A bússola mágica

A bússola mágica

A bússola mágica

O ambiente estava em clima de festa. Era meu aniversário. Balões e presentes ajudavam a enfeitar a mesa do bolo. Todos os convidados estavam alegres, mas eu andava cabisbaixo e descontente. Já fazia dias que eu não dava um sorriso e nem sequer sabia o motivo se me perguntassem.

– Aqui está seu presente, querido. Seu pai que escolheu – minha mãe disse, entregando-me uma camisa listrada bastante deselegante.

Todos aplaudiram e gritaram “eh”.

– Cadê o sobrinho predileto da titia? Olha só o que a tia trouxe – minha tia disse, apertando minhas bochechas e me dando um bonequinho de luta.

Todos, mais uma vez, comemoraram.

Os presentes que estava ganhando podiam ser bonitos e escolhidos com carinho, no entanto, eu continuava infeliz. Meu avô, então, arrastou-me para um canto sossegado da casa e falou comigo em particular.

– Meu netinho, você já está tão crescido. E, agora que está completando 12 anos, acho que é o momento certo para te dar isso – disse, entregando-me uma bússola dourada – É uma bússola mágica; basta você lhe dizer onde está querendo ir e ela lhe dirá se você está longe ou perto.

Meu avô me deixou sozinho, admirando o presente. A festa acabou, os convidados foram embora, meus pais foram dormir. E eu continuava a observar a bússola.

No início da tarde seguinte, como em todos os outros inícios de tarde, voltava da escola. Tive, então, uma ideia que o diferenciou dos demais: decidi que demoraria um pouco mais para chegar em casa. Parei no começo da rua e tirei da mochila a bússola que ganhei, pois queria saber se certa coisa estava muito distante de onde eu morava.

– Bússola, sempre fui muito infeliz e nem sequer sei o motivo. Preciso saber se a felicidade mora muito longe de mim.

– Não... a felicidade está próxima! – a bússola respondeu.

Aquela resposta me animou um pouco. Agora, bastava apenas encontrar a casa onde a tal dona felicidade morava.

– Bússola, é aqui que mora a felicidade? – perguntei, parado em frente à primeira casa da rua.

– Não... é um pouco mais à frente!

De repente, chegou uma mulher de vestido com muitos babados e várias sacolas de compra.

– Olha quem está no portão da minha casa...

– ela disse. – Quem é você e o que deseja?

– Na verdade, estava procurando uma coisinha... mas acho que não está aqui.

– Engano seu, rapazinho. Está sim! Eu a guardei em algum lugar. Venha! Entre e vamos procurá-la.

Tentei me esquivar, mas ela me arrastou pelo braço para dentro de sua casa. Tudo para eu pegar uma coisa que nem sabia, ao certo, o que era.

Fui jogado numa poltrona, sendo obrigado a sentar, enquanto a mulher vasculhava uma caixa de papelão repleta de bugigangas.

– Oh, onde foi que eu coloquei? Sei que deve estar por aqui! Hum, não é isso... – e atirou uma laranja para trás. – Não é isso... – e atirou um bichinho de pelúcia. – Nossa, eu ainda tenho isso? – e atirou uma viseira. – Achei! – exclamou, pegando uma pena.

Ela cuidadosamente colocou a pena sobre minha orelha.

– Aí está sua pena perdida! Ela apareceu no meu quintal ontem e resolvi guardá-la até que o dono aparecesse procurando por ela. Vejo que fiz um bom trabalho! – ficou olhando para mim por algum tempo, mas logo desviou o olhar para seu braço sem relógio. – Oh, caramba! Já são dez pra qualquer coisa. É melhor você ir embora – e me empurrou até a saída. – Vá! Vá! E volte sempre que precisar!

Quanto a mim, que pena, só ganhei uma pena. Mas fui persistente e segui com minha busca pela felicidade.

– Bússola, é aqui que mora a felicidade? – perguntei, parado em frente à segunda casa da rua.

– Não... é um pouco mais à frente!

Decepcionado mais uma vez, tentei sair da frente da casa, mas fui impedido por um morador furioso, que saiu assim que me viu.

– Parado aí, mocinho! Sei muito bem que você foi enviado pelas autoridades para tirar o meu descanso. Confesse! Ou sofrerá as consequências.

– Não, senhor... eu só...

– Rá! Tentando me enganar, não é mesmo? Foi você quem pediu... Agora, será condenado à morte!

Nem tive tempo para explicações. Com toda a força que tinha, ele me empurrou para dentro de sua casa e, com uma bruta valentia, jogou e me amarrou na cadeira.

– Quais são suas últimas palavras, espião? – ele perguntou com uma das mãos em meu pescoço.

O susto foi tão grande que minha voz não saiu. E, sinceramente, se pudesse falar naquele momento, não saberia o que dizer.

– O que foi? Onde está sua língua?

– A língua dele está a menos de um metro, em direção ao sudeste – minha bússola respondeu.

O espanto do homem foi tanto que na mesma hora ele soltou o meu pescoço.

– Você não é um espião, não é mesmo? Você foi enviado por aquela louca da casa ao lado... – disse, enquanto me desamarrava. – Por favor, não me machuque! – falava de joelhos – Eu imploro!

– Tudo bem, mas... – fui interrompido outra vez.

– Muito obrigado pelo seu perdão. A porta está aberta.

Saindo, respirei aliviado. Estive bem perto da minha morte. Por sorte, minha bússola tinha como hobby salvar vidas. Ainda assim, pensava comigo “de que louca será que aquele homem estava falando?” Mas cheguei à conclusão de que era a mulher da primeira casa; ela era mais doida do que ele!

Deixando as dúvidas de lado, concentrei no principal objetivo: encontrar a felicidade.

– Bússola, é aqui que mora a felicidade? – perguntei, parado em frente à terceira casa da rua.

A bússola demorou um pouco para responder, como se estivesse fazendo um suspense.

– Não... é um pouco mais à frente!

Ainda triste, virei para continuar minha busca, mas fui impedido pela moça de voz extremamente alta.

– Eu sei que tem alguém aí, mas a campainha não precisa apertar! – disse de dentro de sua casa. – A porta está aberta. Pode entrar!

Fingi não escutar e tentei fugir enquanto ainda havia tempo, mas não obtive sucesso. Meus pés ficaram fixados no chão.

– Ora, ora, quem tentava ir embora... – a moça saía de sua casa voando em uma vassoura. – Está vendo só: se você passa por aqui e não toma nem um chazinho, as energias negativas bloqueiam seu caminho. Agora, entre, por favor! Vamos meditar com louvor!

– Não, moça...

– Não me chame de moça, pequeno caracol! Pode me chamar de Luna de Sangre... quer dizer “lua de sangue”, em espanhol – absolutamente tudo o que ela falava era feito com rimas.

Antes mesmo que eu pudesse emitir qualquer fonema, os fluidos e as energias do espaço cósmico me guiaram até a casa da moça... quero dizer, da Luna.

– Eu sou uma feiticeira do bem, não faço mal a ninguém – ela explicava entre muitas plantas e incensos -, mas, enfim, quem é que acredita em mim? Minha missão aqui na terra é abrir os chackras das pessoas para que elas possam absorver as energias boas. Mas não tenho sucesso nesse lugar; de ninguém consigo me aproximar...

– Mas... – nem precisei terminar a frase.

– Não, seu bobinho, não é isso que diz o mágico pergaminho. As energias só são fortes o suficiente para prender alguém, quando esse alguém perto da minha casa está. Você nem imagina como é poderoso o campo energético que ronda este lugar.

– Como... – outra pergunta que nem precisei terminar.

– Ah, guri... Sua mente eu li!

Luna foi até um dos vasos de planta, pegou duas xícaras que estavam próximas e virou-se novamente para mim.

– E então, chá de mato ou de bigode de gato? – e logo leu minha mente mais uma vez. – Não grila! Eu pego o de camomila! – e, mais uma vez, entrou no meu cérebro. – Tudo bem, se não quiser ficar, saia pela porta do lado! Mas, depois, não reclame que está com mau-olhado.

E, fazendo gestos de bruxa, me arrastou à base de feitiços para fora de sua casa.

Cheguei a pensar que minha infelicidade pudesse, realmente, ser causada por carmas negativos, mas não seria possível; eu nunca acreditei nessas coisas.

Quase chorando e desistindo de tudo, sentei na guia da calçada, em frente à última casa da rua. Passei por tantas maluquices e perigos, e conheci vizinhos que jamais imaginei que eram tão doidos. Não queria mais arriscar minha vida. Resolvi que jogaria a bússola fora e esqueceria esse negócio de ser feliz.

Tirando a pena de trás da minha orelha, juntei com a bússola e as coloquei sobre a água que descia pela sarjeta. Vendo os objetos sendo levados, deixei uma gota de lágrima cair, pois sabia que, junto com eles, ia também a minha esperança de sorrir de novo.

– É aqui que mora a felicidade? – falei, com ar de ironia, chacoteando a mim mesmo.

Mesmo tendo certeza de que a felicidade morava a milhares e milhares de distância, cheguei a ouvir as últimas palavras da bússola, que, lentamente, era arrastada até o esgoto.

– Sim... é aí mesmo!

Levei um rápido susto. Contorci todo para pegar a bússola de volta, mas era tarde demais. Tanto ela como a pena caíram no bueiro. Então, com um início de sorriso nos lábios, enxuguei as lágrimas.

– Finalmente poderei conhecer a casa da dona felicidade. Saberei como são os móveis, a cor das paredes... e, é claro, pedirei a ela um pouco de alegria.

Sem poder esperar nem mais um minuto, entrei correndo na casa. E, para minha surpresa...

– Olá, filho! Que bom que você chegou. O almoço está na mesa!

...aquela era a minha casa.