Capítulo 1: A Curiosidade Matou o Gato

Reações Químicas

Capítulo 1: A Curiosidade Matou o Gato

                  Sentei-me em uma cadeira vazia na sala de Química um pouco mal-humorada. Era esse o efeito que estar de volta para um novo semestre no Colégio Ensino Aberto – EA, para os íntimos – causava. Pelo menos em pessoas como eu, que se sentiam mais confortáveis em chamá-lo pelo singelo apelido de inferno.

                  Tentei focar nas coisas boas: pelo menos o primeiro tempo de aula era Química. Talvez brincar com carbonos melhorasse meu humor e me possibilitasse aguentar melhor o resto do primeiro dia. Voltar das férias sempre me deixava com dor no coração. Não pelo colégio em si¸ mas pelas companhias com as quais ele me obrigava a conviver.

                  Para piorar, Karen – minha melhor amiga e companheira de quarto – perderia o primeiro dia de aula porque ainda estava voltando de viagem. Por isso, joguei minha mochila na cadeira vaga ao meu lado. A sala de química era construída por mesas duplas e, se Karen não seria minha dupla, eu não queria mais ninguém sentado ao meu lado . Ela tinha passado as férias esquiando com o namorado em Bariloche, provavelmente tentando se encher de boas lembranças para tentar encarar mais um semestre sem vê-lo direito, trancafiada nesse internato enfiado no meio das florestas de Nova Friburgo.

                 Talvez isso desse algum tipo de problema para ela em um colégio tradicional; mas, apesar do pequeno detalhe de nos fazer ficar em internato, Ensino Aberto não era nada convencional. Seus métodos de ensino eram inovadores, seu corpo docente era internacionalizado e seus laboratórios eram topo de linha.

                  Essa era outra coisa boa na qual eu poderia tentar focar: os laboratórios. Por ser alguém apaixonada por mexer com químicos, eles eram meu porto-seguro. Especialmente porque, na maior parte das vezes, ficavam completamente vazios. A paixão pela química não era compartilhada com meus colegas do EA, o que me permitia ficar isolada de todos por longas horas quando eu sentia que era necessário. E eu sentia isso constantemente.

                  A sala foi enchendo aos poucos, com estudantes animados compartilhando detalhes das suas férias. Eu acenei para uma ou outra pessoa, sem me engajar nas conversas e sem fazer contato visual por tempo suficiente para que eles perguntassem como tinham sido as minhas férias . Perto das deles, que sempre envolviam viagens internacionais ou aventuras magníficas, compartilhar sobre as minhas me faria ser motivo de chacota.

                  E eu já era chacota suficiente porque amava química, destoava da maior parte deles, usava óculos com muito grau e, por isso tudo, cabia exatamente no estereótipo de nerd criado por eles.

                  O sinal de início das aulas bateu e o professor Road entrou na sala, dando um sorriso aprazível. Ele era meu professor favorito do EA e nos ensinava química – tanto orgânica quanto inorgânica – desde o primeiro ano do Ensino Médio, quando eu comecei a estudar aqui. Ele falava português fluentemente porque morava no Brasil há muitos anos, mas na verdade era do interior do Texas. Algumas palavras ainda denunciavam seu sotaque, assim como seu sobrenome ajudava a denunciar sua origem.

                  ― Olá, Juliana! ― Ele me cumprimentou, colocando a pasta em cima da mesa do professor. ― Como foram suas férias?

                  ― Ótimas ― eu dei um sorriso amarelo, sem saber como fugir do assunto. ― E as suas?

                  ― Ficar longe de vocês é sempre uma alegria ― ele fez uma piada e alguns alunos em volta deram risada. Então, pigarreou e aumentou o tom de voz. ― Olá, turma! Quem está pronto para aprender Química?

                  Eu dei um sorriso genuíno, mas minha sala foi inundada por reclamações e choramingos. Foi a vez do professor Road dar uma risada, virando-se para o quadro branco e puxando a tampa da sua caneta. Ele não tinha nem terminado de escrever o título da aula (polímeros e eu estava muito empolgada com isso) quando alguém bateu à porta. A classe, que ainda estava falando animadamente enquanto ele escrevia no quadro, silenciou por alguns segundos.

                  O professor andou na direção da porta, tentando espiar pelo pequeno vidrinho que mostrava o mundo exterior. Todo mundo começou a conversar baixinho, especulando sobre quem poderia estar batendo à porta. Eu ouvi o nome de Karen uma vez ou outra, já que ela era a única aluna que estava faltando na sala.

                  Professor Road abriu a porta, mas, de onde eu estava sentada, não consegui enxergar quem estava do lado de fora. Claro que não era Karen. Ela tinha me mandado mensagens um pouco antes da aula começar dizendo que tinha acabado de pousar no Rio de Janeiro e que vinha direto para cá, mas que, provavelmente, só chegaria no final das aulas. Pouco tempo depois o professor deu passagem e o nosso visitante – fosse quem fosse – entrou na nossa sala de aula.

                  Os burburinhos aumentaram quando ele cruzou a soleira da porta e olhou em volta.

                Até eu fiquei com vontade de fofocar.

                O nosso visitante era um garoto que eu nunca tinha visto na vida. Ele claramente não era da nossa sala e eu tinha reais dúvidas se fazia parte do nosso colégio. Era um tipo clássico e facilmente se camuflaria com a maior parte das pessoas daquela sala, vestindo roupas de marca e olhando para turma como se fosse infinitamente superior a qualquer um de nós. Mas tinha alguma coisa... alguma coisa que destoava. Talvez fosse o fato de ele estar todo vestido de preto, sua jaqueta pesada ou o maxilar tão definido. Era só estranho ...

                ― Classe ― o professor Road chamou atenção, fechando a porta da sala novamente. ― Temos um aluno novo neste semestre.

                Eu franzi a testa, confusa. Nós nunca tínhamos alunos novos no meio do ano letivo. Era mais estranho ainda. Eu nem sequer sabia que o EA abria inscrições para novos estudantes nesse período do ano. Pela maneira como a turma volta a murmurar, percebo que não sou a única que está estranhando a situação. Meu celular vibrou, acusando mais uma mensagem de Karen. Eu coloquei o celular no colo, tentando digitar discretamente uma mensagem.

                Ju: Temos um aluno novo na sala de química.

                Karen: UÉ???

                Karen: Eu nem sabia que o EA aceitava gente nova nessa época do ano letivo.

                Ju: Pois é, nem eu.

                Karen: E como é que ele é?

                Ju: Ah, você sabe... um desses tipinhos desse colégio.

                Karen: Manda foto!

               

                ― Vicente foi transferido e fará parte da nossa turma neste semestre ― Professor Road continuou e eu levantei os olhos, para vê-lo dando um tapinha nas costas do rapaz. ― Por favor, o recebam com simpatia.

                  Vicente deu de ombros, sacudindo sua jaqueta. Eu levantei o celular para capturar uma rápida foto e satisfazer a curiosidade de Karen. Sempre muito curiosa. Ela não sabia que a curiosidade tinha matado o gato? O gato, nesse caso, podia ser eu. O colégio era cheio de métodos alternativos, mas não era tão flexível assim com o uso de celular em sala de aula...

                   O garoto continuou correndo os olhos pela sala e, foi só quando ele parou o olhar na cadeira ao meu lado que eu percebi que ele estava procurando um lugar vago. Foi exatamente nesse mesmo momento que eu tirei a foto.

                Droga.

                Cliquei em enviar correndo, enquanto ele andava na minha direção. Enfiei o celular na bolsa, sentindo minhas mãos tremerem um pouco de nervoso. Será que ele tinha visto? Minhas chances de ser um gato morto aumentavam vertiginosamente a cada passo que ele dava. Baixei os olhos, sem querer dar bandeira de que tinha feito algo errado. Foi só quando ele parou do lado da mesa que eu me estiquei e puxei a mochila, ainda sem encará-lo. Que droga!

                ― Bem, voltemos então aos polímeros ― professor Road disse, voltando a se virar para o quadro.

                Meu celular vibrou de novo, dentro da mochila que agora estava em meu colo. Vicente sentou-se ao meu lado, em silêncio. Eu puxei o aparelho para fora, só para ler as mensagens que Karen tinha mandado em resposta da foto.

                Karen: Putz, miga.

                Karen: Ele não é só um tipinho, né...

                Karen: Ele é tipo o REI deles.

                Talvez fosse esse o motivo da minha sensação de esquisitice. Karen tinha sacado em uma simples foto o que eu fui incapaz de processar vendo o garoto ao vivo. Tínhamos muitos outros garotos que se comportavam da mesma forma, usavam roupas parecidas e tinham aquele tipo de postura. Eu tinha horror e desprezo por todos eles. Provavelmente era essa sensação que Karen teve vendo sua foto que me fazia ter mais nervosismo do que horror e mais desespero do que desprezo. Ele era a maldita realeza do tipinho detestável.

                  Enfiei o celular de volta na mochila, largando-a no chão embaixo da minha cadeira. Antes de tomar minha caneta nas mãos e começar a anotar sobre a matéria, arrisquei olhar na direção de Vicente. Péssima escolha. A curiosidade matava mesmo o gato e, naquele momento, ela veio em forma de um sorriso torto. Dele.

                  Eu fiz uma careta, voltando a tentar focar na matéria. Me poupe. Sorrir dessa maneira. O que ele estava pretendendo? Não ia funcionar. Em algum momento eu voltaria a sentir apenas horror e desprezo. Era uma reação diferente por causa da surpresa. Só isso. Sacudi a cabeça, terminando de anotar o que já estava no quadro.

                  Se eu odiava seus súditos, por que gostaria do rei?

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Olá! <3

Obrigada por acompanhar a história de Juliana e Vicente! 

As postagens vão sempre acontecer nas quintas-feiras e eu vou tentar fazê-las sempre no horário da manhã!

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Clara