Capítulo 2: Meus óculos, alguém viu meus óculos?

Reações Químicas

Capítulo 2: Meus óculos, alguém viu meus óculos?

                Karen passou a noite toda com a cara enfiada no computador, revirando a internet de cabeça para baixo atrás de informações sobre Vicente. Eu tentei dizer um milhão de vezes que não estava nada interessada em saber sobre ele, mas ela continuou compartilhando todo novo dado que encontrava, atrapalhando meus planos de revisar a matéria do dia.

                ― Karen, por favor... ― eu tentei, pela milésima vez. ― Eu preferiria saber sobre suas férias em Bariloche.

                ― Olha! ― Disse ela, ignorando totalmente meu pedido sacudindo com a mão como se dissesse que aquilo pode esperar. ― Ele era do time de vôlei do colégio antigo...

                ― É claro que era... ― eu reclamei para mim mesma, fechando o livro de Química.

                Seria uma noite inútil para meus estudos. Teria que recuperar a matéria no dia seguinte, antes dela começar a acumular. Eu era muito rígida com meus estudos diários, porque eles me permitiam dias menos sofridos nas vésperas das provas. Eles também me davam álibi para fugir do convívio social com os outros estudantes, o que por mim já era motivo suficiente.

                Deixei Karen falando sozinha no quarto, entretida com mais dados de Vicente – ou Vince, para os íntimos amigos do Facebook que Karen também já tinha investigado. Tranquei-me no banheiro, encaminhando-me para um banho. Se eu não podia ganhar dela e fazê-la calar a boca sobre esse bendito menino, mudaria de estratégia. E minha nova estratégia era fugir para o banho, emendando-o com uma longa noite de sono.

                Tinha sido um dia estressante com todas as novidades e fofocas sobre o garoto, que ainda não tinha feito muita amizade. Acho que todo mundo estava com um pouco de pé atrás, já que ele era nosso primeiro caso de novo aluno no meio do ano e carregava aquela aura de que tinha alguma coisa errada. No caso, acho que tinha tudo errado com ele.

                Não tive pressa no banho já que cada minuto embaixo d’água era um minuto longe de Karen, que ainda estava berrando informações do quarto. Até minha melhor amiga tinha sido mordida pela curiosidade! Não havia mais um lugar seguro nesse colégio inteiro, onde eu poderia ficar em paz sem ouvir nenhuma especulação sobre o menino, fora o meu laboratório. Quer dizer, meu não... Do colégio e do professor Road... mas eu gostava de pensar que era um pouquinho meu também.

                Quando eu saí do banho, Karen estava um pouquinho mais sossegada. Ela tinha fechado o laptop e estava enfiada embaixo das cobertas, mexendo no celular. Eu corri para vestir meu pijama de flanela quentinho e também correr para minhas cobertas, sentindo o frio de Nova Friburgo no inverno.

                ― Boa noite, Karen ― eu disse, me acomodando confortavelmente.

                ― Sabia que tem vídeos dele no Youtube brigando na rua? ― Karen disse e eu puxei a coberta para cima da cabeça, porque não era obrigada.

                ― Boa noite, Karen ― eu repeti, em um tom mais duro.

                ― Sabia que tem uma foto dele dentro de uma viatura da polícia nas fotos em que ele foi marcado? ― Ela continuou.

                Eu imitei o barulho de um ronco profundo e Karen deu uma risada. Eu ouvi as molas da cama dela rangerem e o clique do interruptor quando ela desligou a luz.

                ― Boa noite, Ju ― Karen finalmente respondeu.

                Fechei os olhos, satisfeita. Finalmente eu poderia parar de ouvir histórias sobre Vicente!

                O que eu não contava era que meu cérebro continuaria ativo, pensando nas histórias sobre Vicente e me impedindo de dormir com facilidade. Eu rolei de um lado para o outro, pensando em que raios um menino desse veio fazer no EA. Por que eles tinham admitido alguém com aquele histórico? Eu duvidava muito que o histórico escolar dele fosse excepcional, com as histórias pessoais que Karen desencavou em só uma noite. Pelo jeito faltava alguém para fazer esse trabalho na secretaria: stalkear os futuros alunos antes de resolver aceitá-los.

                Por outro lado, era claro que o colégio ia fazer uma dessas. Com seus “métodos alternativos de ensino” conhecidos por todo o país, como eles poderiam dizer não para um menino problemático? Devem ter aceitado na esperança de consertá-lo e apresentá-lo para o mundo como ex- bad boy e atual aluno do EA, reformado e repaginado – quase como uma reabilitação. E se essa era mesmo a intenção, coitados. Era só dar uma olhada nele para saber que seria um trabalho inútil. Ele não era capaz de reabilitação. Sorrindo daquele jeito? Seu jeito não tinha cura.

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                Estava exausta na manhã seguinte, então tomei duas xícaras grandes de café quando eu e Karen descemos para a primeira refeição do dia. Sentamos na nossa mesa de sempre, repleta de outros colegas com os quais eu até socializava, mas não gostava muito. Karen era amiga deles e ela era nosso link. Sem que ela estivesse por perto, eu nunca falava com eles. No máximo um aceno ou outro pelo corredor.

                Finalmente, o tópico na mesa era outro: a viagem de Karen. Ela dissertou alegremente sobre as estações de esqui, seus tombos descomunais e o frio que passou, mesmo com tantas camadas de roupa. Eu dei um sorriso ou outro, entre meus goles no café. Não acreditava que tinha demorado para dormir, sabotada pelo meu próprio cérebro e suas elucubrações sobre Vicente.

                ― Eu achava que Nova Friburgo era fria, mas vocês não têm noção de como eu me senti gelada no meio da neve ― Karen compartilhava e todo mundo ria, compartilhando experiências sobre neve, esqui e qualquer outra coisa do gênero.

Coisas que eu nunca tinha feito.

                Mas enquanto o tópico de conversa fosse a neve argentina, não haveria nada fora do comum na minha rotina e na minha realidade. Eu precisava que as coisas continuassem dessa forma. Não poderia perder mais noites de estudo e nem mesmo minutos preciosos de sono por motivo algum, muito menos por causa de um menino novo qualquer.

                ― Vocês viram que Vicente também passou as férias esquiando? ― uma das pessoas na mesa falou e eu olhei pelo canto de olho, sem acreditar.

                ― Sim! ― Outra concordou. ― Mas não foi em Bariloche não... foi em Aspen!

                Eu nem sabia onde ficava Aspen, mas não importava. O que importava era que o tópico de conversa agora tinha mudado e todo mundo compartilhou as coisas que descobriu sobre o garoto na noite anterior. Pelo jeito, todos eram tão malucos quanto Karen e passaram a noite inteira investigando o aluno novo. Eu sentiria pena de Vicente, se na verdade não sentisse tanto nojo do tipo de pessoa que ele era.

                ― Com licença ― eu disse para absolutamente ninguém, já que não havia uma viva alma prestando atenção em mim naquela mesa.

                Porém, a educação deve existir em todos os momentos. Ou, pelo menos, em todos os momentos possíveis. Andei na direção das bebidas da cafeteria, me questionando se faria mal se eu pegasse mais um pouquinho de café. Meus olhinhos ainda estavam ardendo, revoltados por eu já estar fora da cama. Tive que fazer esforço para conseguir me convencer a colocar a minha bandeja na área de devolução e não encher a caneca de novo. Café em excesso fazia mal, assim como ser obrigada a ouvir fofocas infundadas sobre Vicente.

                Como se soubesse que eu estava pensando nele, ele apareceu no meu caminho quando me virei para voltar à minha mesa. Nossos olhares se cruzaram só por um segundo antes que eu pudesse desviar meus olhos, mas dessa vez ele não deu um sorriso. Não precisava dar um sorriso para que meu corpo agisse daquela forma esquisita, como se eu estivesse desesperada, nervosa e atarantada, tudo junto! Apressei o passo para voltar até Karen e meus colegas, sem olhar para atrás.

                ― Vou subindo ― eu disse, sem nem sentar na cadeira novamente.

                ― Mas já? ― Karen questionou, olhando o relógio do celular. ― Ainda faltam quinze minutos para a aula começar.

                ― Eu preciso passar no quarto antes ― eu respondi, já dando um passo para trás. ― Até já.

                ― Até ― ela respondeu, seguida por uma ou outra pessoa da mesa que não estava conversando paralelamente sobre o tópico do momento.

                Corri escada acima e depois até meu quarto, evitando olhar por cima do ombro. Precisava parar de pensar em Vicente porque, pelo jeito, ele era que nem Beetlejuice e aparecia do nada quando alguém ficava pensando muito nele. Foi difícil, porque durante o caminho, mesmo correndo, consegui ouvir em cada esquina novas especulações sobre sua origem e sobre os motivos pelos quais ele tinha sido aceito.

                Fechei a porta do quarto atrás de mim, respirando fundo. Seja lá o que estivesse acontecendo com meu corpo, eu precisava controlá-lo. Minhas emoções eram permeadas e fundamentadas por reações químicas e eu era um ser perfeitamente racional, capaz de controlar cada uma delas. Não é?

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                A manhã passou sem mais incidentes. Por incidentes eu quero dizer que não esbarrei mais com o garoto e, consequentemente, consegui controlar minhas reações. Porém, infelizmente, ainda fiquei todo o tempo sendo obrigada a ouvir histórias sobre ele. Eu contei os minutos para as aulas acabarem e eu ficar livre para correr para meu laboratório, mas as aulas se arrastaram. Pela primeira vez, eu fui muito alegre para a aula de Educação Física, feliz por ela ser a última do dia e a única coisa que ainda me afastava da paz que eu merecia.

                ― Sabe o que eu ouvi sobre Vicente, Juliana? ― Karen se aproximou no vestiário, sussurrando e olhando em volta, para que ninguém pudesse ouvir.

                ― Pelo amor de Deus! ― exausta. Era isso que eu estava. Puxei meu short para cima, querendo acabar com aquilo o quanto antes. ― Ainda esse assunto? Não aguento mais!

                ― Dizem que ele foi expulso do último colégio... ― Karen disse mesmo assim, abaixando o tom. ― Porque foi pego com uma professora.

                Eu bati o armário do vestiário com toda força que eu pude, sem paciência. Ah, me poupe! E eu com isso? Por mim ele podia ter sido pego até com um professor que eu não poderia estar menos interessada... Larguei minha amiga para trás e comecei a caminhar na direção da quadra.

                ― Uma professora casada ― ela complementou. ― Com o diretor do colégio.

                Eu parei no caminho, olhando para ela por cima do ombro. Será que dava para essa história ficar ainda mais escabrosa? Sacudi a cabeça, sem querer saber a resposta. Antes que Karen interpretasse minha pausa como um incentivo para continuar a me contar qualquer coisa, continuei andando e cheguei à quadra. Por que raios davam tanto ibope para esse menino? Um rei só é rei se tem súditos. Se todo mundo simplesmente ignorasse sua existência, com certeza ele precisaria mudar de comportamento e...

                ― Juliana! ― Um colega gritou, do meio da quadra. ― Abaixa!

                Eu não computei sua ordem de forma rápida o bastante. Olhei em sua direção, perdida e confusa. Tentando entender o que estava acontecendo, só vi a bola quando já era tarde demais. Dei um berro e pulei para o lado, mas, mesmo assim, ela passou de raspão no meu rosto, me desestabilizando e derrubando meus óculos no chão. Ouvi passos e vi vultos, mas eu era incapaz de enxergar um palmo à minha frente sem minha armação.

                ― Desculpe ― algum menino disse. ― Você tá bem?

                ― Meus óculos... ― choraminguei, olhando para baixo.

                Os borrões que se moviam deviam ser pés, mas eu não conseguia enxergar nenhum borrão parado que pudesse ser meus óculos. Eu comecei a ouvir risadas e comentários maldosos sobre como eu parecia a Velma, de Scooby-Doo. Comecei a rodar em círculos e andar sem rumo, tentando encontrá-los a todo custo, com o coração acelerado. Era uma droga ser míope nesse nível, mas a verdade é que eu não era ninguém sem meus óculos. Normalmente, quando eu os perdia em algum lugar, era Karen que me ajudava a achá-los. Mas eu tinha deixado minha única amiga para trás, porque ela não parava de falar no maldito rei do inferno! Será que eles tinham pegado de propósito? Será que tinham escondido só para zoar com a minha cara? Eu não podia perder aquela armação! Era a única que eu tinha! E não tinha dinheiro para fazer nenhuma outra...

                  ― Por favor! ― eu choraminguei, sentindo o pânico se alastrar. ― Alguém pode devolver meus óculos?

                  ― Ei, ei! ― uma voz desconhecida se aproximou, junto com borrões de seus pés.

                  A pessoa tocou minha mão, me fazendo virar na sua direção. Eu estreitei os olhos, fazendo uma careta. Era um menino, mas eu não conseguia dizer qual deles. Se eles eram todos iguais mesmo quando eu estava enxergando perfeitamente, imagina quando eu só conseguia ver manchas. Eu não sabia dizer quem era, mas com certeza era eternamente grata por ter vindo em meu socorro.

                  ― Vai estragar a brincadeira, cara ― alguém reclamou nas proximidades.

                  ― Seus óculos estão aqui ― aquele borrão masculino em específico tomou minha mão de novo, colocando meu bem mais precioso entre meus dedos.

                  ― Ah! ― eu dei um gritinho de alegria, me apressando para colocar os óculos no rosto. ― Muito obriga...

                  A palavra ficou presa no ar, quando eu vi Vicente me encarando com mais um sorrisinho. Antes que eu pudesse me recompor e completar o agradecimento, ele assentiu e saiu correndo de volta para a quadra, matando no peito a bola que nosso colega chutou. Eu encarei, receosa. Ele tinha sido a única pessoa que veio me socorrer? Ou será que tinha sido ele que escondeu os óculos, para início de conversa?

                  A pior pergunta, no entanto, era: e se ele não fosse o rei que todo mundo achava que ele era?

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Oláááá!!!

CHEGAMOS EM MAIS DE 100 SEGUIDORES EM MENOS DE UMA SEMANA! Se estou feliz??? MUITO!!! 

Obrigada por ter seguido a história de Juliana e Vicente! Espero que você continue comigo nos próximos capítulos e convide os amigos!

Lembre-se: a postagem é feita TODA QUINTA-FEIRA - o que quer dizer que amanhã tem capítulo novo! <3

Quão rápido será que a gente consegue chegar em 200? Será que eu tenho um bônus na manga para esse momento? TALVEZ...

Beijos e até mais! <3