Capítulo único

Olhares e Cicatrizes

Capítulo único

Não achei que esse dia chegaria. Nunca.

Não para mim, com certeza, tal espécie de monstro, repulsivo aos olhares alheios, que me tornei. Uma besta horrenda, muito prazer, para quem não me conhece. Minhas feições são mesmo distorcidas e retorcidas pelo efeito das chamas que inundaram e consumiram minha pele, minha carne. Mas são apenas cicatrizes. Marcas da vida, do incêndio, que permeiam todo o meu corpo.

Quanto aos que compõem o meu cotidiano, o olhar é diferente. Sai o espanto contido e entra a piedade explícita. Algumas pessoas crêem-se tão digníssimas do paraíso, quase da mesma natureza que o Divino, por sentirem pena de mim, que seria cômico se não fosse irritante.  Sou só um pobre monstrinho, oh!, uma vítima impotente do destino, um Quasímodo suburbano, desafortunado e infeliz.

Há ainda os que sequer me enxergam, os que fingem não me notar. As garotas, então, exalam nojo mal disfarçado. Talvez por isso eu tenha chegado a flertar com a morte e a desejar sinceramente a sua visita, ansiosamente...

Um par de olhos, porém, destacou-se em meio à multidão. E me fitou. Longamente. Arrancou-me da inércia, do coma de pensamentos sombrios.

Esses olhos seguem mirando-me, mesmo agora, enquanto ela caminha em minha direção, vestida toda de branco, segurando um punhado de flores nas mãos.

Realmente — realmente! — nunca achei que esse dia chegaria, o do meu casamento com a menina mais bonita.