vi a morte de pertinho. ela é linda.

as novas intermitências da morte

vi a morte de pertinho. ela é linda.

vê só, que a morte não é cega, não, feito falam. ela vê e escuta tudo, o que é é caladinha. chega, que tu nem percebe.

pois quando notei, estava lá a moça, no pé da minha cama, querendo me levar. ah, não, minha senhora. e minha filha? além do mais, meu chefe prometeu uma promoção no mês que vem, e agora vou ter um salário maior, e prestígio na firma, finalmente, tanto que me dediquei a esse trabalho. mas a senhora, afinal, já deve saber disso, né, e me fala, é só deus que sabe de tudo ou vocês sentam num cineminha vendo a vida da gente passar, sabendo o que a gente pensa? deve ter, ora, mas tanta gente pra ver, não deve dar pra prestar atenção direitinho em mim, então não faz mal falar dessas coisas da minha vida. mas ô, dona, tinha mesmo que ser essa minha hora?

vai, senta aqui pra gente tomar um café, pelo menos. não carece essa pressa toda com minha alminha, nem vou fugir que da morte a gente não se esconde. e eu vou aproveitar que levantei pra lavar essa roupa que ficou aqui, viu, enquanto a gente conversa. assim não fico parada, deixa botar esse café no fogo. sabe que eu até queria descansar de vez em quando, mas desde que me entendo por gente, e que a vida é vida, foi assim. ou não? minha mãe que me dizia, filha, se a gente fica parada, o mundo derruba. eu não gostava não de ouvir, mas hoje vou fazer o quê? se parar pra reclamar, já caí.

e valha-me-deus, que tá tudo sujo esse chão também, parece é que cresce feito árvore a poeira em casa, cadê a vassoura, a Lili escondeu, ô menina. ô dona, e se minha filha fica só no mundo? o pai manda pensão, somente. mas se bem que lili já cresceu com cimento no corpo ao invés de sangue, sabe, saiu da minha veia, não podia ser de outro jeito. a carne dela é diamante, eu digo isso pra quem fala que a menina é dura. é dura, eu deixo ela ser, é meu jeito de ensinar pra ela também que se ela parar, ela cai. se ela amolecer, leva murro. eu sei porque levei. e não queria assim, não gosto nem de me ouvir falando, também. mas que se faz? ela já nasceu aguentando perrengue comigo, a gente se segura quando tá tudo ficando difícil, às vezes parece que não vai dar pra passar, mas sempre dá.  

quando a Li chegou na idade da escola, achei que ela fosse se segurar na barra da minha saia e abrir berreiro pra não ficar lá. pois, saiu correndo que nem me viu mais. já querem nascer sabendo das coisas, os filhos, mas pior é que sabem muita coisa mesmo. e crescem tão rápido, né, a senhora o que acha? eu não estou lhe entediando com essas histórias não, estou? eu sei que a morte deve saber de tudo, mas eu ando tão ocupada que nem penso em mim, sabe, nem lembro a última vez que parei pra conversar assim, na vida. eu acho que acumulo conversa, emoção. será por isso que viesse me buscar? mas então vamos conversar um pouco mais, tem muita gente pra buscar, além de mim, por hoje? eu nunca parei pra pensar no serviço da morte. não para nunca, nunquinha. toda hora morre alguém, tem nem hora pra dormir, essa jornada da senhora, ainda bem que não cansa nem fica doente. mainha diria que isso que é mulher de verdade. ô, mainha. mas uma pausa só em mil anos, um café, não vou lhe atrasar não, viu.

a senhora que deve olhar pra nós como seus filhos, também. filho é uma coisa complicada, não é, e no fim da vida ninguém quer lhe abraçar. eu não sou diferente, olha. gato tem sete vidas, mulher precisava mesmo era de mais, você sabe como é, trabalha mais que eu ainda. ainda mais que esse tanto de alma que a senhora busca deve choramingar um monte, já deve ser parte do serviço isso, hora extra pela lamentação humana, imagine só. e a morte é antiga que nem o tempo, tem mesmo paciência. dizem que antes, na época do velho testamento, tinha outra morte, uma mais cruel, não era complacente feito você, não. é verdade? dizem que quando a gente morre, descobre os mistérios da vida. pra mim a vida é bonita assim, cheia de mistério, mistério é coisa boa. queria era mais tempo pra aproveitar, me aventurar. e o que eu ia dizendo? sim, filho é coisa complicada. sabe que eu nem queria ter nenhum? hoje eu e lili, ela é minha companhia, e eu amo mais que tudo, mas querer, ter sonho de ser mãe, nem tinha.

mas quando você ficar mais velha vai querer, diziam. espera casar, quando você casar vão precisar de alguém pra completar a casa. eu ouvi demais isso. de todo mundo, que todo mundo gosta de opinar na vida da gente, né, desde cedo. e eu terminei o colegial, namorei esse rapaz, um amor, romântico, gostava de mim. problema é que depois de um tempo, a gente passou da fase de namorinho pra dar a mão e passear na praça da igreja. e meu pai não quis dizer pra não ser chamado de careta, mas achou um escândalo que filha dele saísse à noite, dormisse em casa de namorado, que no tempo do namoro dele com mamãe não era assim. eu lembro de ouvir eles brigando, nítido, como se fosse ontem, você acredita? mamãe tentava me defender, mas, por fim, chegou de noite no meu quarto. ô filha, é sério mesmo esse seu namoro? porque se for, eu e seu pai apoiamos. mas namoro como tem que ser. não é pra mulher direita andar com um e com outro, sabe.

dona, se você já viu essa história de lá do seu lugar, de onde você conhece todo mundo, me perdoe a repetição. mas vou te contar como aconteceu pra mim, do meu ângulo. dizem que umas coisas marcam mais nossa vida que outras. da visão de mamãe, ela salvou a filha dela de ficar mal falada, uma reputação horrível pela cidade, capaz de depois de um tempo não conseguir mais namorado, ninguém ia querer casar comigo, rodada, do mundo. melhor casar com esse rapaz, um menino bom, de boa família. assim fico séria. mas, pra mim, essa foi a primeira vez que eu vi nítido e claro na minha frente que não podia cuidar de mim assim, sozinha. a gente não cuida da gente, não é mesmo? porque não deixam. porque tem mamãe, e papai, e a família do namorado, e a vizinha da frente vendo esse rebuliço vai pensar o quê? foi assim, pronto. O Senhor e a Senhora convidam vocês para o enlace matrimonial de sua filha. agora sim. agora eu era uma mulher direita.

ser uma mulher direita ficou na minha cabeça uma pá de tempo, depois disso. perdi o gosto pelo rapaz, sabe? e dizem que hoje não acontece mais de casar alguém forçada. mudou-se o jeito de falar só. mulher direita. mamãe ia me visitar depois da missa, dizia que eu tinha perdido o brilho dos olhos, filha, o que aconteceu? nada, eu sou uma mulher direita. ela me disse que eu tinha sorte, que hoje as mulheres hoje têm liberdade e podem casar e também trabalhar e também ter seus filhos. e que meu marido era bom, sempre me ajudava nas tarefas, às vezes me dava uma jóia, um buquê, não seja ingrata. e os filhos, quando vão ter?

quase que me perco nessa história, dona, eu falava que antes não pensava em ter filhos, meu primeiro namorado, mamãe no meu quarto à noite, o casamento. e foi assim mesmo, mamãe nas visitas agora só falava nisso. eu não cheguei a contar pra ela que ele, à noite, apagava as luzes e se empurrava em mim. dizia aos amigos que estávamos tentando ter um filho. não pega bem pra homem, né, não fazer jus à função de macho-alfa, reprodutor. às vezes dizia que ia chegar tarde do trabalho, eu já meio adormecida ouvia os passos dele na porta, trôpego e com cheiro de cerveja. deitava ao meu lado e se empurrava em mim. mas nunca contei à mamãe. meu primeiro namorado, mamãe no meu quarto à noite, o casamento, mamãe nas visitas depois da missa, meu marido se empurrando em mim. meu marido me culpando, você trabalha demais, e está sempre cansada, e não quer mesmo meu filho. o teste de gravidez, ele chorando, arrependido, eu amo você demais. 

parabéns, vocês vão ter uma menina, qual vai ser o nome? sabe, ele não escondeu de mim sua decepção de não ter um menino pra continuar sua linhagem. mas eu estava sensível, e chorava fácil, e ele comprava flores pra se desculpar quando gritava comigo. um dia, ele levou flores para meu trabalho. ele me levou num cantinho, me perguntou quando eu ia sair, pra cuidar da nossa filha.

de novo, ser uma mulher direita, tudo outra vez. cuidar dos filhos, fazer o almoço. você tem sorte, filha, sua geração tem a liberdade que não tive. um homem bom desses, vai lhe sustentar enquanto você se dedica à família. ora essa. dessa vez bati o pé. não o meu trabalho, já não bastasse ter parado de estudar depois que casei. não o meu trabalho, eu sou mãe, não quero deixar de ser pessoa por isso, nunca deixei.

que escândalo foi, você nem sabe. ou sabe, se você vê tudo. mas foi um escândalo. mamãe passou meses com vergonha de sair, vergonha de mim. mamãe, ninguém lhe aponta o dedo mais, já acharam outras coisas pra fofocar. todos já esqueceram a semana em que o marido daquela moça gritou com ela todas as noites, a pobre moça grávida, e depois disso a moça na porta, agora vai ter que cuidar da filha sozinha, agora vai ter mesmo que trabalhar. pronto. mas trabalhei mesmo, não vou dizer que não passei perrengue nenhum, sabe, foi difícil. e a lili segura barra comigo, eu já falei isso, não é?

eu te falei do nome da li? eu pus Lilith, decidi no hospital, lavada de suor do trabalho de parto ainda. quis homenagear a primeira esposa de Adão, a expulsa do paraíso. falam que ela foi a cobra que sussurrou no ouvido de Eva, mas sempre dão jeito da culpa ser da mulher, afinal. culpa de eva, minha culpa, culpa da li. ela tem meu sangue suado, nem precisou de mim pra entrar na escola. eu fui expulsa do paraíso também, um escândalo, perdeu o marido. mas não perdi meu trabalho, mesmo que só falassem disso por um tempo, escutei muito cochicho enquanto eu passava no corredor. eu estou lá até hoje, eu contei que meu chefe falou que finalmente ganho uma promoção, né. ele mencionou disso na reunião geral e levei mais uma pá de cochicho pra casa, olha ali ela, mãe solteira, não sei nem como trabalha e cuida da filha, deve largar a menina por aí. certeza que deu pro chefe, pra ganhar promoção assim.

ah, eles não sabem. não sabem o tanto que lutei, o tanto que superei, desde que fui aquela menina que aceitou casar por pressão da família, que à noite ouvia o marido trôpego passar na porta, que se encolhia com medo, fingindo dormir. e eu não deixo mais, não. só eu sei que minha promoção no trabalho vem acompanhada de piadinhas, três vezes mais atribuições, um aumento [não tão substancial quanto] o dos meu colegas e o direito de não reclamar. só eu sei o quão difícil foi aprender a amar e cuidar, sozinha, de alguém que já estava crescendo dentro de mim, antes que eu pudesse decidir o que queria. só eu sei. eu e você, só eu e a morte.

a senhora sabe, que a senhora sabe tudo, eu não aceito mais nada disso não. a senhora deve mesmo saber também de quando ele foi embora, e que enquanto minha mãe se escondia em casa de vergonha, eu me escondia procurando os rastros dele. eu, grávida, lembrando dele quando foi meu namorado, romântico, quando dizia que me iria me amar pra sempre. mas isso eu superei também, uma hora parei de verter lágrimas e decidi que minha filha, a Lili, a que eu nem queria ter, valia muito mais que isso. por ela, por mim, eu larguei de pensar em mim como coitada, dona morte, e levantei nesse dia, plena e dourada pra trabalhar. por nós eu aguento os cochichos, vou aguentar além. ô, dona, e nem vou mesmo, me esqueci, a senhora quer me levar.

[...]

nem vi, nem soube de mais nada, já tinha sumido, ela. o Saramago precisou fazer outro livro, da segunda greve da dona morte. disseram que ela deixou uma carta. nem sei, afinal, que é que sei. a vida é bonita assim, misteriosa.

[...]

Saramago,

vou fazer greve de novo. existiu mesmo, né, uma morte que não foi tão complacente. um morte. o senhor morte não perdoava. mas não ache que não sei.

no tempo do morte, só se morria à noite, que era pra de dia ter um descanso pra ele. fim de semana quem quer que tivesse infartado no hospital, aguardava o próximo dia útil pra ter a alma levada. mas morte mulher não tem descanso, e ainda escuta que a culpa é dela. não é minha a culpa não, só cumpro ordem. alguém precisa fechar os ciclos desse tanto de alma que corre, e eu até que gosto do meu serviço, mas é injusto esse mundo, ninguém me valoriza. hora extra por lamentação bem que poderia, mas não ganho, não. deixei tempo pra essa moça que conversou comigo, por agora, tem muito pra ensinar pra filha, pro mundo. mulher nasce e é treinada pra ter força a mais. sexo frágil, ora essa.

quem quiser que leve ela agora.  por enquanto, vou descansar. hoje, quem for mulher, que pare um pouco, sem medo de cair. tudo bem no mundo. depois volto.