Os pecados do Bom Perdão

Os pecados do Bom Perdão

Os pecados do Bom Perdão

Um, dois e três assovios curtos à porta de José. Ele e a filha brincam sobre as tábuas emparelhadas que formam o desnivelado piso do barraco, esgotam a energia para que o bocejo de sono seja maior do que a careta da fome.

Quatro, cinco e seis assovios longos e impacientes. Alguns cães vadios ladram, única resposta ao chamado, mas é só quando Letícia adormece nos seus braços, que José acomoda-a entre lençóis encardidos e apanha as ferramentas ao lado da porta antes de sair à rua. O traiçoeiro calor da noite açoita sua pele rachada e abre fendas na terra por onde ele pisa.

— Só não fui embora porque você está com todas as ferramentas — cumprimenta Reinaldo.

José afivela o equipamento ao cavalo do parceiro e monta sem muita prática, arrancando um riso frouxo de Reinaldo. Nada que envergonhe, pois quem vive faminto não tem um cavalo em casa, e locomove-se de qualquer jeito para chegar ao dia seguinte.

— E melhore essa cara de morto-vivo quando passarmos pela vila — Reinaldo cochicha sobre o ombro — nós vamos fazer um saque, no cemitério, e não um depósito.

José ignora-o e se distrai com as galopadas através da escuridão, onde não se distingue a lama da bosta. Alcançam a vila após arrastados minutos de silêncio, a penumbra dançarina entre as fachadas iluminadas pelos postes recém-instalados. Desenvolvimento tardio, mas muito à frente de onde José, Reinaldo e tantos outros foram enxotados para viver. E sobreviver.

Até poucos anos atrás, o cemitério jazia colina acima com cruzes pouco enfeitadas e sepulcros improvisados em um terreno cinza, infértil. Os moradores arrendados decidiram, então, mover os restos mortais dos entes queridos para uma área plana e verdejante, onde mausoléus adornados acolhessem o repouso eterno de todos. José se lembra do cortejo fúnebre para o novo cemitério, o cheiro de morte penetrando nos poros e carregado até os pulmões. Pagaram míseras moedas a ele e a tantos desempregados pelo transporte dos defuntos enquanto os próprios familiares dos finados cobriam seus narizes esnobes, acompanhando-os à distância.

As luzes da vila ficam para trás, a noite devora José e Reinaldo novamente. Cavalgam pela trilha podada e florida até o cemitério, com as ferramentas tilintando no alforje.

— Certeza de que não há ninguém aqui? — sussurra José, enfim dando voz às suas aflições.

— O segurança adoeceu e não há ninguém para substituí-lo. E você sabe que não confiam mais nos mortos-vivos. Nem mesmo para cuidar dos mortos.

Rédeas abraçam com firmeza o tronco de uma árvore, e a dupla deixa o cavalo para trás, silhuetas fantasmagóricas deslizando pela relva. Mortos-vivos, José relembra o apelido que a vila deu às pessoas como ele e o parceiro. Desenha a palavra com os lábios desidratados, a língua presa entre os dentes. Humor duvidoso para nomear a inclemência da desapropriação.

Ultrapassam a murada com destreza e em silêncio para não acordar os vivos e incomodar os mortos. Reinaldo à frente, serpenteando as tumbas de pedra, os aromas florais e a paz perpétua, enquanto José equilibra as ferramentas em passos incertos, logo atrás.

— Aqui — Reinaldo aponta para uma cova simplória.

— Por que não aquele mausoléu enorme? — retruca José. — Melhor arrombar um cadeado do que cavar um buraco no meio da noite.

O sorriso de Reinaldo é poliglota, faz-se compreendido no mundo inteiro com suas covinhas insinuantes, dentes irregulares parcialmente visíveis e os olhos mirando o alvo de cima a baixo com superioridade, desdém. Difícil provação para a paciência de José.

— Quem gasta muito com mausoléu não deixa nada para o defunto. Eu quero aqueles que enchem os bolsos e deixam o caixão pesado, meu amigo — explica, e até faz sentido. O problema é o sorriso, o maldito sorriso que não se desfaz mesmo quando José já se põe a trabalhar, a pá e a enxada abrindo caminho contra a terra com força desproporcional.

Bolhas sobre calos, pele morta em camadas derrapam as mãos sobre a ferramenta. Abrir uma cova exige tempo, o que eles não têm de sobra, e perícia. Isso eles compensam nutrindo suas respectivas necessidades.

José só pensa em Letícia. Letícia com fome, Letícia insone, Letícia com dificuldade de aprendizado. Os olhos duas esferas suplicantes e ele, o pai, impotente. Só assim para desenterrar a coragem de afundar as mãos nos bolsos de paletós e calças suspensos em ossadas anêmicas, colher notas e moedas em bolsas de couro e remover joias e acessórios de orelhas, pulsos e pescoços decompostos.

Toma para si um colar, capricho para o próximo aniversário da filha, e arremessa a pesada sacola de furtos para Reinaldo, que acompanha tudo à beira da cova. A profunda necrópole exposta como uma ferida, e eles as bactérias famintas que se convidam para o banquete.

José estende o braço para que o comparsa catapulte-o para fora da galeria. Ele descansaria e Reinaldo teria tempo de assumir a força de trabalho no próximo túmulo. Quando seus dedos se tocam um tiro ressoa na noite, acompanhado de latidos mais e mais próximos.

— Quem está aí? — o grito alcança-os em tom de denúncia e incriminação. José se imagina na cadeia, a filha aos ventos, e só então vê a mão do colega retrair e ouve os alarmantes passos distantes, indicando que ele se escafedeu para longe dali.

Sangue, terra e pedra na ponta dos dedos e sob as unhas gastas. José escala os jazigos com o desespero pulsante no peito. Nem percebe as lacerações nos joelhos, punhos e cotovelos enquanto emerge, aos farrapos, da cova. Dispara na direção contrária dos tiros e latidos, embrenhando-se na densa mata que circunda o cemitério. Ziguezagueia árvores ásperas, cruza troncos tombados e abre caminho com o corpo afoito através de folhagens ressecadas. Perdido, ele se empoleira em galhos altos, e camufla-se mais pertinho das estrelas até adormecer, exausto. A lua à espreita, sombreada por brancas nuvens.

                                                                                                                        *****

Desperta de um sonho bom, Letícia experimentando seu presente de aniversário enquanto aguardam o garçom com a sobremesa. Até acostumar-se com a claridade, os olhos de José ainda miram o sorriso de felicidade da filha, e então lembra-se onde está, agarrado a um tronco robusto, as pernas entrelaçadas nos galhos mais finos. Não ouve mais os passos no seu encalço, a brisa da alvorada sopra-lhe as boas novas de um novo dia, e ele desce com cautela.

O mato alto dificulta sua orientação, mas segue em ritmo acelerado até encontrar uma estrada vicinal. À beira da trilha de terra um rastro de sangue chama sua atenção, e leva-o a uma armadilha poucos metros à frente, os dentes metálicos unidos em uma mordida mortífera. A pata de um coiote, roída até se desprender do resto do corpo, espanta José, que também segue o seu caminho de sobrevivência, atento a armadilhas e margeando o sol da matina.

Após horas de caminhada ele se depara com um comerciante. A tenda estendida nos limites da trilha, sobre o ralo matagal, tem de tudo. Frascos finos e altos, inchados e estreitos, óleos, cremes, pomadas e uma infinidade de cores, texturas e rótulos que José nunca viu na vida.

— Mas que grande sorte, um cliente! — o homem se ilumina ao reparar no ambulante coxo que se aproxima. — Venha, nobre criatura, o que posso fazer por você?

— Direção, só isso — José cospe com o fôlego fadigado, as escoriações atraindo insetos curiosos ao redor do corpo. — Para que lado fica a vila do Bom Perdão?

— Sempre em frente, amigo. Pois o destino é a etapa mais fácil da jornada. Temos que aprender, apenas, o melhor caminho para chegar até ele.

— Está bem, obrigado — José se afasta, desafeto a qualquer mensagem cifrada de superação, mas o faustoso comerciante interpela seu caminho.

Enrola as pontas dos finos bigodes e sorri com todos os dentes à mostra. Tem carisma, e não o ranço estampado no rosto de Reinaldo, e que José vinha amaldiçoando desde a noite anterior.

— Meu amigo, eu tenho o poder de fazer mais por você, certamente. Posso dizer, pelos seus machucados, que você precisa de uma boa dose de redenção, não concorda?

— Nunca te vi por aqui antes — José responde. Aprendeu ainda cedo que amabilidade demais também é veneno para o corpo e a alma.

— Simples, meu caro. Eu estou onde sou necessário. Agora, se me permite a ousadia, do que estamos falando? — pergunta, e aponta para as escoriações inflamadas, o sangue endurecido sobre a pele fendida. — Vingança? Traição? Um castigo leve, moderado ou definitivo?

Olhos expressivos de desconfiança miram o comerciante, que não deixa o sorriso tremular. — Isso tudo que você falou — José enfim baixa a guarda.

— Mais grave do que pensei — compadece o negociante. — Para que servem as nossas leis se elas convêm apenas a quem pode arcar com o preço da justiça? Às vezes, somos forçados a trilhar um percurso à margem para legitimarmos os nossos direitos. O caminho é o que importa, meu amigo, e não o destino.

Que figura mais curiosa, José pensa, vendo o comerciante selecionar botelhas, frascos, recipientes e cápsulas com cuidado, como quem escolhe a roupa para uma ocasião especial.

— Tenho aqui a sua justiça. Eu chamo de loção da infelicidade. Uma gotinha na bebida da pessoa homenageada, e ela é tomada por uma angústia profunda, tormenta insistente que vai martelar os traumas superados e não cicatrizados até que uma saída só pulse no pensar.

— Que saída é essa? — pergunta José, audiência cativa para o vendedor destilar sua lábia.

— Suicídio, meu amigo — e complementa, após sua encenada pausa dramática. — A desistência da vida por conta própria. E as substâncias aqui contidas não podem ser rastreadas por nenhum exame aplicado pela lei. O crime perfeito não deixa suspeitas, já ouviu falar?

Desconfie, clama o inconsciente de José, já absorto nas possibilidades que o produto traria em sua vida, e na de Letícia. — E quanto custa a poção?

— A loção, meu caro, tem um preço, pois assim são as coisas. Mas, veja só, o corpo de um pobre comerciante como este que vos fala já não carrega tendas e produtos para lá e para cá com a mesma vitalidade. Um cavalo viria bem a calhar. Troca justa, de benefícios múltiplos. E, de boa fé, adianto que só aceito o pagamento após solucionado o seu problema. O que acha?

Naquele mesmo dia, quando o sino da igreja do Bom Perdão anunciou doze badaladas com o sol a pino, José atravessou a vila com um colar furtado em um dos bolsos, a loção milagrosa em outro e a fome latente no estômago. Caminhou, colina acima, para onde já foi um cemitério e, hoje, ele chama de lar.

                                                                                                                        *****

Os dias são longos para os mortos-vivos. Desempregados, párias e todo tipo de indigente encontra destino naquela terra parda, que não permite o cultivo de nada além da miséria. São errantes, sem saber o significado, e são também infelizes. Isso eles sabem, porque, assim como os mortos, eles não têm a capacidade de sonhar.

Após a transferência do cemitério para um local mais conveniente, os residentes da vila identificaram novos obstáculos ao padrão de vida almejado. Investiram em sistemas de esgoto, em um poço artesiano, na revitalização da praça e em um novo sino e em pintura fresca para a igreja. Bom Perdão reluziu, triunfante, em um arco de pedras na entrada da vila.

Isso gerou um substancial aumento no custo de vida, e os trocados que José e tantos outros esmolavam para somar suas rendas mensais já não pagavam por nada em Bom Perdão, impelindo-os para longe. Ainda vivos, mas impelidos em marcha lenta até o antigo cemitério, onde restavam cruzes tortas, um lamaçal de terra revolvida, o aroma perpétuo de extinção da vida e deliciosas relíquias arqueológicas para serem roídas pelas bocarras vorazes dos cães. Muitos pecados ainda a sete palmos do chão e, agora, também na superfície.

Mortos-vivos, José cospe na terra enquanto procura pelo famigerado sorriso de Reinaldo entre tantos rostos sujos e condenados. Encontra-o ao redor de uma fogueira morna, em silêncio com outros mortos-vivos, e sente doer no próprio caráter por considerá-los dessa maneira.

— O que você pensa que está fazendo? — confronta-o, e Reinaldo retribui o olhar com curiosa morbidez.

— Esperando a poeira baixar com uma cachaça das boas. Fico feliz que esteja bem.

— Eu devia arrancar o seu couro, isso sim, mas só quero a minha parte, Reinaldo. Só isso.

— Relaxe, homem. Como eu vou dar uma parte de algo que nem temos ainda? Olha só, eu fiz o necessário para sobreviver. Você faria o mesmo. Sem mágoas, certo?

José não faria o mesmo, e Reinaldo sabe. Mortos-vivos, talvez, mas cheios de diferenças. Um rouba por necessidade e, o outro, por maldade. José tem Letícia. Reinaldo, um cavalo.

— Tome, um golinho vai aquecer o seu coração. Aproveite, eu preciso mijar — o sorriso ganha volume e contornos no rosto de Reinaldo, que estende a garrafa de cachaça para o colega.

Nada adquire sustento nesse lugarejo pantanoso. Os casebres empenam com a ventania, se desfazem com tempestades. E as relações humanas são breves, necessárias, nunca opcionais, o que facilitou a decisão em verter uma, duas e três gotas na cachaça. Não faria diferença, no fim das contas, se a milagrosa loção fosse apenas um frasco pomposo com água do riacho.

De volta às chamas de pouco calor e conforto, Reinaldo retoma a garrafa e serve-se de um longo gole. Foram os sessenta minutos mais longos da vida de José, em tediosa observação. Garrafa na mão, o crepitar minguado da fogueira refletido nos olhos da vítima. Incômoda quietude rascunhada nos movimentos e nas expressões, até levantar-se e rumar para sua casa, indiferente a tudo e todos. José segue-o, estupefato.

Posiciona-se entre frestas largas do barraco, e segue um silencioso espectador macabro do espetáculo que tem início quando as mãos de Reinaldo apertam, com firmeza, um garfo deixado sobre a bancada improvisada de madeira. Como se pertencesse a um secular ritual de sacrifício, ele ergue o utensílio e finca-o na barriga múltiplas vezes. José mantém contato visual com o olhar já desvanecido do suicida, insensível às estocadas no ventre até abandonar o corpo de vez. Sua expressão taciturna imortalizada em um sorriso quase cordial.

Pouco tempo após a morte de Reinaldo, quando o frescor do óbito se sobrepõe à natural putrefação que paira sobre o povoado, os mortos-vivos catam o corpo e desovam em uma vala aberta e funda, alguns metros além dos casebres. Não fazem perguntas, lidam com a situação. E o comerciante preocupado com os vestígios que a loção deixaria no organismo de Reinaldo.

Urubus sobrevoam a cova, circulam a carne desprovida de alma e humanidade, enquanto as pessoas fazem o cerco nos espólios dos falecidos com o mesmo apetite que as aves. Pilham os alimentos, deitam em suas camas, levam suas roupas, saqueiam os seus roubos. José, que também conhece a rotina de luto dos miseráveis, já havia tomado o cavalo pelas rédeas, acomodando-o ao lado de sua residência. Trato feito, trato cumprido.

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Letícia fez birra quando soube que o cavalo teria uma estadia passageira com eles, mas a ausência de posse era tão presente na vida da menina, que a perda era vista com naturalidade.

— Não quer mesmo dar um nome para ele?

— Cavalo está bom — responde, enquanto se distrai com as duas fatias de pão amanhecido transformadas em almoço e brinca com trapos flácidos e coloridos que, para ela, são bonecas. Nomes são meros atestados de aquisição que eles não estavam acostumados.

Aptidão para cavaleiro José nunca teve, mas o tempo é generoso com os praticantes. E ele dispôs de muitos crepúsculos e auroras em rápidos galopes, todos eles ritmados pelo corpulento badalar da igreja do Bom Perdão para procurar o misterioso comerciante.

Não encontrou-o na vila, nos arredores, próximo ao cemitério (o novo e o antigo) e nem sinal de sua presença na trilha onde negociaram o preço da valiosa loção. Tão repentina quanto sua presença foi sentido o seu sumiço. E José com uma boca a mais para alimentar, agora.

Só que o cavalo se mostrou uma versátil fonte de renda. Alugava-o aos vizinhos, para serviços rápidos, por um preço justo. Tinha comida à mesa e, pela primeira vez em muito tempo, o ronco sonolento de José foi maior do que as trovoadas queixosas do seu estômago. Meses após o incidente suicida, ele fazia de tudo com o cavalo, exceto procurar pelo comerciante.

Tudo tem um preço, pois assim são as coisas havia dito o vendedor. Tempos de paz amansam o ímpeto de urgência e José ainda devia pelas conquistas e recentes aquisições, mas as tragédias costumam ser um santo remédio para compreendermos o valor da perda e o significado de nossas pendências.

Fazia calor naquela tarde. Os casebres todos de portas abertas para convidar qualquer sopro de frescor a entrar nas humildes residências. Mesmo que o vento, ali, exalasse um desagradável aroma, como se os mortos tivessem se mudado e deixado seus odores para trás. E foi assim que José voltou de mais um dia de esforçado trabalho, deparando-se com a filha prostrada na soleira da porta. O brilho do colar que ela ganhara, no último mês, contrastava com o olhar fosco que José só havia encontrado nos olhos de Reinaldo.

Afastou a filha do caminho e avançou em linha reta até as suas calças e jaqueta. Tateou os bolsos, em busca do frasco, e só distinguiu uma ou duas moedas entre as saliências de suas roupas. Sobre a pia, o frasco da milagrosa loção reluzia o âmbar do seu ameno tom. O que restava do líquido denunciava que a imaginação e os sonhos podem ter abandonado a infância de Letícia, mas a sua curiosidade havia sido saciada.

Sessenta minutos, foi o único pensamento que José transmitiu e rebobinou em sua mente quando a igreja, tão distante, ecoou seis longas baladas. Guardou o frasco no bolso e enrolou a inexpressiva Letícia em lençóis para evitar qualquer tipo de incidente. A corrente do colar se partiu, com sua justificada pressa, e ele manteve-a nos punhos cerrados ao galopar todo esbaforido para a vila do Bom Perdão.

Não sabia há quanto tempo a filha ingeriu a loção, mas depositou suas esperanças na contenção ajambrada que fizera com o jogo de cama. Tinha o prazo contado até que o sino da igreja notificasse a hora seguinte, com sete badaladas, para descobrir algo, qualquer coisa, sobre o comerciante antes de sua pequena ser dominada por impulsos... Não se permitiu finalizar o pensamento.

Abordou os moradores do Bom Perdão com pouco tato. Soma-se a isso sua aparência pouco apresentável para as cordialidades sociais local, e o resultado foi decepcionante. Deixavam José falando sozinho, com o seu desespero inconcluso no meio de um apelo de socorro, seguiam na direção oposta à dele e entravam às pressas em qualquer loja, só para fugir do desmiolado lunático em prantos, ameaçando a paz da vila.

Quando abordou um senhor de idade avançada pelo colarinho aprumado, uma ponta de esperança cintilou no olhar de José, mas teve a mesma duração de um bocejo com o que o homem disse em resposta ao desespero do morto-vivo:

— Onde você conseguiu esse colar que está na sua mão? — indagou com toda a revolta que sentira, adormecida, desde que violaram o simplório túmulo de sua família, meses atrás.

José se afasta, confuso, impreciso sobre o que está acontecendo, mal se recordando de que o colar pertenceu — pertencia — a alguém de Bom Perdão. Vítimas, cada uma com o seu crime engasgado na goela, frente a frente.

— Você é o facínora que profanou o descanso dos seus ancestrais? — agora é o homem quem avança na direção de José, os punhos firmes em sua camisa gasta.

— Minha filha... Você não entende... — José tenta desvencilhar-se do aperto, busca apoio na multidão que começa a circundar o alvoroço. — Ela não tem muito tempo!

— Nós é que não temos tempo para as suas mentiras, ladrão! Estamos cansados desses mortos-vivos virem até aqui e usurparem o que julgam ter direito de reclamar para vocês!

O discurso inflama, contagia, epidemia até então incubada na corrente sanguínea dos habitantes locais, e que se manifesta em um dos mais naturais sintomas humanos, a raiva.

Cercado, o trêmulo morto-vivo se torna alvo fácil de murros, pontapés, puxões e beliscões. Cravam as unhas em sua pele, arrancam-lhe os cabelos e rasgam o fino tecido que cobre o seu corpo débil e de ossos aparentes. José nem se defende ou busca refúgio, só acomoda o corpo no calçamento para ficar de olho no relógio da igreja, lá no alto, inclemente.

Uma badalada

E acertam-lhe um soco no nariz.

Duas badaladas

Arrastam-no para o meio da praça, à sombra da torre da igreja.

Três badaladas

Mais cidadãos embarcam no linchamento, buscam espaço no cerco apertado. A vila faz fila.

Quatro badaladas

A consciência é uma centelha que vai e vem no olhar perdido de José.

Cinco badaladas

Os socos perdem o ritmo, a frequência e a força. A justiça é um instrumento cansativo para os cidadãos da vila do Bom Perdão.

Seis badaladas

Abrem alas, deixando um corpo disforme e em discretas convulsões, abandonado na praça.

Sete badaladas

José, mais morto do que vivo, naquele instante, permanece um trapo de gente, virado para o céu. Nuvens negras se aproximam com pressa, e logo as primeiras gotas de chuva se misturam às lágrimas que deslizam pelo seu rosto todo machucado.

                                                                                                                        *****

— Um milagre! — José se admira para ninguém, olhando para o nada. O sorriso com menos dentes aparentes, tudo porque o frasco de loção da infelicidade sobreviveu à punição. Os ponteiros do relógio catedrático apontam oito horas, a tempestade castiga a vila. Agora mais vivo do que morto, José avança para o poço artesiano que abastece toda a água de Bom Perdão. Manco, ele se esgueira pelas sombras sem olhar na direção do povoado, onde sua residência permanece de portas abertas e nenhuma luz acesa.

Há muitos anos José já teve pai, mãe e uma mãe para Letícia. Todos se foram, ele sempre deixando um pedaço de si a cada armadilha da vida superada. Um pouco parecido com a pata de coiote que ele se deparou antes de encontrar com o misterioso mercador. E, assim como a fera acuada, José sentia que deixara frações demais para trás. Ficam algumas lembranças, momentos fugidios que flutuam e naufragam na efemeridade arisca da memória. Uma delas vem bem a calhar no momento em que José, moribundo, analisa o poço artesiano da vila.

Incisão pequenina, cirúrgica, no tubo de revestimento que suga milhares de litros de água todos os dias para as amenidades dos cidadãos locais. Em seguida, José despeja, gota a gota, a loção de infelicidade. A voz teatral do comerciante ecoa em suas embaralhadas recordações: uma gotinha, e a pessoa é tomada por uma angústia profunda.

A desistência da vida, ele havia dito. A tempestade insiste em lamentar-se às cargas torrenciais, pesarosa sobre a vila, enquanto José encontra o meio definitivo para aplacar a sua sede de vingança, tornando Bom Perdão em um deserto desolado, sedento por morte.

Assim que a última gota se debruça sobre o gargalo, lentamente escorregadia até desembocar no tubo de revestimento, José regressa para o lar. Não se importa em olhar para o relógio ou contar as badaladas que ecoam por todo o vale enquanto ele sobe a colina pela última vez.

                                                                                                                        *****

José está parado diante de sua casa, ensopado pela insistente chuva que esvoaça furiosa. Tem medo de aproximar-se um centímetro a mais e descobrir que um de seus palpites estava certo, e que essa visão sem volta vai acompanhá-lo pelo resto de sua sobrevivência. Optou por velar os pezinhos visíveis de Letícia à distância, através da porta entreaberta.

— Uma pena, ela mordeu a língua e sufocou no próprio sangue — uma voz familiar atinge-lhe pelas costas, como se tivesse lido seus pensamentos. Um tom afetado, ensaiado, e que José procurou à exaustão nos últimos meses.

Guarda-chuva aberto, um halo chuvoso escorrega pelas extremidades do artefato e faz ciranda ao redor do comerciante, que entorta os bigodes com a mão livre. Está a alguns metros de José, os sapatos brancos imaculados mesmo com o lamaçal agitado entre eles. Nenhum morto-vivo se atreve a sair dos casebres. Os abrigos já derrubados pelo vento ou pela chuva se espalham como as cartas de um baralho perdido.

— Quem é você? — José pergunta, joelhos submersos em camadas de terra.

— Eu? Simplesmente, um instrumento capaz de nutrir os seus anseios mais profundos, José.

Soluços intermitentes tomam o fôlego de José, ainda prostrado como se rezasse para a tempestade. — Eu procurei por você, tinha o seu cavalo.

— José, José — o vendedor mantém o sorriso receptivo, mas, agora, os dentes mais se assemelham a presas. — Lembra-se do que eu disse? Esqueça o destino, pense na jornada.

— Você planejou isso.

— Oras, vamos! Diga-me, até quando você vai culpar os outros? Pois eu não me lembro de vê-lo procurar por um lugar melhor para viver, por exemplo. Os pequenos roubos, as tumbas violadas, um suicídio em massa... Eu não poderia arquitetar isso por conta própria.

Cabeça baixa e ombros arqueados, mesmo se as palavras ecoadas soassem incorretas, José era só um esboço de reação, um poço fundo, seco e espoliado de inexistência, naquele momento.

— Minha filha tinha fome — balbucia, enfim.

— Sim, tinha. E depois vocês tiveram um cavalo, almoço e jantar. Por que continuou com a loção que eu gentilmente ofereci, quando já tinha tudo o que queria?

José não sabia.

— Ah, mas você sabe, José. Veja bem, não escolho meus clientes aleatoriamente. Eu estou onde sou necessário. E você precisava de mim, mas queria mais. Vocês sempre querem mais.

— Não entendo — José se limita a dizer, quase afogado em mágoa.

— Vocês esnobes, mortos-vivos... Tudo igual por dentro, corruptos e gananciosos. Uma árvore frutífera infestada de parasitas bípedes que falam, desejam, tomam posse e matam. Agora, você consegue mensurar o peso da sua alma neste exato instante? Isso é culpa, arrependimento, mágoa, raiva... Mas, não me leve a mal, é exatamente isso que me alimenta e me motiva a seguir trabalhando.

O tufão que sacode toda a área leva, por fim, o casebre de José abaixo. Um estrondoso e impiedoso desfecho para um homem que queria tão pouco e perdeu tudo.

— Agora, meu caro, você vai entender o real significado de ser um morto-vivo.

O vendedor se afasta de José a passos curtos. A lama movediça absorve as construções abatidas, a chuva pressiona-as para o fundo, e José se deixa levar junto. Sua alma pesa, adiposa, pecaminosa e a gravidade faz o resto. Um morto-vivo sepultado em um cemitério abandonado. Pareceu-lhe correto o suficiente.

Dias depois, Bom Perdão amanhece com o sabor do orvalho engasgado, sufocado pela densa atmosfera que desce a colina, mas também ofuscado pela abundância de corpos sem vida em suas ruas e residências. Mortos são mortos, independentemente da resolução escolhida, mas os métodos surpreendem o comerciante, que transita pela minúscula vila com ar de turista.

— Um belo trabalho, José — admira-se com a satisfação perene.

Ele só lamenta que esteja passando tempo demais com esses conflitos mundanos. Sente-se contagiado pela brevidade de uma conquista, não degusta a suculência dessas situações por mais do que alguns minutos. Sua alegria se desfaz, seduzida pelo alerta do olfato predatório que eriça os pelos dos braços, dilata as pupilas. O comerciante dribla a pilha de mortos à procura de tamanha angústia que exala como perfume que flutua com delicadeza. Logo esbarra com uma mulher de meia-idade soluçando em silêncio. Carrega, nos braços, o peso de duas crianças frouxas como bonecos esparramados. Um copo d’água, meio vazio, à sua frente.

— Eu não beberia essa água se fosse você, querida — aproxima-se com a cautela de um paramédico. — Na verdade, tenho comigo a solução para a sua tormenta. Concede-me um minutinho para ouvir a minha proposta?

Com todos os dentes à mostra e as pontas dos bigodes impecáveis, o vendedor sabe que está exatamente onde deveria estar.