O Desafio

As Duas Faces da Noite

O Desafio

Centro de São Paulo, sexta-feira, dez minutos para meia-noite. Na cidade noturna, era cedo para os jovens que saíam para se divertir nos muitos bares e boates que ficavam abertos até tarde. Mas, entre esses garotos e garotas apaixonados pela noite, moviam-se outras criaturas, criaturas parecidas com eles, jovens, belos e atraentes, mas cuja sobrevivência dependia das horas escuras.

Os Filhos da Noite, como se autointitulavam, dividiam-se em dois grupos distintos: os bebedores de sangue e os lobos, mas havia diversas facções dentro de ambos. As duas espécies eram rivais e havia apenas uma regra que compartilhavam: não caçar em território alheio. A pena poderia ser a morte. Os grupos se odiavam e, desde que houvesse uma ofensa, haveria briga e derramamento de sangue.

Havia provocações e pequenos conflitos aqui e ali, mas algumas criaturas preferiam se manter afastadas de encrencas. Ben era uma dessas, um vampiro recém-criado, ainda frágil que não estava a fim de se arriscar por bobagens. Àquela noite, no entanto, ia agir de forma diferente. É claro que aquilo fora ideia de Max. Seu irmão de sangue, ao contrário dele, parecia sentir uma estranha atração pelo perigo.

            “Vai haver um Desafio”, dissera Max. “O Igor desafiou um dos lobos a escalar o Mirante do Vale.”

            O Mirante do Vale era o prédio mais alto de São Paulo. Ben sabia que não houvera um desafio direto. Igor, o vampiro mais vaidoso da gangue dos Anjos Caídos, espalhara a notícia de que ia realizar o feito. Ao saber disso, um dos lobos (provavelmente o mais vaidoso deles) decidira mostrar que era capaz de chegar ao topo mais rápido que o vampiro. Para Ben, tratava-se de uma competição idiota e despropositada. Max insistia que ele fosse. Ele negou irredutivelmente, até saber que o lobo que ia medir forças com Igor era Alan.

Como os outros de sua espécie, Ben não gostava dos lobos e não os via com frequência, mas, certa vez, ao passar pela Alameda Olga, em companhia de Max e outros vampiros, ele viu um grupo de lobos. Soube o que eram por seu cheiro, que não se parecia com o dos humanos, e os vampiros não exalavam odores. Barra Funda fazia parte do território dos vampiros. Os lobisomens visivelmente não estavam caçando, pois estavam em sua forma humana. Mas, mesmo assim, houve uma palpável tensão. Os vampiros lhes lançaram olhares de advertência, aos quais os lupinos responderam com posturas defensivas.

            “Que babacas”, comentara Natã. “Por que não vão vadiar no território deles?”

            “Verdadeiros otários”, concordou Ben.

            No entanto, um dos lobos, o que vinha à frente, como se fosse o líder do bando, captara fortemente sua atenção. Não era tão alto quanto seus companheiros, mas certamente era mais alto do que Ben, e sua postura altiva o fazia parecer maior, assim como seu porte físico robusto, que podia ser notado mesmo por baixo da jaqueta de couro. Sua pele morena combinava com os olhos cor de âmbar, que brilhavam de forma sobrenatural, e o cabelo muito escuro e espesso. Costeletas igualmente espessas cobriam seus maxilares angulosos e ele tinha alargadores nas orelhas e um piercing de argola no nariz.

Em seu íntimo, Ben tinha que admitir que havia se sentido intimidado pela presença de membros da gangue rival. É claro que estava na companhia de seus irmãos mais velhos, mas apenas a perspectiva de participar de um embate era o bastante para deixá-lo apreensivo. No entanto, havia algo mais. Quando se lembrava daquele lobo, o que estranhamente acontecia muitas vezes, junto à ameaça, sentia algo que não se parecia com raiva nem repulsa, mas um estranho tipo de atração. Ben já tivera experiências com outros rapazes, tanto quando mortal quanto após sua metamorfose. Mas sentir tal atração por um lobisomem era algo diferente. Alan, esse era seu nome. Conseguira encontrá-lo na mente de um de seus companheiros. Ainda ficava surpreso com a facilidade com que os pensamentos dos outros se revelavam em sua mente. Essa era a habilidade que os lobos mais odiavam nos vampiros.

O tal Alan devia ser tão exibicionista e orgulhoso quanto Igor, mas a perspectiva de vê-lo outra vez, ainda que fosse para vê-lo cair e quebrar o bonito pescoço, contou para que Ben cedesse ao convite insistente de Max.

Quando o relógio marcou meia-noite, os irmãos estavam no meio de um grupo de vampiros no telhado do condomínio que ficava de frente para o Mirante do Vale, do outro lado de uma Avenida Prestes Maia perpassada por luzes de faróis de carros ainda àquela hora.

Era verão e, apesar de as estrelas estarem ofuscadas pelas luzes da cidade, o céu estava limpo. O horizonte escuro era recortado pelas silhuetas dos prédios, não importava a direção em que olhassem.

Alan também tinha sua plateia. Os lobos estavam no topo de um prédio comercial, à esquerda do estacionamento do condomínio, com uma visão menos privilegiada do Mirante do Vale, mas, até onde Ben sabia, eles tinham uma visão tão aguçada quanto a dos vampiros. Podia ouvir a cacofonia de suas vozes agitadas. Se quisesse podia destacar uma ou duas como linhas de um emaranhado e se concentrar a ponto de ouvir claramente cada palavra. Mas não estava interessado no que os lobos diziam uns aos outros. Só queria que aquela palhaçada acabasse logo para poder caçar. Sua sede era insaciável como era em todos os jovens vampiros.

            Igor chegou numa Harley Davidson preta, acompanhado por Mila, uma bela vampira ruiva. Ele estacionou a motocicleta junto ao meio-fio e os dois ficaram esperando por Alan na calçada, em frente às portas do Mirante.

Alan tardava em aparecer. Os vampiros no teto do condomínio começaram a dizer que ele havia amarelado. Foi então que algo fantástico aconteceu. Um uivo fez todos voltarem os olhos para o viaduto, que era atravessado por um conversível vermelho em alta velocidade. No momento em que passava por sobre a Prestes Maia, uma figura de preto saltou do veículo, descrevendo um arco sobre a avenida e aterrissando com graça bem em frente ao prédio. Essa foi a entrada triunfal de Alan. Do outro lado do estacionamento, os lobos vibraram.

            “Boa noite”, disse ele, com naturalidade, para os dois vampiros. Mesmo àquela distância, Ben conseguia ouvir.

            “Pronto pra perder?”, provocou Igor.

            “Eu nunca perco”, declarou Alan.

            “Sempre há uma primeira vez.”

            “Não pra mim.”

            “Aos seus postos, rapazes”, disse Mila, com sua voz grave e arrastada.

            O vampiro e o lobisomem se posicionaram a um metro do pórtico do prédio. Quando Mila deu o sinal, as duas criaturas saltaram com a leveza de felinos, agarrando-se à parede da fachada do prédio e escalando-a com uma rapidez incrível. Como se tratava de um prédio comercial, todos os andares estavam vazios e as luzes, apagadas, e não havia o risco de serem vistos, embora eles provavelmente não dessem a mínima para isso.

A partir do quinto andar, a fachada do prédio se tornava lisa, com apenas uma fileira vertical de janelas de corredores, que ia até o topo. Igor conseguiu chegar a elas primeiro. Como não queria ficar atrás do vampiro, Alan saltou para a lateral do prédio, que era inteiramente constituída por janelas.

Os grupos de vampiros e lobisomens se exaltavam como torcidas de futebol. Os competidores mostravam igual habilidade e estavam tecnicamente empatados. Após ter superado os vinte e cinco primeiros andares com tranquilidade, Alan perdeu o equilíbrio e caiu. Houve comoção tanto por parte dos lobisomens quanto por parte dos vampiros. Seu reflexo e força sobrenaturais lhe permitiram se agarrar ao peitoril da janela logo abaixo, mas isso deu vantagem a Igor. Alan ficou atrás do adversário durante todo o resto da competição. Igor se aproximava rapidamente do topo. Os vampiros já começavam a comemorar, quando Alan deu um salto incrivelmente arriscado, indo do antepenúltimo andar para o terraço. Por um instante pareceu que não conseguiria, mas ele se agarrou ao beiral do terraço e impulsionou o corpo para cima, pousando sobre a cobertura com a mesma graça com que chegara à calçada. Igor chegou um átimo de segundo depois. Os uivos de comemoração dos lobos encheram a noite. Do alto do Mirante, Alan acenou para seus admiradores. Ofereceu a mão direita a Igor, mas este apenas se virou e desapareceu do outro lado do prédio.

            “Como se vencer a porra de um Desafio os fizesse superiores a nós”, comentou Max, aborrecido.

            Ben apenas deu de ombros. Estava feliz que tivesse acabado. Antes de descer do prédio em que se encontravam, olhou uma última vez para trás, mas Alan não estava mais lá. Tirou aquilo de sua mente e foi à caça.

 

A noite de São Paulo era um prato cheio para os vampiros. Criminosos enfestavam as sombras feito larvas. Era possível caçar o quanto fosse necessário sem nunca levantar suspeitas. Muitos matavam indiscriminadamente. Luca, no entanto, orientava os membros dos Andarilhos Noturnos a caçarem apenas os criminosos, o que Ben, na verdade, apreciava. Gostava da ideia de surpreender aqueles que se achavam muito espertos.

Àquela noite, ao entrar numa boate no distrito de Consolação, logo identificou sua presa. Um homem jovem, bonito e bem vestido abria caminho em meio à pista de dança. Ele também caçava. No bolso interno do sobretudo, uma arma imperceptível: um frasco de Boa Noite Cinderela. Era um especialista no golpe. Drogava suas vítimas e depois as roubava.

Ben foi até o bar e pediu uma bebida. Não foi difícil chamar a atenção do criminoso. Ben era bonito, apesar de não possuir uma beleza convencional. O rosto muito pálido era comprido e de traços fortes, com malares salientes e olhos pequenos e escuros sob sobrancelhas espessas, porém bem delineadas. O nariz descia ao longo de sua face numa grande linha reta, que terminava numa ponta aguçada. A boca era pequena e discreta, com lábios sinuosos de um rosa pálido. O que mais chamava atenção em sua aparência era seu cabelo muito preto e de fios muito espessos, que desciam com suavidade por sobre os ombros quadrados e iam repousar sobre suas costas estreitas. Ben era baixo e esguio e, àquela noite, usava um sobretudo de couro preto que lhe chegava até os pés. Sua aparência enganadoramente frágil o fazia parecer uma vítima fácil.

Quando o bartender chegou com sua bebida, ele fingiu tomar um gole e, logo depois, foi para a pista. O homem se aproximou disfarçadamente e despejou a substância no copo, sem nem ao menos desconfiar de um alvo tão fácil. Ben dançou até o fim da música e voltou para o bar. Dessa vez, tomou todo o conteúdo do copo. A bebida alcoólica, que certa vez tanto apreciara, agora tinha um sabor amargo e repulsivo, mas a encenação precisava ser perfeita. Nenhuma droga, por mais forte que fosse, podia afetá-lo. Seu organismo certamente ia rejeitar a bebida, mas isso não ia abatê-lo.

Ficou por mais algum tempo na boate e, então, saiu. Podia sentir a presença do criminoso a segui-lo. Caminhou por dois quarteirões até chegar a uma rua deserta e vomitou no meio fio. Foi então que o homem o agarrou. Pretendia arrastá-lo até uma van que estava estacionada não muito longe dali, mas foi como tentar mover uma estátua de mármore. Ben agarrou-lhe o pulso e sorriu, exibindo os caninos bestiais.

            “Surpresa!”, disse.

            Ninguém ouviu o grito do criminoso quando Ben fincou os caninos em sua garganta.

            Meia hora antes do amanhecer, já estava de volta a sua casa – um pequeno e elegante sobrado na Rua Vergueiro. Aquele era um bom lugar para um vampiro morar, pois à direita havia uma loja de materiais de construção e, à esquerda, uma oficina, de modo que não precisava se preocupar com vizinhos curiosos.

A construção tinha uma beleza singular, com sua fachada vinho, sua grande porta em arco, suas janelas majestosas e suas luminárias gregas, mas o mais importante era a segurança. Os muros eram altos e encimados por cacos de vidro e as portas e as janelas eram gradeadas.

Os membros dos Andarilhos Noturnos adoravam pertencer a um grupo e muitos compartilhavam seus esconderijos com seus criadores e irmãos de sangue. Um bom número de vampiros tinha aposentos na casa de Luca, que era grande o bastante para acomodá-los.  Ben apreciava a companhia de seus irmãos, mas preferia manter sua individualidade. 

Àquela madrugada, como em muitas outras, o vampiro abriu o portão e atravessou calmamente o jardim, seus coturnos mal fazendo barulho ao tocar o caminho de pedra que cortava o gramado. Sem fazer questão de acender as luzes, atravessou os cômodos até chegar ao quarto dos fundos no segundo andar, que não era muito diferente do quarto de um jovem qualquer. Havia ali uma cama, um guarda-roupa embutido e uma escrivaninha. As paredes eram cobertas por pôsteres de bandas como Theatres des Vampires, Nosferatu, Moonspell e Inkubus Sucubus.

Ben enfiou a mão no bolso de seu sobretudo e tirou uma carteira. Abriu-a e encontrou apenas algumas notas de dois reais amassadas.

“Que merda”, resmungou, atirando o dinheiro dentro da gaveta da escrivaninha. Com uma curiosidade mórbida, examinou os documentos da vítima. Ele se chamava Alexander Santos Vilela, era filho de José Antônio Santos Vilela e Maria Alves Vilela. Tinha nascido em 10 de maio de 1988, em Campinas.

“Já vai tarde”, disse friamente, atirando a carteira, com indiferença, também para dentro da gaveta. Na noite seguinte, ia queimá-la.

Do outro bolso do sobretudo, tirou um anel de ouro. Devia conseguir um bom dinheiro com ele.

Era assim que os membros das gangues de vampiros se mantinham, com o que roubavam de suas vítimas. Em tese, não precisavam de muito para sobreviver. Seus corpos resistentes e imunes a doenças só precisavam de sangue fresco e um lugar seguro para dormir durante o dia, mas gostavam de morar em casas luxuosas, ter boas roupas e ostentar carros e motocicletas caras. Era nisso que Ben pensava quando fechou a gaveta com os pertences que roubara de sua última vítima, mas o dia se aproximava e ele precisava descansar, o que não faria naquela cama. Ao invés disso, dirigiu-se ao guarda-roupa e abriu a última porta à direita. Nada de roupas ali, apenas uma passagem que levava a uma pesada porta de metal. O vampiro tirou um chaveiro do bolso interno do sobretudo e abriu cada uma das três fechaduras. Lá dentro, num aposento de quatro metros quadrados, com paredes sem reboco e chão de cimento, um caixão de laca preto o aguardava. Trancou a porta e deitou-se sobre o estofado de cetim vermelho, puxando sobre si a tampa que o encerrou na escuridão completa.

O Delito