Dez minutos

Dez minutos

Dez minutos

A água quente tocava seus corpos. Aquele banho lhes proporcionava uma sensação de inarrável alívio. No toalete, somente as duas...livres para desfrutar de raro momento de serenidade, de paz. É deslumbrante perceber que para ser feliz basta uma trivialidade, um quase nada, ainda que essa felicidade seja passageira.

A calmaria daquele banho foi substituída por travessuras. As brincadeiras com a água tinham como consequência sorrisos deliciosos de se ouvir. A fumaça que se assenhoreava do recinto permitia a escrita de frases românticas ou o desenho de corações no espelho. Ensaboaram-se. Abraçaram-se enquanto a água expulsava a espuma de suas peles.

Olhos nos olhos, riram. Dessa vez, timidamente. Em seus rostos, lágrimas brotaram, misturando-se à água quente. Os dez minutos haviam acabado. Agora, era uma questão de tempo, de pouco tempo. Sabiam de tudo o que estava por vir. Ouviram o trancar da porta. A água parou de cair. E a fumaça que agora se apoderava do banheiro era de um gás tóxico. As duas, mãe e filha judias, morreram instantânea e silenciosamente.

Antes do banho, o soldado, que havia trancado a porta e mudado o mecanismo do chuveiro, informara que elas poderiam se lavar por um determinado prazo, mas que depois... Mãe e filha, então, fruíram ao máximo daquele momento trivial, mas que era de paz e de serenidade.

Anos depois, quando a guerra findou, o soldado foi condenado à prisão perpétua por ter cometido crimes contra a vida durante um episódio que ficou conhecido como Holocausto.