O banquete

O banquete

O banquete

O banquete estava servido a céu aberto. Não havia lista de convidados. Sem qualquer cerimônia, os interessados poderiam chegar e se refestelar com aquelas iguarias, que, a seus olhos, ostentavam suculência e faziam com que suas bocas se inundassem de apetite. Uma ode à gula, o saboroso pecado capital.

No cardápio, ausência de formalismos. Tão assíduas em pomposos restaurantes onde se deliberam sobre negócios e negociatas e se gratificam com gorjetas e propinas, as regras ditatoriais da etiqueta foram extirpadas do menu como sobressalentes pelancas que o insensível açougueiro exclui das carnes de segunda laia.

Numa linguagem chula, o troço era simplesmente comer. O permitido abocanhara por completo o proibido. Valia tudo: lambuzar a boca; degustar o pedaço da carne que estava no prato de outrem; empreender um rodízio para que todos os sabores oferecidos lhes tocassem as papilas gustativas. Sem frescuras e sem guardanapos.

Havia carnes brancas, pardas, negras. De machos e de fêmeas. Todas de humanos. Humanos, que, com seus comportamentos de abutres, aviltaram a fertilidade, a flora, a fauna, a vida da Terra. E agora sucumbiam de fome, de sede, transformando-se em carniça e, consequentemente, sendo a cobiça e a comida de urubus.

O banquete estava posto a céu aberto. Bom apetite. Que essas aves de gosto deveras tétrico batam suas asas, pousem e comam. Que saboreiem os corpos e até as almas do prato principal. Raspem-no e, por fim, lambam seus bicos. A conta, por favor.