Aqueles dias, aquelas noites

Aqueles dias, aquelas noites

Aqueles dias, aquelas noites

Loucos dias, aqueles. Muitas vezes ela sentia o impulso de correr ou dançar pelas ruas, estava plena de música, paixão e poesia, já não cabia mais em si. As palavras ou sons vinham à sua mente enquanto caminhava, ela procurava memorizá-los para passá-los para o papel mais tarde. Chegando à sala de aula ela escrevia páginas e mais páginas de incoerências, palavras que eram como o vento e que expressavam o que se passava em sua alma.

Dourados fins de tarde, em que ela sentia-se feliz, plena. Manhãs em que ela escutava incontáveis canções e chorava. Tardes em que ela jazia inerte sobre o sofá, escutando músicas tristes, tomando um pouco de vinho e olhando para o telefone, que nunca tocava.

Em certas noites ela não conseguia dormir. Pensava no rapaz que estaria em algum lugar qualquer naquela mesma cidade, sentia-se tomada pela ternura, ardia de ciúmes, escutava música, vagava pela casa vazia e às escuras, bebia um pouco de Martini ou um pouco de café, escrevia mais disparates ou cartas que nunca iría enviar, achava-se de certa maneira boêmia, sentia vontade de telefonar para ele, não telefonava, sonhava semi-consciente… Exaltava-se e sofria em sua solidão. Só conseguia adormecer quando estava amanhecendo.

A garota o percebia em outros rapazes morenos e magros, em muitas canções, em filmes a respeito de homens intensos, aparentemente felizes e, no íntimo, indescritivelmente tristes.

Ela não temia a noite. Certa vez foi a um café sozinha, onde tomou um capuccino e leu mais algumas páginas de “Poeira”, de Rosamond Lehmamn. Ninguém foi falar com ela, a sua tranquilidade não foi perturbada. Enquanto caminhava em direção ao cinema, ela olhou o tempo todo para o céu, para a lua – lua cheia, envolta por um anel de luz dourada. E emanava poesia das lâmpadas que iluminavam a avenida…

Em outra noite ela foi até um banco que ficava em frente a um bar porque aquele lugar lembrava a ela toda uma época – o que ela havia dito sobre aquele amor a uma amiga que estava em um país distante, o grupo de amigos, o rapaz de sobretudo que tocava saxofone, muito cheio de si…

A menina assistiu a um certo filme várias vezes. Aquele filme era lírico e a tocou muito. Ao sair do cinema as luzes, as cores pareciam mais brilhantes e intensas, como ela mesma.

Ela desiludiu-se, aquele amor acabou. E ela não sabia se voltaria a sentir-se daquela maneira novamente. Mas é claro que ela voltou a se apaixonar. E a poesia entrou e saiu de sua vida... Ela aprendeu a procurá-la quando parecia desvanecer… E sempre a reencontrou.