Ocupantes de Espaço

Ocupantes de Espaço

Ocupantes de Espaço

Abri a porta da sacada e observei um mundo meio morto lá fora.

É início da primavera, porém não parecem haver flores, apenas árvores secas e retorcidas. O chão de terra, fora substituído por asfalto, e a vida não consegue mais brotar. Os sorrisos nos rostos que passam são mecânicos. Não há tempo para sorrir com sinceridade: “Estou atrasado demais para fazer isso”. “Estou ocupado demais para fazer aquilo”; o tempo foi transformado em mercadoria. A vida passa e, segundo por segundo, é jogada fora.

Os fones de ouvido tomaram o lugar dos “bom dia”, tornando as ruas um lugar que só traz ruídos de motor e, de maneira lastimável, sons de pequenos corações que murcham no peito dessas pessoas solitárias que imergem entre as alamedas e becos.

Está chovendo em pleno dia de sol. É uma chuva ácida, corrosiva; e ela está dentro de nós, destruindo a pureza da vida, nos transformando em seres abomináveis, desprezíveis, vazios de sentimentos e consumistas de primeira; ricos de muitos “nadas”.

E assim, mais 24 horas se passam, e a rotina recomeça. E de novo. E de novo. Nunca muda. Nunca mudamos. E a cada dia, o coração do planeta Terra parte um pouquinho mais. Seu azul escurece, seu verde apodrece, suas cores estão tornando-se opacas, sem alegria nenhuma.

Somos seres vivos que não vivem vida alguma, simplesmente sobrevivemos. 

Nos tornamos meros ocupantes de espaço.

Fecho a porta. Às vezes dói estar consciente.