já tivesse vivido tanta coisa e tanta coisa errada , mas Karen tinha até me oferecido provas de algumas suposições como, por exemplo, que ele já tinha saído com a Bruna Marquezine (fotos no site da revista Caras), que ele vivia com um cigarro de maconha enrolado entre os lábios (marcações do Instagram) e que se metia mais em brigas do que era humanamente possível (vídeos no Youtube ).

                Eu não pedi nenhuma evidência. Inclusive não pedi porque não estava interessada e não aguentava mais o assunto. As fofocas foram diminuindo com o passar dos dias e quando Vicente completou uma semana como aluno do EA, as pessoas já comentavam muito pouco. Ele já tinha feito um amigo ou outro – muito por causa do seu talento para os esportes, que interessou os times da escola – e vinha mantendo um perfil tão tranquilo que era difícil acreditar que tudo aquilo que Karen levantou e compartilhou comigo era verdade.

                Era segunda-feira de novo e eu estava no laboratório, sentada em uma bancada de costas para a porta. Meus óculos de proteção estavam no meu rosto, assim como minhas luvas protegiam minhas mãos. Eu estava juntando dois reagentes em um balão de destilação para analisar seu comportamento e, como nunca tinha misturado os dois e não sabia como reagiam um ao outro, as coisas poderiam sair um pouco de controle.

                Eu estava prestes a derrubar o primeiro tubo no balão quando ouvi a porta se abrir. Sinceramente, levei um susto tão grande que quase derramei o conteúdo inteiro lá dentro de uma vez só. Ao invés disso, dei um grito e afastei minha mão, horrorizada com o quase caos que poderia ter gerado.

                ― Desculpe ― o invasor disse, seguido por mais um barulho de porta. ― Não tive intenção de te assustar.

                Eu apoiei o tubo na estante para tubo de ensaio, com as mãos trêmulas. Só depois de já ter me assegurado que tudo estava devidamente seguro e guardado, rodei no banco do laboratório para entender que raios estava acontecendo atrás de mim.

                Quase dei outro berro quando vi Vicente, encarando o laboratório com mais um de seus sorrisos, vestindo uma camiseta dos Beatles e uma calça jeans de lavagem escura. Sua mão direita estava no bolso e a esquerda apoiada em seu pescoço, como se ele estivesse constrangido de estar ali ou tentando entender o que era aquele lugar. Demorei um segundo para perceber que sua respiração estava irregular e que ele estava parado em um ponto cego da sala, onde não era possível ser visto pelo lado de fora, da janelinha da porta.

                Ele estava fugindo de algo e se escondendo no meu laboratório, atrapalhando meu experimento e agindo como se fosse o rei da química toda. Eu senti minhas mãos se fecharem em punho e levantei do banco tão irritada que era capaz de expulsá-lo do laboratório a grito. Todavia, imaginei que o professor Road poderia não gostar do meu comportamento, e eu não podia correr o risco de ter a chave do laboratório confiscada e meu único recanto de paz perdido.

                Se bem que, com Vicente lá, não era bem um recanto de paz.

                ― O que você está fazendo aqui? ― Perguntei, soando o mais rude que pude.

                ― Hmm... Não posso conhecer a escola? ― Ele respondeu dando um passo para frente e começando a andar, analisando as bancadas. ― Sou um aluno novo, talvez você saiba. Ainda não conheço muito bem as facilidades que o famoso EA tem para oferecer ao seu corpo discente...

                Eu encarei, estreitando os olhos. Não seria capaz de dizer só de olhar para ele que ele sabia o que era um corpo discente e nem mesmo que sabia estruturar seu pensamento daquela forma, destilando um pouquinho de ironia na minha direção. Eu dei um sorrisinho sarcástico, ainda mais irritada. Quem ele pensava que era? Invadindo meu laboratório e ainda fazendo piada da minha cara? Eu não seria menos dura com ele só porque ele sabia usar termos difíceis ou porque ele tinha me ajudado na primeira aula de Educação Física do semestre. Apesar de não ter feito nada necessariamente ruim para mim, eu continuava odiando o tipo de cara que ele era, representava e reinava.

                ― E resolveu começar a conhecer a escola pelo laboratório de química porque... ― eu gesticulei, incentivando-o a completar a frase com seus motivos.

                Ele estava distraído, quase metendo a mão em uma placa de Petri que estava em cima da bancada, mas parou e olhou na minha direção. Seus olhos eram de uma cor esquisita. Nem completamente marrons, nem completamente verdes. Daquela distância eu não tinha certeza se eles eram marrons com manchas verdes ou o contrário. De qualquer maneira, seu olhar era no mínimo incômodo, independentemente da cor de seus olhos.

                ― Ah, então é isso que esse lugar é ― ele assentiu, olhando em volta com admiração.

                Inacreditável. Sinceramente, não dava para acreditar que esse tipo de gente existia. Ele nem sequer era capaz de identificar o laboratório como de química, mas estava tentando me convencer que entrou casualmente na sala? Me poupe... Todo dia Vicente passando uma vergonha diferente por ser desse jeito...

                  ― De que você estava fugindo? ― Cruzei os braços, irritada.

                  O que ele ainda estava fazendo ali? Será que não conseguia perceber que não era bem-vindo, nem nunca seria? Vicente arregalou os olhos do outro lado do laboratório, aparentemente chocado com minha sagacidade. Eu, de fato, gostava de pensar que a inteligência era minha maior qualidade, mas não era preciso ser muito gênio para se dar conta de que ele estava fugindo de algo quando entrou ali.

                  ― Não sei do que você está falando ― ele virou de costas novamente, voltando a esticar a mão na direção da placa de Petri.

                  ― Não toque em nada! ― eu disse, esticando a mão na direção dele, como se fosse capaz de impedi-lo. Só se fosse com o poder da mente ou se eu fosse a mulher elástica, porque ele estava a uma distância muito maior que meu curto braço. ― Por favor.

Vicente olhou na minha direção novamente, sacudindo os dedos no ar como se estivesse ponderando. Depois de alguns segundos, guardou a mão de volta no bolso da calça e girou nos seus pés, para me encarar novamente.

                  ― O que você está fazendo aqui? ― Ele perguntou, dando um passo na minha direção.

                  ― Eu que te perguntei isso ― eu me defendi, apertando ainda mais os braços cruzados.

                  ― Eu sei, mas agora estou devolvendo a pergunta ― ele deu de ombros, dando mais um passo.

                  ― Sem responder minha pergunta ― eu indiquei, levantando as sobrancelhas.

                  Ele levantou um dos cantinhos da boca, baixando os olhos. Era uma desgraça, mas ele era lindo. Uma desgraça ainda maior porque ele deu mais um passo na minha direção. Eu me mantive firme. Não tinha muito espaço entre eu e a bancada, mas eu não queria dar a impressão de que eu estava nervosa com a sua aproximação, ainda que estivesse. Era isso que eu chamava de controlar minhas reações e eu pretendia ser bem-sucedida nessa missão.

                  ― Você já sabe o que eu estou fazendo aqui ― ele respondeu, levantando os olhos na minha direção lentamente.

                  Um sorrisinho de vitória pintou no canto dos meus próprios lábios, enquanto eu respirava de alívio. Voltar ao domínio da situação me deixava um pouco mais confortável, mas meu coração continuava dançando no meu peito, como se estivesse querendo me avisar do perigo que era estar ali conversando com Vicente. Eu concordava, sem saber bem por quê. Era só olhar para cara de Vicente para saber que ele era um problema, independentemente de qualquer boato. Para piorar, meu corpo parecia esquecer de como realizar funções vitais perto do garoto, o que só podia significar mais problema ainda.

                  ― Estava fugindo de quem? ― eu perguntei, entortando a cabeça.

                  ― Ah... ― ele deu de ombros, baixando os olhos novamente. ― De ninguém em especial...

                  Sei.

                  E eu não sabia como fazer uma eletrólise... Mentiras, mentiras...

                  ― Uma semana de aula e já metido em confusão? ― ponderei, fazendo careta. ― Desse jeito vai acabar expulso de novo...

                  Vicente estava no meio de mais um passo na minha direção, prestes a ultrapassar uma mesa e chegar do meu lado da sala, mas congelou o movimento, sem terminá-lo. Voltou a juntar os pés, me olhando de forma esquisita.

                  ― Era de se esperar que uma garota inteligente como você fosse um pouco mais cética em relação aos boatos sobre o aluno novo... ― ele disse, torcendo os lábios para baixo. ― Ou não é isso que você está fazendo aqui?

                  ― Dando atenção para seus boatos? ― Eu questionei, tentando me esquivar da conversa.

                  ― Não ― ele gesticulou, mostrando o laboratório. ― Sendo inteligente.

                  Eu dei uma risada, sem saber o que responder. Como explicar que, na verdade, eu estava ali porque precisava de paz? Que eu odiava todas aquelas pessoas daquele colégio, menos Karen e mais alguns colegas que eu podia contar nos dedos? Que eu faria qualquer coisa para fugir dos tipinhos daquele colégio, inclusive dele mesmo?

                  ― Não, também fico aqui para fugir ― eu respondi. Porque era verdade. Uma fuga diferente da dele, provavelmente, mas verdadeira.

                  ― Fugir de quem? ― ele perguntou, intrigado e dando um novo passo para frente.

                  De você .

                  ― Você também não respondeu essa minha pergunta... ― eu me defendi.

                  ― A resposta vai reforçar alguns boatos que eu prefiro que não sejam reforçados ― ele respondeu, dando de ombros.

                  Encarei, ofendida. Ele estava querendo dizer que achava que eu ia usar essa informação, qualquer que fosse, e sair por aí contando pela escola? Claramente não sabia nada sobre mim. Mas eu também não queria que ele soubesse...

                  ― Eu tenho coisa melhor para fazer do que ficar fofocando sobre a vida do garoto novo ― eu retruquei, irritada.

                  ― Mas passou a semana inteira ouvindo fofocas sobre a vida do garoto novo ― ele respondeu. ― E se eu te contar de quem eu estava fugindo, você vai achar que os rumores eram verdadeiros...

                  Eu mordi o lábio, pensativa. Será que ele poderia estar certo? Sua própria existência como ser humano e invasão ao meu recanto de paz já me fazia achar que os rumores tinham fundamento.

                  ― Aí você já está duvidando da minha inteligência, que você mesmo exaltou minutos atrás ― me defendi.

                  Vicente deu uma risada, apoiando-se na mesa e entortando o corpo. Eu tentei não acompanhar muito o movimento com os olhos, mas foi muito difícil. Ele já estava perto o bastante para meu cérebro começar a fritar.

                  ― Eu nem sei seu nome ― ele gesticulou. ― Como vou saber se posso confiar minha história a você?

                  É claro que ele sabia. Talvez não lembrasse, mas ele já tinha ouvido o professor chamar meu nome na aula de Química e até as zoações na aula de Educação Física. Mas também é claro que não podia confiar. Para ser sincera, eu nem queria saber sua história. Não de verdade. Só queria ele fora do meu laboratório e voltar para minha paz e meus experimentos.

                  ― Não vai saber ― eu respondi, dando de ombros.

                  ― Pois é ― concordou ele, se esticando novamente. ― Pelo jeito também vou continuar sem saber seu nome.

                  Eu dei um sorriso, observando-o girar em seus pés e andar em direção à porta do laboratório. Apoiei-me na bancada atrás de mim, cruzando meus pés e segurando a quina com minhas mãos ainda enluvadas. Vicente olhou para trás antes de tocar a maçaneta, me dando mais um daqueles sorrisos.

                  ― Vou mesmo continuar sem saber? ― Ele perguntou.

                  Não era possível que ele não soubesse meu nome. Se não sabia, era um caso de síndrome de popularidade pior do que eu pensava. Talvez ele não fosse só o rei daquele tipo, mas o imperador.

                  ― Você já sabe meu nome, Vicente ― eu estiquei uma mão para acenar e incentivar sua saída. ― E, se não souber, incentivo que você faça suas próprias investigações por aí.

                  Ele deu uma risada curta, virando a maçaneta e abrindo a porta. Eu dei um suspiro aliviado quando ele cruzou a soleira, mas foi cedo demais. Antes de finalizar a passagem e fechar a porta atrás de si, me devolvendo minha solidão, ele olhou por cima do ombro mais uma vez e sorriu.

                  ― A gente se vê, Juliana.


-------------------------


Oi, gente! <3

Como prometido, chegou o terceiro capítulo! Primeira interação real entre esses dois e o ship já tá tão forte que nem sei... O que vocês acham?

Já somos 117 seguidores!!! Socorro! Obrigada mesmo pelo carinho e por me seguirem aqui :) Lembrando que eu prometi um capítulo bônus e surpresa narrado pelo Vicente quando chegarmos a 200 seguidores, então bora seguiiiiiiiir!! Em quanto tempo será que a gente chega??? #contandoashoras

BEIJÃO e até quinta que vem (ou antes, se chegarmos a 200 seguidores!).

Capítulo 4: Invasão