Capítulo único

Mais um nego que desce a ladeira

Capítulo único

Pelas ladeiras estreitas descia Sancho. O negro robusto mal conseguia sustentar-se sobre as próprias pernas; o carnaval rolava solto no centro, mas a conta da ressaca o havia pego. Parou e sentou-se, cansado e cambaleante, nos degraus que davam num beco escuro.

— Me solte, ou eu grito!
— Tambor nenhum faz menos barulho que tu!
A discussão estranha chamou a atenção de Sancho: um homem alto pressionava o corpo da moça contra a parede e o que se seguiu, em meio a apelos e gritos abafados pela folia, despertou a ira do negro que vociferando avançou sobre o homem:
— Desgraçado, eu lhe mato! - e agarrando-o pela camisa, deu-lhe um soco no rosto.

O homem desvencilhou-se das mãos de Sancho e correu, sendo seguido por ele. Deram numa pracinha vazia, com uma viatura parada.


— Oh, peguem ele! Abusou da menina no bequinho, que eu vi! - apontava desesperado para o outro, que uniu-se aos policiais. Só então Sancho reparou-lhe as vestes.
— Dissemos pra tu não ir lá que dava de aparecer justiceiro e ver a coisa… Tu não ouviu, Guerra. - os policiais riam alto.
— Oxe, tem nada. Mas esse daí viu, sabe nem que aquela lá é chegada em farda.
— Leva o nego preso, só ele viu. A menina não há de fazer denúncia é nunca, com a ajudinha que tu dá a mãe dela.
— É, tá preso nego, furto. - antes que pudesse se defender, Sancho foi jogado na viatura como ladrão.

Mais um nego que desce a ladeira e entra no camburão.